Edição 1 627 - 8/12/1999

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Prefiro pescar

O autor inglês diz que detesta seu ofício,
conta suas aventuras como jornalista
e fala de seus encontros com espiões

Carlos Graieb

Depois de três décadas escrevendo sobre mercenários, traficantes de armas, assassinos e espiões, o inglês Frederick Forsyth decidiu dar adeus aos thrillers que fizeram sua fama. Seu novo romance, O Fantasma de Manhattan (Editora Record), é uma história de amor. O título dá a dica: trata-se de uma seqüência para o célebre O Fantasma da Ópera. Não o livro, publicado pelo francês Gaston Leroux em 1910, mas o musical, criado pelo inglês Andrew Lloyd Webber em 1986 e já assistido por mais de 60 milhões de pessoas. "A idéia nasceu de um jantar em que eu e Webber discutíamos o destino do fantasma depois que ele some na escuridão, no final da peça", conta o autor. "Há tempos eu desejava escrever algo diferente e percebi que encontrara um bom tema. O que fiz foi levar o personagem para os Estados Unidos do começo do século. Lá, ele alcança a riqueza, mas continua atormentado." Forsyth, de 61 anos, hoje vive no interior da Inglaterra, numa fazenda adquirida com os polpudos ganhos de sua atividadse literária. Nesta entrevista, ele comenta a guinada em sua carreira, além de relatar suas aventuras como jornalista e falar sobre as pesquisas e encontros com agentes secretos que lhe permitiram escrever romances como O Dia do Chacal e Cães de Guerra.

 
Veja – Qual era sua ambição quando começou a escrever livros?
Forsyth – Nos anos 60 eu trabalhava como jornalista, mas cheguei ao final da década desempregado e falido. Assim, quando estreei na literatura com O Dia do Chacal, em 1971, minha prioridade era ganhar a vida. Falando honestamente, acho que ainda hoje o dinheiro desempenha um papel central na minha carreira de escritor. Só não me considero um obcecado pelo aspecto financeiro. Não venderia a alma para tornar-me um bilionário. Entre uma tarde diante da máquina de escrever e uma tarde na pescaria, prefiro a segunda opção.
 
Veja – Como é sua rotina de trabalho?
Forsyth – Normalmente, levo um ano e meio trabalhando num romance, da primeira idéia à revisão de originais. Depois, presenteio-me com férias. Há autores que escrevem todo santo dia. Sou incapaz de fazê-lo. Aliás, detesto escrever. Eu adoro imaginar a história e pesquisar seus detalhes. Mas ficar sentado em um quarto fechado é chato demais.
 
Veja – Certa vez o senhor disse que se considerava um "repórter que contava histórias". Ainda pensa desse modo?
Forsyth – Sim. O jornalismo é uma espécie de doença, como a malária. Os sintomas desaparecem por longos períodos, mas sempre acabam voltando. Pesquiso meus livros à maneira de um repórter. Visito as pessoas envolvidas nos acontecimentos, ganho sua confiança e as convenço a contar detalhes que nunca revelaram antes. Meu estilo também é semelhante ao de uma boa reportagem, sem floreios. Sou mais jornalístico do que literário.
 
Veja – O que o senhor gosta de ler?
Forsyth – Obras de não-ficção. De vez em quando leio um romance. Nesse caso, prefiro os thrillers. Quanto aos modernismos, eles não me atraem. Prefiro textos que vão direto ao ponto.
 
Veja – O senhor costuma dizer que a cobertura da guerra entre Biafra e Nigéria, em 1969, foi sua experiência mais marcante como jornalista. Por quê?
Forsyth – Vi a fome ser imposta a crianças africanas como manobra de guerra, como parte de um jogo político. Mais tarde isso se tornaria rotina na África. Na ocasião, eu tinha 30 anos. Parti para Biafra escalado pela BBC, achando que presenciaria uma guerra entre nativos, sem muito significado. Pouco depois, estava diante de fatos traumáticos. Por incrível que pareça, o governo inglês tentou censurar as reportagens que enviei. Então eu me demiti e comecei a trabalhar independentemente, publicando em diversos jornais. Creio que meus textos tiveram um papel importante para que o conflito ganhasse as páginas dos principais jornais do mundo.
 
