O autor
inglês diz que detesta seu ofício,
conta suas aventuras como jornalista
e fala de seus encontros com espiões
Carlos
Graieb
Depois
de três décadas escrevendo sobre mercenários,
traficantes de armas, assassinos e espiões, o
inglês Frederick Forsyth decidiu dar adeus aos
thrillers que fizeram sua fama. Seu novo romance, O
Fantasma de Manhattan (Editora
Record), é uma história de amor. O título
dá a dica: trata-se de uma seqüência
para o célebre O
Fantasma da Ópera. Não
o livro, publicado pelo francês Gaston Leroux
em 1910, mas o musical, criado pelo inglês Andrew
Lloyd Webber em 1986 e já assistido por mais
de 60 milhões de pessoas. "A idéia nasceu
de um jantar em que eu e Webber discutíamos o
destino do fantasma depois que ele some na escuridão,
no final da peça", conta o autor. "Há
tempos eu desejava escrever algo diferente e percebi
que encontrara um bom tema. O que fiz foi levar o personagem
para os Estados Unidos do começo do século.
Lá, ele alcança a riqueza, mas continua
atormentado." Forsyth, de 61 anos, hoje vive no interior
da Inglaterra, numa fazenda adquirida com os polpudos
ganhos de sua atividadse literária. Nesta entrevista,
ele comenta a guinada em sua carreira, além de
relatar suas aventuras como jornalista e falar sobre
as pesquisas e encontros com agentes secretos que lhe
permitiram escrever romances como O
Dia do Chacal e
Cães
de Guerra.
Veja
Qual
era sua ambição quando começou a
escrever livros?
Forsyth
Nos
anos 60 eu trabalhava como jornalista, mas cheguei ao
final da década desempregado e falido. Assim, quando
estreei na literatura com O
Dia do Chacal,
em 1971, minha prioridade era ganhar a vida. Falando honestamente,
acho que ainda hoje o dinheiro desempenha um papel central
na minha carreira de escritor. Só não me
considero um obcecado pelo aspecto financeiro. Não
venderia a alma para tornar-me um bilionário. Entre
uma tarde diante da máquina de escrever e uma tarde
na pescaria, prefiro a segunda opção.
Veja
Como
é sua rotina de trabalho?
Forsyth
Normalmente,
levo um ano e meio trabalhando num romance, da primeira
idéia à revisão de originais. Depois,
presenteio-me com férias. Há autores que
escrevem todo santo dia. Sou incapaz de fazê-lo.
Aliás, detesto escrever. Eu adoro imaginar a história
e pesquisar seus detalhes. Mas ficar sentado em um quarto
fechado é chato demais.
Veja
Certa
vez o senhor disse que se considerava um "repórter
que contava histórias". Ainda pensa desse modo?
Forsyth
Sim.
O jornalismo é uma espécie de doença,
como a malária. Os sintomas desaparecem por longos
períodos, mas sempre acabam voltando. Pesquiso
meus livros à maneira de um repórter. Visito
as pessoas envolvidas nos acontecimentos, ganho sua confiança
e as convenço a contar detalhes que nunca revelaram
antes. Meu estilo também é semelhante ao
de uma boa reportagem, sem floreios. Sou mais jornalístico
do que literário.
Veja
O
que o senhor gosta de ler?
Forsyth
Obras
de não-ficção. De vez em quando leio
um romance. Nesse caso, prefiro os thrillers. Quanto aos
modernismos, eles não me atraem. Prefiro textos
que vão direto ao ponto.
Veja
O
senhor costuma dizer que a cobertura da guerra entre Biafra
e Nigéria, em 1969, foi sua experiência mais
marcante como jornalista. Por quê?
Forsyth
Vi
a fome ser imposta a crianças africanas como manobra
de guerra, como parte de um jogo político. Mais
tarde isso se tornaria rotina na África. Na ocasião,
eu tinha 30 anos. Parti para Biafra escalado pela BBC,
achando que presenciaria uma guerra entre nativos, sem
muito significado. Pouco depois, estava diante de fatos
traumáticos. Por incrível que pareça,
o governo inglês tentou censurar as reportagens
que enviei. Então eu me demiti e comecei a trabalhar
independentemente, publicando em diversos jornais. Creio
que meus textos tiveram um papel importante para que o
conflito ganhasse as páginas dos principais jornais
do mundo.
Veja
Ainda
sobre sua carreira jornalística: é verdade
que o senhor anunciou a III Guerra Mundial?
