Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Ruim comparado
com quem?

"Ainda é pouco, mas já passamos para
a metade de cima nos parâmetros da
educação. Começamos tarde, mas já
abandonamos o bando dos piores"

O Brasil vem comparando sua educação com a dos países mais ricos e ambiciosos em matéria de ensino. Participamos do teste internacional do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) e ficamos nos últimos lugares, chamuscando nossas vaidades verde-amarelas. Deitamos olho gordo na Coréia. Mas é assim que deve ser. Certíssimo, calibrarmos nossas ambições pelo desempenho dos melhores.

Mas, depois de tanta autoflagelação, quem sabe vale a pena dar uma olhadela em um estudo ainda inédito das Nações Unidas? Nada de complacências, apenas para ter uma perspectiva de onde estávamos e do fosso que já nos separa de mais de 100 países. Faz pouco tempo, éramos daquele time.

Não são poucos os países da África em que houve quedas dramáticas nas matrículas, em virtude da crise econômica e da aids. E 35% dos países, como nem sequer têm estatísticas básicas de matrículas, não sabem se elas cresceram ou encolheram.

Ilustração Ale Setti


Para os que se desesperam com o nosso analfabetismo residual, é bom saber que é igual ao da China (10%). A Índia, tão festejada nos últimos tempos, ainda tem metade da população analfabeta. Apenas dois terços dos alunos de 7 a 14 anos freqüentam a escola e o atendimento está piorando, muitas escolas vêm sendo fechadas. Por todo lado, há classes com 75 alunos e professores faltosos, bem como enorme atraso na matrícula das mulheres. Na Índia, em Bangladesh, no Marrocos e em vários países da África, nem a metade dos alunos mais pobres freqüenta a escola. Em Moçambique, somente 12% da população rural completa cinco anos de educação. Na Somália, apenas uma em cada cinco crianças freqüenta a escola. No Brasil, 97% dos pequenos de 7 a 14 anos estão na escola e todas as estatísticas melhoram.

No Peru, o Ministério da Educação não sabe quantos professores estão na sua folha de pagamento. Pesquisas mostram clientelismo, em vez de mérito, na nomeação dos diretores de escolas colombianas. Pesquisas na Índia, em Uganda e no Quênia mostram que os professores faltam a um terço das aulas.

A educação é o setor mais corrupto na Colômbia, na Eslováquia e em mais quatro países da antiga União Soviética – que já foi exemplo para o mundo. Os professores cobram taxas ilegais dos alunos, e é preciso pagar para ter boas notas. Em Uganda, somente 13% dos fundos alocados pelo ministério chegavam às escolas. Em Gana, 19% das famílias pagaram para conseguir vagas e 92% tiveram de subornar os professores. Na Rússia, metade da educação pública é financiada por pagamentos ilegais aos professores. Visitei uma escola em Moscou onde as oficinas haviam sido alugadas para uma fábrica e outra onde o refeitório havia sido transformado em cabaré. Os aluguéis iam para os diretores e seus amigos.

Na Geórgia, anuncia-se publicamente quanto se desembolsa para ser aprovado nos cursos. Não são poucos os países onde se paga para passar no vestibular, como era o caso das repúblicas da Ásia Central. Em um estado da Índia, os próprios professores divulgam os exames públicos, para que seus alunos passem de ano. Nos Camarões, os professores cobram uma taxa para os alunos se sentarem nas fileiras da frente e também para corrigir o dever de casa. Pior, 27% das alunas tiveram relações sexuais com os professores. Há países onde os alunos são obrigados a trabalhar como empregados domésticos na casa dos professores.

Em contraste, a nossa matrícula cresce continuamente e disparou na década de 90. Nossas estatísticas educativas são primorosas. Temos um belo sistema de avaliação e divulgamos amplamente todos os resultados, bons ou ruins. O México espera os resultados para decidir se serão publicados – se são fracos, não são revelados ao público. A nossa corrupção é pouca e discreta, nada comparado com as roubalheiras escancaradas alhures. Nossos vestibulares são praticamente livres de fraude e quaisquer formas de desonestidade.

Isso ainda é pouco, é inaceitável, não devemos nem pensar em ufanismos. Mas já passamos para a metade de cima. Começamos tarde, mas abandonamos céleres o bando dos piores.


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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