Veja – Ainda sobre sua carreira jornalística: é verdade que o senhor anunciou a III Guerra Mundial?
Forsyth – Esse é um episódio engraçado. Na madrugada de 24 de abril de 1964, eu estava voltando de um jantar em Berlim Oriental quando vi o que parecia ser metade do Exército soviético em movimento. Eram colunas e mais colunas de soldados. Chegando a meu apartamento, escrevi um texto correndo e o mandei para Londres. Meus editores entraram em polvorosa e a notícia se espalhou rapidamente. Na manhã seguinte, os russos se apressaram em esclarecer a história: a movimentação da soldadesca era apenas um ensaio para a parada militar do 1º de Maio. Mas juro que às 3 da manhã, e vivendo na época em que vivíamos, qualquer um teria pensado o que pensei.
 
Veja – Do ponto de vista literário, o senhor se sente um órfão com o fim da Guerra Fria?
Forsyth – Não me sinto um órfão porque, ao contrário do que dizem os críticos, nunca dependi desse assunto para escrever ficção. Somente três de meus nove thrillers têm a ver com o tema. E também não foi por causa do fim da Guerra Fria que resolvi lançar um livro como O Fantasma de Manhattan, uma continuação do musical O Fantasma da Ópera, de Andrew Lloyd Webber.
 
Veja – O senhor partiu para a literatura açucarada?
Forsyth – Não sei como classificar O Fantasma de Manhattan. É uma história de amor, sem dúvida, mas a minha intenção não é competir com as senhoras que fizeram fortuna com esse gênero.
 
Veja – Seus livros sempre lidaram com distinções claras. O bem de um lado, o mal de outro. Se o senhor fosse escrever um thriller hoje, qual seria a representação do mal?
Forsyth – O mal é hoje algo difuso. São os genocídios que ocorrem na África. Os países politicamente instáveis que têm bombas atômicas. As máfias que se infiltram por tudo. As drogas que corrompem a sociedade. Todos esses assuntos poderiam tornar-se tema de um livro do antigo Frederick Forsyth.
 
Veja – O escritor colombiano Gabriel García Márquez disse certa vez que O Dia do Chacal seria um livro melhor se o presidente francês Charles de Gaulle morresse no final da história. Queria dizer que, em ficção, o imaginado é sempre melhor do que o verossímil. O que o senhor acha dessa idéia?
Forsyth – Creio que é um modo errado de enxergar as coisas. A busca de verossimilhança, numa obra ficcional, está longe de ser um defeito ou uma fraqueza. Em especial no que se refere a thrillers de conteúdo político, como O Dia do Chacal. Se eu tivesse matado De Gaulle, isso pareceria forçado aos leitores. Inclusive porque a história é ambientada em 1963 e o presidente francês só veio a morrer anos depois.
 
Veja – É verdade que o senhor decidiu escrever O Dia do Chacal quando chegou à conclusão de que a segurança de De Gaulle era falha e poderia ser driblada?
Forsyth – Em 1962 e 1963 eu estive na França como correspondente da agência Reuters. Nessa condição, cobri uma tentativa de assassinato contra De Gaulle. Depois desse episódio, ficou claro para mim que as organizações clandestinas existentes na França nunca seriam capazes de matar o presidente, pois todos os passos delas eram acompanhados pela polícia secreta. Mas e se aqueles fanáticos contratassem alguém de fora? Parecia-me que a segurança de De Gaulle não estava preparada para lidar com métodos novos. Daí nasceu o livro.
 

Veja – É fácil matar um líder político?
Forsyth
Depende. Os governantes democráticos estão mais expostos do que os tiranos. Numa sociedade aberta, nenhum líder pode ser como Saddam Hussein e viver atrás de muralhas de guarda-costas. O ditador iraquiano sobreviveu até agora a cerca de dez atentados. Se precisasse caminhar entre multidões, se necessitasse ter um contato mais direto com o povo, Saddam já teria sido morto. É um dos paradoxos da democracia.

Veja – A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher disse que o único romance que ela leu duas vezes foi O Dossiê Odessa. Isso o deixa particularmente satisfeito ou preferiria que Tony Blair fosse seu fã?
Forsyth –
Tony Blair? Duvido que ele leia romances. Duvido até que tenha chegado às histórias em quadrinhos. Quanto a Margaret Thatcher, ela tinha um hábito em particular. Toda noite, antes de ir para a cama, gostava de ler um capítulo de thriller. Então, um dia, alguém a presenteou com O Dia do Chacal. Ela gostou bastante e passou a acompanhar minha carreira. Posso dizer que isso me dá orgulho.  

