Edição 1 627 - 8/12/1999

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A cara do Brasil

"Estão errados aqueles que dizem que o país está estagnado há duas décadas. Há números novos, nos quais o Brasil mostra a sua cara, que podem nos ajudar a pensar sobre isto"

 


Ilustração Ale Setti

O Brasil cresceu pouco nos últimos dez anos: 2,7% em média, acumulando 23,5%. Culpa de muitas escolhas erradas. E não só de hoje. Mas o Brasil não parou de mudar. E para melhor. Estão errados aqueles que dizem que o país está estagnado há duas décadas. Há números novos, nos quais o Brasil mostra a sua cara, que podem nos ajudar a pensar sobre isso.

Houve um avanço sem precedentes na educação. As crianças fora da escola, entre 10 e 14 anos, passaram de 11%, em 1988, para 5%, em 1998. Está na Pnad divulgada pelo IBGE na semana passada. No Nordeste, no mesmo período, essa queda foi de 53%, saindo de 17% para 8%. O analfabetismo nessa faixa de idade caiu de 11% para 7%. A escolarização, em 1998, ficou acima de 90% em todas as regiões do país. Em 1995, apenas um terço das crianças que entraram na 1ª série do 1º grau conseguia concluir o 2º grau. Em 1997, metade dos que entraram na escola concluiu o 2º grau. O tempo gasto para fazer as onze séries foi de catorze anos em 1997. Como são obstinados nossos repetentes! Mas esse tempo já foi maior: quase quinze anos e meio em 1995, que desperdício. Dados do censo escolar.

Diminuiu em 1 milhão o número de crianças de 5 a 14 anos que trabalham, uma queda de 27%. Mas ainda temos quase 3 milhões de crianças trabalhando. A distribuição de renda melhorou um pouco nesse período. Os rendimentos médios reais cresceram com o fim da inflação, que não foi, como se vê, a única conquista da década. Os indicadores de saúde melhoraram muito, com queda da mortalidade infantil e elevação da expectativa de vida.

Não trago esses números para festejar ou me ufanar. Apenas para nos reconciliar com o Brasil, adquirindo uma dimensão mais realista do desafio que ainda temos pela frente. Um país que apenas piora, como aparece em certas visões contemporâneas de nosso presente, só pode sentir-se derrotado. Se só perde, não dá para acreditar que possa enfrentar seus desafios. Já um país que avança apesar das crises tem outra perspectiva de futuro. Sabe que é possível superar obstáculos e pode gostar um pouco mais de si mesmo a cada ano. Não precisa ter medo de reconhecer o que há de bom no país apenas porque discorda do governo ou não se sente confortável com alguns dos inúmeros problemas que ainda temos. E temos vários, alguns enraizados na História. Como lamentava Mário de Andrade: "Caminhos, caminhos, caminhos errados de séculos". Crise e mudança andam embaralhados no Brasil por muito tempo.

Já tratei aqui de nossas desigualdades duráveis. Disse que suas raízes estruturais mais profundas são o racismo e o machismo. A Pnad 1998 revela que as mulheres ganharam em média 59% da renda dos homens. Já foi pior: em 1990, a renda feminina era 50% da masculina. Entre 1988 e 1998, o rendimento médio real das mulheres cresceu mais que o dos homens. As mulheres são mais qualificadas. Ganham mais do que antes, mas ainda estão em posição ocupacional inferior à que deveriam estar por mérito. A Fipe, em sua última pesquisa sobre orçamentos familiares, mostra que as mulheres sustentam mais de 50% das famílias mais pobres, porém não comandam sequer 10% das famílias mais ricas.

O Dieese traçou recentemente a trajetória da discriminação econômica dos negros, fruto da discriminação racial. Os negros são mais pobres porque não tiveram acesso aos meios para melhorar de vida. Sobretudo na educação. Está mudando. A classe média negra é testemunha. Mas a mulher negra ganha 37% menos que o homem negro. Este, por sua vez, ganha 10% menos que a mulher branca, que tem renda inferior à do homem branco. A distância entre a mulher negra e a branca, ambas discriminadas, é de 26%. Mas a diferença entre o homem negro e o branco é de 40%.

Precisamos enfrentar esse desafio. Ele é social e político, não é só governamental. Ivanir dos Santos, presidente do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, em artigo recente diz que a dor da exclusão, os negros a carregam desde crianças. Não conheço essa dor, sou homem branco. Deixo-lhes, pelo menos, os números dela para pensarem.

Sérgio Abranches é cientista político