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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
divorciado rancoroso e a luva de pelica
No
duelo entre FHC e
Lula, quem estivesse por perto podia ser
atingido por uma metáfora perdida
De um lado as luvas de pelica, o tigre de papel
e o rei nu. Do outro, o mar de rosas, o divorciado rancoroso e o paciente de UTI.
A polêmica da semana passada entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se não foi capaz de despertar
o eleitorado do tédio com as controvérsias políticas, valeu
pelo duelo de metáforas entre os oponentes. FHC, falando aos correligionários
do PSDB, convidou-os a não usar "luvas de pelica" para atacar o governo,
disse que o PT era "um tigre de papel" e acrescentou: "O rei está nu".
Lula, de seu lado, garantiu que navegamos num mar de rosas, comparou FHC ao ex-marido
que quer a infelicidade da ex-mulher e disse que teve uma trabalheira para tirar
o Brasil da UTI. A seguir, as metáforas do ex e do atual presidente e alguns
comentários sobre elas: Luvas de pelica
"Não precisamos usar luvas de pelica: se o governo é incompetente,
é incompetente", disse FHC. As luvas de pelica, mais do que para cobrir
as mãos, têm servido secularmente para sugerir a imagem do golpe
sutil, por isso mesmo mais doído e eficaz. Ao propor que elas sejam abandonadas
(se é que alguma vez foram calçadas), FHC deixa como alternativas
as luvas de boxe, ou o puro recurso aos punhos nus. A troca não cai bem
para um partido como o PSDB, nascido nas tertúlias da academia e cultuado
nos salões. Equivale a substituir os finos movimentos do espadachim pela
crua explicitude de um Maguila. Tigre de papel
"Perdemos a batalha ideológica para um tigre de papel", continuou
o ex-presidente. "Tigre de papel" é expressão que ganhou o mundo
a partir da China de Mao Tsé-tung. "O imperialismo é um tigre de
papel", ensinava o Grande Timoneiro. A China tanto perdeu o medo que aderiu ao
tigre de papel. Hoje é parceira dos EUA e aplicada aluna de suas lições
de capitalismo. Já o tigre de papel a que o ex-presidente se refere é
o PT. De aparência assustadora, ao tempo do governo FHC, teria se revelado
um gatinho. É bom lembrar no entanto que, gato ou tigre, um felino é
sempre um perigo para as penas de um tucano. Rei
nu "É preciso dizer claramente: o rei está nu", declarou
ainda FHC, e com isso remeteu à historieta do rei enganado por um tecelão
que dizia elaborar roupas tão deslumbrantes que até ofuscavam a
vista. O rei, mesmo sem enxergar a roupa, deixou-se vestir pelo tecelão
sua vista devia estar ofuscada. Mas não havia roupa alguma, e ao
vê-lo na rua o povo gritava: "O rei está nu". Tecelões fraudulentos
especializados em fazer governantes se sentirem vestidos quando estão nus
ainda abundam. Mas nem seriam necessários: em regra, são os próprios
governantes que se deixam cegar. O tecido que lhes ofusca a vista chama-se poder.
Mar de rosas Lula, no mesmo dia em
que FHC despejava sua diatribe, disse que foram precisos dois anos de sofrimento
"para chegar a esse mar de rosas a que estamos chegando". "Mar de rosas", segundo
se aprende no Dicionário Houaiss, é expressão nascida
na Marinha de Guerra. Significa mar sereno, bom de navegar, e equivale
ó beleza a "mar de leite". Seria um mar em que sublime paradoxo
até seria doce naufragar. Mares a evitar, para um governante, seriam
o mar encrespado e o mar de lama. Se a população ainda não
se sente no "mar de rosas" anunciado pelo presidente, de duas, uma. Ou a população
não sabe distinguir os mares em que navega, ou o presidente é um
almirante míope. Neste caso, confirmaria a máxima formulada pelo
jornalista Ruy Fernando Barboza: "Lula é a Velhinha de Taubaté de
si mesmo". Divorciado rancoroso "Sabe
aquele negócio do ex-marido que não quer que a mulher seja feliz
com o outro?", disse Lula, em outro discurso, em implícita referência
a FHC. No começo do governo, as imagens do presidente eram com parto ou
com bebê. Se uma criança demora nove meses para nascer, como queriam
que seu governo fizesse tudo logo de saída? Se um bebê demora um
ano para andar... Se demora para falar... Agora o governo cresceu. Até
já casou. E casou com uma divorciada, pois tem um ex-marido à espreita.
A divorciada, claro, é o Brasil. Para quem mais o marido FHC olharia com
ciúme despeitado? É bom que o Brasil da imagem presidencial seja
uma divorciada. Outros o vêem como viúva, o que acarreta permanente
assédio a sua bolsa. Paciente de UTI
No mesmo discurso, Lula disse que seu governo pegou o Brasil na UTI e numa
primeira etapa levou-o à enfermaria: "Quem já foi internado sabe
o avanço que é sair da UTI para uma enfermaria". O governo que já
foi bebê na barriga da mãe, aprendeu a andar, cresceu e casou assumia
o papel de médico intensivista. Falando pelo enfermo, o presidente tinha
boas notícias: "Agora já recebemos alta, já estamos na rua
andando!". E mais: "Estamos de cabeça erguida, cantando a música
do nosso Zeca Pagodinho, Deixa a Vida Me Levar". Resta torcer para que,
na companhia do mais famoso bebedor de cerveja do país, o ex-moribundo
não venha a precisar de nova internação embriagado
de Brahma, de Nova Schin e de si próprio. |