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A cara
do Brasil
"Estão
errados aqueles que dizem que o país está
estagnado há duas décadas. Há
números novos, nos quais o Brasil mostra
a sua cara, que podem nos ajudar a pensar sobre
isto"
Ilustração
Ale Setti

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O
Brasil cresceu pouco nos últimos dez anos:
2,7% em média, acumulando 23,5%. Culpa de
muitas escolhas erradas. E não só
de hoje. Mas o Brasil não parou de mudar.
E para melhor. Estão errados aqueles que
dizem que o país está estagnado há
duas décadas. Há números novos,
nos quais o Brasil mostra a sua cara, que podem
nos ajudar a pensar sobre isso.
Houve
um avanço sem precedentes na educação.
As crianças fora da escola, entre 10 e 14
anos, passaram de 11%, em 1988, para 5%, em 1998.
Está na Pnad divulgada pelo IBGE na semana
passada. No Nordeste, no mesmo período, essa
queda foi de 53%, saindo de 17% para 8%. O analfabetismo
nessa faixa de idade caiu de 11% para 7%. A escolarização,
em 1998, ficou acima de 90% em todas as regiões
do país. Em 1995, apenas um terço
das crianças que entraram na 1ª série
do 1º grau conseguia concluir o 2º grau.
Em 1997, metade dos que entraram na escola concluiu
o 2º grau. O tempo gasto para fazer as onze
séries foi de catorze anos em 1997. Como
são obstinados nossos repetentes! Mas esse
tempo já foi maior: quase quinze anos e meio
em 1995, que desperdício. Dados do censo
escolar.
Diminuiu
em 1 milhão o número de crianças
de 5 a 14 anos que trabalham, uma queda de 27%.
Mas ainda temos quase 3 milhões de crianças
trabalhando. A distribuição de renda
melhorou um pouco nesse período. Os rendimentos
médios reais cresceram com o fim da inflação,
que não foi, como se vê, a única
conquista da década. Os indicadores de saúde
melhoraram muito, com queda da mortalidade infantil
e elevação da expectativa de vida.
Não
trago esses números para festejar ou me ufanar.
Apenas para nos reconciliar com o Brasil, adquirindo
uma dimensão mais realista do desafio que
ainda temos pela frente. Um país que apenas
piora, como aparece em certas visões contemporâneas
de nosso presente, só pode sentir-se derrotado.
Se só perde, não dá para acreditar
que possa enfrentar seus desafios. Já um
país que avança apesar das crises
tem outra perspectiva de futuro. Sabe que é
possível superar obstáculos e pode
gostar um pouco mais de si mesmo a cada ano. Não
precisa ter medo de reconhecer o que há de
bom no país apenas porque discorda do governo
ou não se sente confortável com alguns
dos inúmeros problemas que ainda temos. E
temos vários, alguns enraizados na História.
Como lamentava Mário de Andrade: "Caminhos,
caminhos, caminhos errados de séculos". Crise
e mudança andam embaralhados no Brasil por
muito tempo.
Já
tratei aqui de nossas desigualdades duráveis.
Disse que suas raízes estruturais mais profundas
são o racismo e o machismo. A Pnad 1998 revela
que as mulheres ganharam em média 59% da
renda dos homens. Já foi pior: em 1990, a
renda feminina era 50% da masculina. Entre 1988
e 1998, o rendimento médio real das mulheres
cresceu mais que o dos homens. As mulheres são
mais qualificadas. Ganham mais do que antes, mas
ainda estão em posição ocupacional
inferior à que deveriam estar por mérito.
A Fipe, em sua última pesquisa sobre orçamentos
familiares, mostra que as mulheres sustentam mais
de 50% das famílias mais pobres, porém
não comandam sequer 10% das famílias
mais ricas.
O
Dieese traçou recentemente a trajetória
da discriminação econômica dos
negros, fruto da discriminação racial.
Os negros são mais pobres porque não
tiveram acesso aos meios para melhorar de vida.
Sobretudo na educação. Está
mudando. A classe média negra é testemunha.
Mas a mulher negra ganha 37% menos que o homem negro.
Este, por sua vez, ganha 10% menos que a mulher
branca, que tem renda inferior à do homem
branco. A distância entre a mulher negra e
a branca, ambas discriminadas, é de 26%.
Mas a diferença entre o homem negro e o branco
é de 40%.
Precisamos
enfrentar esse desafio. Ele é social e político,
não é só governamental. Ivanir
dos Santos, presidente do Centro de Articulação
de Populações Marginalizadas, em artigo
recente diz que a dor da exclusão, os negros
a carregam desde crianças. Não conheço
essa dor, sou homem branco. Deixo-lhes, pelo menos,
os números dela para pensarem.
Sérgio
Abranches
é cientista político
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