Forsyth
Esse
é um episódio engraçado. Na madrugada
de 24 de abril de 1964, eu estava voltando de um jantar
em Berlim Oriental quando vi o que parecia ser metade
do Exército soviético em movimento. Eram
colunas e mais colunas de soldados. Chegando a meu apartamento,
escrevi um texto correndo e o mandei para Londres. Meus
editores entraram em polvorosa e a notícia se espalhou
rapidamente. Na manhã seguinte, os russos se apressaram
em esclarecer a história: a movimentação
da soldadesca era apenas um ensaio para a parada militar
do 1º de Maio. Mas juro que às 3 da manhã,
e vivendo na época em que vivíamos, qualquer
um teria pensado o que pensei.
Veja
Do
ponto de vista literário, o senhor se sente um
órfão com o fim da Guerra Fria?
Forsyth
Não
me sinto um órfão porque, ao contrário
do que dizem os críticos, nunca dependi desse assunto
para escrever ficção. Somente três
de meus nove thrillers têm a ver com o tema. E também
não foi por causa do fim da Guerra Fria que resolvi
lançar um livro como O
Fantasma de Manhattan,
uma continuação do musical O
Fantasma da Ópera,
de Andrew Lloyd Webber.
Veja
O
senhor partiu para a literatura açucarada?
Forsyth
Não
sei como classificar O
Fantasma de Manhattan.
É uma história de amor, sem dúvida,
mas a minha intenção não é
competir com as senhoras que fizeram fortuna com esse
gênero.
Veja
Seus
livros sempre lidaram com distinções claras.
O bem de um lado, o mal de outro. Se o senhor fosse escrever
um thriller hoje, qual seria a representação
do mal?
Forsyth
O
mal é hoje algo difuso. São os genocídios
que ocorrem na África. Os países politicamente
instáveis que têm bombas atômicas.
As máfias que se infiltram por tudo. As drogas
que corrompem a sociedade. Todos esses assuntos poderiam
tornar-se tema de um livro do antigo Frederick Forsyth.
Veja
O
escritor colombiano Gabriel García Márquez
disse certa vez que O
Dia do Chacal
seria um livro melhor se o presidente francês Charles
de Gaulle morresse no final da história. Queria
dizer que, em ficção, o imaginado é
sempre melhor do que o verossímil. O que o senhor
acha dessa idéia?
Forsyth
Creio
que é um modo errado de enxergar as coisas. A busca
de verossimilhança, numa obra ficcional, está
longe de ser um defeito ou uma fraqueza. Em especial no
que se refere a thrillers de conteúdo político,
como O Dia
do Chacal. Se
eu tivesse matado De Gaulle, isso pareceria forçado
aos leitores. Inclusive porque a história é
ambientada em 1963 e o presidente francês só
veio a morrer anos depois.
Veja
É
verdade que o senhor decidiu escrever O
Dia do Chacal
quando chegou à conclusão de que a segurança
de De Gaulle era falha e poderia ser driblada?
Forsyth
Em
1962 e 1963 eu estive na França como correspondente
da agência Reuters. Nessa condição,
cobri uma tentativa de assassinato contra De Gaulle. Depois
desse episódio, ficou claro para mim que as organizações
clandestinas existentes na França nunca seriam
capazes de matar o presidente, pois todos os passos delas
eram acompanhados pela polícia secreta. Mas e se
aqueles fanáticos contratassem alguém de
fora? Parecia-me que a segurança de De Gaulle não
estava preparada para lidar com métodos novos.
Daí nasceu o livro.
Veja
É
fácil matar um líder político?
Forsyth
Depende. Os
governantes democráticos estão mais expostos
do que os tiranos. Numa sociedade aberta, nenhum líder
pode ser como Saddam Hussein e viver atrás de
muralhas de guarda-costas. O ditador iraquiano sobreviveu
até agora a cerca de dez atentados. Se precisasse
caminhar entre multidões, se necessitasse ter
um contato mais direto com o povo, Saddam já
teria sido morto. É um dos paradoxos da democracia.
Veja
A
ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher
disse que o único romance que ela leu duas vezes
foi O
Dossiê Odessa.
Isso o deixa particularmente satisfeito ou preferiria
que Tony Blair fosse seu fã?
Forsyth
Tony
Blair? Duvido que ele leia romances. Duvido até
que tenha chegado às histórias em quadrinhos.
Quanto a Margaret Thatcher, ela tinha um hábito
em particular. Toda noite, antes de ir para a cama,
gostava de ler um capítulo de thriller. Então,
um dia, alguém a presenteou com O
Dia do Chacal.
Ela gostou bastante e passou a acompanhar minha carreira.
Posso dizer que isso me dá orgulho.
Veja
O
senhor era partidário de Thatcher?
Forsyth
Sim.
Seu governo nos arrancou de uma terrível confusão.
