Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

Índice
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Tigre a bordo

A Vida de Pi, de Yann Martel, não é um
plágio de Moacyr Scliar. E é um ótimo romance


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Um naufrágio, um bote salva-vidas e um felino: é tudo o que A Vida de Pi (tradução de Alda Porto; Rocco; 354 páginas; 39,50 reais), do canadense Yann Martel, e Max e os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar, têm em comum. Martel, aliás, sempre admitiu que esses elementos foram retirados da obra de Scliar. No entanto, há dois anos, quando Martel ganhou o Booker Prize, o mais prestigioso prêmio da literatura em língua inglesa, surgiu a suspeita de que o canadense houvesse plagiado a novela do brasileiro. A Vida de Pi chega ao país depois que seu autor desfez os mal-entendidos com um telefonema a Scliar (e uma carrada de explicações à imprensa). O leitor pode constatar que o livro não só não é um plágio, mas também é um ótimo romance.

A literatura em língua inglesa tem uma respeitável tradição de personagens náufragos, como Gulliver e Robinson Crusoé. O náufrago de Martel, porém, não é um herói colonizador, mas, ao contrário, o fruto de uma antiga colônia inglesa, a Índia. Filho de um administrador de zoológico, Piscine Molitor Patel, mais conhecido como Pi, está a caminho do Canadá quando o cargueiro em que viajava afunda. O navio carregava vários animais selvagens, saldo do zôo que o pai de Pi acabara de desmontar na Índia. O garoto de 16 anos se vê em um bote salva-vidas, acompanhado por um orangotango, uma zebra, uma hiena e um tigre. Depois de algumas batalhas sanguinolentas, sobram apenas Pi e o tigre. O rapaz precisa sobreviver ao mar, ao sol inclemente, à falta de água doce – e ainda domar o felino.

A narrativa às vezes desce a detalhes enfadonhos sobre técnicas de pesca e montagem de dessalinizadores. Essas miudezas realistas ajudam a compor a rotina excruciante do náufrago, mas também prejudicam o tom de fábula que Martel persegue. Mesmo assim, o romance consegue ultrapassar o simples relato de aventura. O misticismo do protagonista é significativo. Insensível ao caráter sectário das instituições religiosas, Pi segue três credos: o cristianismo, o hinduísmo e o islamismo. Conforme se leia o final ambíguo do livro, o tigre pode estar lá para representar as difíceis conciliações que um espírito religioso precisa fazer para conviver com a violência. Não importa quanta fé você tenha, é necessário ser selvagem para sobreviver na selva. Ou em alto-mar.

 
 
 
 
topovoltar