Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O divorciado rancoroso
e a luva de pelica

No duelo entre FHC e Lula, quem estivesse por perto podia ser atingido por uma metáfora perdida

De um lado as luvas de pelica, o tigre de papel e o rei nu. Do outro, o mar de rosas, o divorciado rancoroso e o paciente de UTI. A polêmica da semana passada entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se não foi capaz de despertar o eleitorado do tédio com as controvérsias políticas, valeu pelo duelo de metáforas entre os oponentes. FHC, falando aos correligionários do PSDB, convidou-os a não usar "luvas de pelica" para atacar o governo, disse que o PT era "um tigre de papel" e acrescentou: "O rei está nu". Lula, de seu lado, garantiu que navegamos num mar de rosas, comparou FHC ao ex-marido que quer a infelicidade da ex-mulher e disse que teve uma trabalheira para tirar o Brasil da UTI. A seguir, as metáforas do ex e do atual presidente e alguns comentários sobre elas:

Luvas de pelica – "Não precisamos usar luvas de pelica: se o governo é incompetente, é incompetente", disse FHC. As luvas de pelica, mais do que para cobrir as mãos, têm servido secularmente para sugerir a imagem do golpe sutil, por isso mesmo mais doído e eficaz. Ao propor que elas sejam abandonadas (se é que alguma vez foram calçadas), FHC deixa como alternativas as luvas de boxe, ou o puro recurso aos punhos nus. A troca não cai bem para um partido como o PSDB, nascido nas tertúlias da academia e cultuado nos salões. Equivale a substituir os finos movimentos do espadachim pela crua explicitude de um Maguila.

Tigre de papel – "Perdemos a batalha ideológica para um tigre de papel", continuou o ex-presidente. "Tigre de papel" é expressão que ganhou o mundo a partir da China de Mao Tsé-tung. "O imperialismo é um tigre de papel", ensinava o Grande Timoneiro. A China tanto perdeu o medo que aderiu ao tigre de papel. Hoje é parceira dos EUA e aplicada aluna de suas lições de capitalismo. Já o tigre de papel a que o ex-presidente se refere é o PT. De aparência assustadora, ao tempo do governo FHC, teria se revelado um gatinho. É bom lembrar no entanto que, gato ou tigre, um felino é sempre um perigo para as penas de um tucano.

Rei nu – "É preciso dizer claramente: o rei está nu", declarou ainda FHC, e com isso remeteu à historieta do rei enganado por um tecelão que dizia elaborar roupas tão deslumbrantes que até ofuscavam a vista. O rei, mesmo sem enxergar a roupa, deixou-se vestir pelo tecelão – sua vista devia estar ofuscada. Mas não havia roupa alguma, e ao vê-lo na rua o povo gritava: "O rei está nu". Tecelões fraudulentos especializados em fazer governantes se sentirem vestidos quando estão nus ainda abundam. Mas nem seriam necessários: em regra, são os próprios governantes que se deixam cegar. O tecido que lhes ofusca a vista chama-se poder.

Mar de rosas – Lula, no mesmo dia em que FHC despejava sua diatribe, disse que foram precisos dois anos de sofrimento "para chegar a esse mar de rosas a que estamos chegando". "Mar de rosas", segundo se aprende no Dicionário Houaiss, é expressão nascida na Marinha de Guerra. Significa mar sereno, bom de navegar, e equivale – ó beleza – a "mar de leite". Seria um mar em que – sublime paradoxo – até seria doce naufragar. Mares a evitar, para um governante, seriam o mar encrespado e o mar de lama. Se a população ainda não se sente no "mar de rosas" anunciado pelo presidente, de duas, uma. Ou a população não sabe distinguir os mares em que navega, ou o presidente é um almirante míope. Neste caso, confirmaria a máxima formulada pelo jornalista Ruy Fernando Barboza: "Lula é a Velhinha de Taubaté de si mesmo".

Divorciado rancoroso – "Sabe aquele negócio do ex-marido que não quer que a mulher seja feliz com o outro?", disse Lula, em outro discurso, em implícita referência a FHC. No começo do governo, as imagens do presidente eram com parto ou com bebê. Se uma criança demora nove meses para nascer, como queriam que seu governo fizesse tudo logo de saída? Se um bebê demora um ano para andar... Se demora para falar... Agora o governo cresceu. Até já casou. E casou com uma divorciada, pois tem um ex-marido à espreita. A divorciada, claro, é o Brasil. Para quem mais o marido FHC olharia com ciúme despeitado? É bom que o Brasil da imagem presidencial seja uma divorciada. Outros o vêem como viúva, o que acarreta permanente assédio a sua bolsa.

Paciente de UTI – No mesmo discurso, Lula disse que seu governo pegou o Brasil na UTI e numa primeira etapa levou-o à enfermaria: "Quem já foi internado sabe o avanço que é sair da UTI para uma enfermaria". O governo que já foi bebê na barriga da mãe, aprendeu a andar, cresceu e casou assumia o papel de médico intensivista. Falando pelo enfermo, o presidente tinha boas notícias: "Agora já recebemos alta, já estamos na rua andando!". E mais: "Estamos de cabeça erguida, cantando a música do nosso Zeca Pagodinho, Deixa a Vida Me Levar". Resta torcer para que, na companhia do mais famoso bebedor de cerveja do país, o ex-moribundo não venha a precisar de nova internação – embriagado de Brahma, de Nova Schin e de si próprio.

 
 
 
 
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