De 1945 a 1975 tudo o que a Inglaterra fez foi decair,
em todas as áreas. No meio da década de
70, enquanto a Alemanha avançava a passos largos
no plano econômico, nós tínhamos somente
greves, déficits imensos e inflação
acelerada. Além disso, estávamos sufocados
por um sistema fiscal que nos impedia de prosperar. Todos
esses problemas eram resultado de trinta anos de socialismo,
praticado mesmo quando gabinetes conservadores assumiam
o poder. Então veio Thatcher e disse firmemente
que aquilo precisava acabar. Ela mudou o regime de impostos,
privatizou empresas que davam prejuízo e impediu
que os sindicatos decretassem uma greve a cada dia. Infelizmente,
John Major a sucedeu onze anos depois, transformando tudo
novamente em uma terrível bagunça. Major
desacreditou de tal forma o governo conservador que uma
derrota para os trabalhistas tornou-se inevitável.
Veja
O
que pensa da terceira via proposta por Blair?
Forsyth
Embora
escreva ficção, gosto de histórias
com base na realidade. Não acredito na terceira
via. É uma invenção nebulosa. No
fundo, ela se resume a isto: concorde em tudo com Tony
Blair. Do contrário, você é um extremista
e deve ser execrado.
Veja
É
verdade que, na década de 70, o senhor deixou a
Inglaterra para fugir dos impostos?
Forsyth
Sim,
e não fui o único. Muitas pessoas talentosas
e bem remuneradas deixaram o país nessa época,
quando a tributação para certos tipos de
ganho chegou a atingir níveis absurdos. Hoje, a
tributação máxima sobre a renda é
de 40%, com uma faixa intermediária de 23% e uma
faixa inferior de 10%. Agora, sim, posso viver na Inglaterra.
Veja
Seu
amigo, o romancista Ken Follett, tem um site na internet
no qual ensina como escrever um romance de sucesso. O
senhor seria capaz de dar dicas desse tipo?
Forsyth
Não
creio. Para mim, escrever é como fazer sexo. Cada
um tem de fazer do seu jeito.
Veja
O
senhor usa a internet?
Forsyth
Não.
Só minha mulher tem computador aqui em casa. Não
me sinto à vontade para colocar meus segredos numa
máquina que um garoto de 10 anos pode devassar.
Veja
Dizem
que o senhor financiou um grupo mercenário nos
anos 70. Qual sua versão dos fatos?
Forsyth
É
uma boa história, mas exagerada. O que acontece
é que antes de escrever Cães
de Guerra
eu desejava investigar a maneira como um golpe de Estado
podia ser organizado e como armas ilegais podiam ser adquiridas.
Descobri um grupo negociando com traficantes de armas
em Hamburgo. Entrei em contato com eles, usando um nome
falso. Acompanhei suas atividades por dois meses, reuni
a informação de que precisava e me desliguei.
Uma pessoa, no entanto, me reconhecera. Ele anotou esse
fato em seu diário e conjecturou que, sendo eu
um escritor famoso e relativamente rico, talvez fosse
o "líder secreto" da organização.
Alguns anos mais tarde, creio que em 1978, esse mercenário
foi morto num confronto com a polícia. A polícia
encontrou seu diário e o entregou aos jornais.
Foi assim que me transformei em comandante de mercenários.
Para alimentar uma revolução, alguns milhões
precisariam ser gastos. Gastei 50.000
libras em minha pesquisa e, felizmente, fui muito bem
ressarcido pela vendagem do livro.
Veja
É
verdade que os agentes da KGB eram fãs de seus
livros?
Forsyth
Pelo
menos foi o que me contaram dois dissidentes soviéticos.
E isso não deixou de ser uma surpresa, já
que oficialmente meus livros eram proibidos na Rússia.
Segundo um desses dissidentes, todos os romances estavam
disponíveis para os membros do serviço secreto
contanto que fossem lidos no interior do quartel-general.
Veja
Existe
um restaurante em Londres que exibe uma placa na qual
está escrito: "Nesta mesa, Frederick Forsyth costumava
jantar com espiões e assassinos". Há um
código de comportamento para tais ocasiões?
Forsyth
Digamos
que sim. Em primeiro lugar, não aja como um personagem
dos filmes de James Bond. Os filmes são ótimos,
mas são pura fantasia. Dito isso, o importante
é aceitar e proteger o disfarce de seu contato.
Se ele fingir ser um vendedor de Bíblias,
compre uma Bíblia
dele.
Nada deixa um espião mais frustrado do que ver
seu disfarce menosprezado. Seja educado, aceite sua camuflagem
e você terá boas chances de obter a informação
que deseja.