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Tales
Alvarenga
Muy amigos
"As
relações Brasil-Argentina
estão
ficando caricatas. E o Mercosul corre
o risco de virar peça de ficção"
É histórica a rivalidade entre
brasileiros e argentinos. A área de atrito mais conhecida
é o futebol, mas essa é a que menos conta. O que falta
nos brasileiros sobra nos argentinos em matéria de auto-estima.
Chamam-nos de "macaquitos". Nós dizemos que o argentino é
um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês.
No passado, os militares de ambos os lados chegaram a criar modelos
teóricos para uma hipotética guerra nos pampas. Há
treze anos, Brasil e Argentina resolveram se casar comercialmente,
junto com Paraguai e Uruguai, através do Mercosul. Pensou-se
que, a partir daí, estivesse encerrada a batalha. Nada disso.
A guerra continuou por um meio mais civilizado,
o comércio. Neste ano, Buenos Aires só criou embaraços
para a compra de produtos brasileiros. Argumentou que as importações
estavam prejudicando o crescimento da sua indústria. Resultado:
calçados, geladeiras, televisores, máquinas de lavar
e fogões fabricados no Brasil começaram a se defrontar
com dificuldades crescentes para entrar no país vizinho.
Nada se produziu no governo Lula para dar tratamento recíproco
aos argentinos.
Na raiz do problema está uma definição
estratégica equivocada dos responsáveis pela diplomacia
no governo Lula. O Brasil tem se empenhado abaixo das expectativas
nas negociações para a formação da Alca,
área de livre-comércio a ser montada com os Estados
Unidos e os outros países das Américas. Sente-se ameaçado
pela voracidade e competência dos americanos numa união
desse tipo. Também vê riscos num acerto comercial com
a União Européia. Esses acordos andam a passo lento
porque os encarregados das negociações acham que nada
devem ceder que contrarie aquilo que entendem como soberania nacional
e modelo brasileiro de desenvolvimento.
Essa atitude evidencia o grau de provincianismo
brasileiro. O governo Lula decidiu que o Brasil deve se expressar
internacionalmente como um líder. Como não consegue
seguidores no primeiro time mundial, a solução é
impor nossa força diplomática e comercial na terceira
divisão, junto aos países pobres ou emergentes.
Desse ponto de partida que não leva
a lugar algum, nasceu a aspiração do governo Lula
de fazer uma política externa voltada para os países
do Hemisfério Sul, tendo o Brasil, é claro, como o
chefão da operação. Foi daí também
que surgiu o conceito visionário de que o Brasil tem como
destino mudar a geografia do comércio internacional com a
cumplicidade dos seus companheiros capengas do Terceiro Mundo. Essa
cumplicidade só existe na cabeça dos assessores de
Lula para a política externa.
É para seduzir Buenos Aires que o Brasil
vem aceitando todas as restrições e exigências
argentinas. Em vez de assinar acordos comerciais com a parte do
mundo que conta, o Brasil insiste na miragem do Mercosul. Enquanto
isso, os países latino-americanos estão firmando acordos
bilaterais de comércio com os Estados Unidos em número
crescente. Quer dizer, a Alca não sai no atacado, mas já
está saindo no varejo, sem o Brasil. Na semana passada, o
presidente da Argentina, Néstor Kirchner, e o ditador do
Paquistão, Pervez Musharraf, assinaram um acordo que na prática
os coloca contra a pretensão dos vizinhos Brasil e Índia
de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da
ONU. Pura rivalidade. As relações entre o Brasil e
os muy amigos argentinos estão adquirindo contornos caricatos.
E o Mercosul corre o risco de virar peça de ficção.
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