Veja – O senhor era partidário de Thatcher?
Forsyth – Sim. Seu governo nos arrancou de uma terrível confusão. De 1945 a 1975 tudo o que a Inglaterra fez foi decair, em todas as áreas. No meio da década de 70, enquanto a Alemanha avançava a passos largos no plano econômico, nós tínhamos somente greves, déficits imensos e inflação acelerada. Além disso, estávamos sufocados por um sistema fiscal que nos impedia de prosperar. Todos esses problemas eram resultado de trinta anos de socialismo, praticado mesmo quando gabinetes conservadores assumiam o poder. Então veio Thatcher e disse firmemente que aquilo precisava acabar. Ela mudou o regime de impostos, privatizou empresas que davam prejuízo e impediu que os sindicatos decretassem uma greve a cada dia. Infelizmente, John Major a sucedeu onze anos depois, transformando tudo novamente em uma terrível bagunça. Major desacreditou de tal forma o governo conservador que uma derrota para os trabalhistas tornou-se inevitável.
 
Veja – O que pensa da terceira via proposta por Blair?
Forsyth – Embora escreva ficção, gosto de histórias com base na realidade. Não acredito na terceira via. É uma invenção nebulosa. No fundo, ela se resume a isto: concorde em tudo com Tony Blair. Do contrário, você é um extremista e deve ser execrado.
 
Veja – É verdade que, na década de 70, o senhor deixou a Inglaterra para fugir dos impostos?
Forsyth – Sim, e não fui o único. Muitas pessoas talentosas e bem remuneradas deixaram o país nessa época, quando a tributação para certos tipos de ganho chegou a atingir níveis absurdos. Hoje, a tributação máxima sobre a renda é de 40%, com uma faixa intermediária de 23% e uma faixa inferior de 10%. Agora, sim, posso viver na Inglaterra.
 
Veja – Seu amigo, o romancista Ken Follett, tem um site na internet no qual ensina como escrever um romance de sucesso. O senhor seria capaz de dar dicas desse tipo?
Forsyth – Não creio. Para mim, escrever é como fazer sexo. Cada um tem de fazer do seu jeito.
 
Veja – O senhor usa a internet?
Forsyth – Não. Só minha mulher tem computador aqui em casa. Não me sinto à vontade para colocar meus segredos numa máquina que um garoto de 10 anos pode devassar.
 
Veja – Dizem que o senhor financiou um grupo mercenário nos anos 70. Qual sua versão dos fatos?
Forsyth – É uma boa história, mas exagerada. O que acontece é que antes de escrever Cães de Guerra eu desejava investigar a maneira como um golpe de Estado podia ser organizado e como armas ilegais podiam ser adquiridas. Descobri um grupo negociando com traficantes de armas em Hamburgo. Entrei em contato com eles, usando um nome falso. Acompanhei suas atividades por dois meses, reuni a informação de que precisava e me desliguei. Uma pessoa, no entanto, me reconhecera. Ele anotou esse fato em seu diário e conjecturou que, sendo eu um escritor famoso e relativamente rico, talvez fosse o "líder secreto" da organização. Alguns anos mais tarde, creio que em 1978, esse mercenário foi morto num confronto com a polícia. A polícia encontrou seu diário e o entregou aos jornais. Foi assim que me transformei em comandante de mercenários. Para alimentar uma revolução, alguns milhões precisariam ser gastos. Gastei 50.000 libras em minha pesquisa e, felizmente, fui muito bem ressarcido pela vendagem do livro.
 
Veja – É verdade que os agentes da KGB eram fãs de seus livros?
Forsyth – Pelo menos foi o que me contaram dois dissidentes soviéticos. E isso não deixou de ser uma surpresa, já que oficialmente meus livros eram proibidos na Rússia. Segundo um desses dissidentes, todos os romances estavam disponíveis para os membros do serviço secreto – contanto que fossem lidos no interior do quartel-general.
 
Veja – Existe um restaurante em Londres que exibe uma placa na qual está escrito: "Nesta mesa, Frederick Forsyth costumava jantar com espiões e assassinos". Há um código de comportamento para tais ocasiões?
Forsyth – Digamos que sim. Em primeiro lugar, não aja como um personagem dos filmes de James Bond. Os filmes são ótimos, mas são pura fantasia. Dito isso, o importante é aceitar e proteger o disfarce de seu contato. Se ele fingir ser um vendedor de Bíblias, compre uma Bíblia dele. Nada deixa um espião mais frustrado do que ver seu disfarce menosprezado. Seja educado, aceite sua camuflagem e você terá boas chances de obter a informação que deseja.