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Ponto
de vista: Claudio
de Moura Castro Ruim
comparado com quem?
"Ainda
é pouco, mas já passamos para a metade de cima nos parâmetros
da educação. Começamos tarde, mas já abandonamos
o bando dos piores" O Brasil vem comparando
sua educação com a dos países mais ricos e ambiciosos em
matéria de ensino. Participamos do teste internacional do Programa Internacional
de Avaliação de Alunos (Pisa) e ficamos nos últimos lugares,
chamuscando nossas vaidades verde-amarelas. Deitamos olho gordo na Coréia.
Mas é assim que deve ser. Certíssimo, calibrarmos nossas ambições
pelo desempenho dos melhores. Mas, depois de tanta
autoflagelação, quem sabe vale a pena dar uma olhadela em um estudo
ainda inédito das Nações Unidas? Nada de complacências,
apenas para ter uma perspectiva de onde estávamos e do fosso que já
nos separa de mais de 100 países. Faz pouco tempo, éramos daquele
time. Não são poucos os países
da África em que houve quedas dramáticas nas matrículas,
em virtude da crise econômica e da aids. E 35% dos países, como nem
sequer têm estatísticas básicas de matrículas, não
sabem se elas cresceram ou encolheram.
Ilustração
Ale Setti
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Para
os que se desesperam com o nosso analfabetismo residual, é bom saber que
é igual ao da China (10%). A Índia, tão festejada nos últimos
tempos, ainda tem metade da população analfabeta. Apenas dois terços
dos alunos de 7 a 14 anos freqüentam a escola e o atendimento está
piorando, muitas escolas vêm sendo fechadas. Por todo lado, há classes
com 75 alunos e professores faltosos, bem como enorme atraso na matrícula
das mulheres. Na Índia, em Bangladesh, no Marrocos e em vários países
da África, nem a metade dos alunos mais pobres freqüenta a escola.
Em Moçambique, somente 12% da população rural completa cinco
anos de educação. Na Somália, apenas uma em cada cinco crianças
freqüenta a escola. No Brasil, 97% dos pequenos de 7 a 14 anos estão
na escola e todas as estatísticas melhoram.
No
Peru, o Ministério da Educação não sabe quantos professores
estão na sua folha de pagamento. Pesquisas mostram clientelismo, em vez
de mérito, na nomeação dos diretores de escolas colombianas.
Pesquisas na Índia, em Uganda e no Quênia mostram que os professores
faltam a um terço das aulas. A educação
é o setor mais corrupto na Colômbia, na Eslováquia e em mais
quatro países da antiga União Soviética que já
foi exemplo para o mundo. Os professores cobram taxas ilegais dos alunos, e é
preciso pagar para ter boas notas. Em Uganda, somente 13% dos fundos alocados
pelo ministério chegavam às escolas. Em Gana, 19% das famílias
pagaram para conseguir vagas e 92% tiveram de subornar os professores. Na Rússia,
metade da educação pública é financiada por pagamentos
ilegais aos professores. Visitei uma escola em Moscou onde as oficinas haviam
sido alugadas para uma fábrica e outra onde o refeitório havia sido
transformado em cabaré. Os aluguéis iam para os diretores e seus
amigos. Na Geórgia, anuncia-se publicamente
quanto se desembolsa para ser aprovado nos cursos. Não são poucos
os países onde se paga para passar no vestibular, como era o caso das repúblicas
da Ásia Central. Em um estado da Índia, os próprios professores
divulgam os exames públicos, para que seus alunos passem de ano. Nos Camarões,
os professores cobram uma taxa para os alunos se sentarem nas fileiras da frente
e também para corrigir o dever de casa. Pior, 27% das alunas tiveram relações
sexuais com os professores. Há países onde os alunos são
obrigados a trabalhar como empregados domésticos na casa dos professores.
Em contraste, a nossa matrícula cresce continuamente
e disparou na década de 90. Nossas estatísticas educativas são
primorosas. Temos um belo sistema de avaliação e divulgamos amplamente
todos os resultados, bons ou ruins. O México espera os resultados para
decidir se serão publicados se são fracos, não são
revelados ao público. A nossa corrupção é pouca e
discreta, nada comparado com as roubalheiras escancaradas alhures. Nossos vestibulares
são praticamente livres de fraude e quaisquer formas de desonestidade.
Isso ainda é pouco, é inaceitável,
não devemos nem pensar em ufanismos. Mas já passamos para a metade
de cima. Começamos tarde, mas abandonamos céleres o bando dos piores.
Claudio de Moura Castro é
economista (claudiodmc@attglobal.net)
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