Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Tales Alvarenga
Muy amigos

"As relações Brasil-Argentina estão
ficando caricatas. E o Mercosul corre
o risco de virar peça de ficção"

É histórica a rivalidade entre brasileiros e argentinos. A área de atrito mais conhecida é o futebol, mas essa é a que menos conta. O que falta nos brasileiros sobra nos argentinos em matéria de auto-estima. Chamam-nos de "macaquitos". Nós dizemos que o argentino é um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês. No passado, os militares de ambos os lados chegaram a criar modelos teóricos para uma hipotética guerra nos pampas. Há treze anos, Brasil e Argentina resolveram se casar comercialmente, junto com Paraguai e Uruguai, através do Mercosul. Pensou-se que, a partir daí, estivesse encerrada a batalha. Nada disso.

A guerra continuou por um meio mais civilizado, o comércio. Neste ano, Buenos Aires só criou embaraços para a compra de produtos brasileiros. Argumentou que as importações estavam prejudicando o crescimento da sua indústria. Resultado: calçados, geladeiras, televisores, máquinas de lavar e fogões fabricados no Brasil começaram a se defrontar com dificuldades crescentes para entrar no país vizinho. Nada se produziu no governo Lula para dar tratamento recíproco aos argentinos.

Na raiz do problema está uma definição estratégica equivocada dos responsáveis pela diplomacia no governo Lula. O Brasil tem se empenhado abaixo das expectativas nas negociações para a formação da Alca, área de livre-comércio a ser montada com os Estados Unidos e os outros países das Américas. Sente-se ameaçado pela voracidade e competência dos americanos numa união desse tipo. Também vê riscos num acerto comercial com a União Européia. Esses acordos andam a passo lento porque os encarregados das negociações acham que nada devem ceder que contrarie aquilo que entendem como soberania nacional e modelo brasileiro de desenvolvimento.

Essa atitude evidencia o grau de provincianismo brasileiro. O governo Lula decidiu que o Brasil deve se expressar internacionalmente como um líder. Como não consegue seguidores no primeiro time mundial, a solução é impor nossa força diplomática e comercial na terceira divisão, junto aos países pobres ou emergentes.

Desse ponto de partida que não leva a lugar algum, nasceu a aspiração do governo Lula de fazer uma política externa voltada para os países do Hemisfério Sul, tendo o Brasil, é claro, como o chefão da operação. Foi daí também que surgiu o conceito visionário de que o Brasil tem como destino mudar a geografia do comércio internacional com a cumplicidade dos seus companheiros capengas do Terceiro Mundo. Essa cumplicidade só existe na cabeça dos assessores de Lula para a política externa.

É para seduzir Buenos Aires que o Brasil vem aceitando todas as restrições e exigências argentinas. Em vez de assinar acordos comerciais com a parte do mundo que conta, o Brasil insiste na miragem do Mercosul. Enquanto isso, os países latino-americanos estão firmando acordos bilaterais de comércio com os Estados Unidos em número crescente. Quer dizer, a Alca não sai no atacado, mas já está saindo no varejo, sem o Brasil. Na semana passada, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, e o ditador do Paquistão, Pervez Musharraf, assinaram um acordo que na prática os coloca contra a pretensão dos vizinhos Brasil e Índia de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Pura rivalidade. As relações entre o Brasil e os muy amigos argentinos estão adquirindo contornos caricatos. E o Mercosul corre o risco de virar peça de ficção.

 
 
 
 
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