|
|
Livros
Tigre a bordo
A Vida de Pi,
de Yann Martel, não é um
plágio de Moacyr Scliar. E é um ótimo romance

Jerônimo Teixeira
Um naufrágio,
um bote salva-vidas e um felino: é tudo o que A Vida
de Pi (tradução de Alda Porto; Rocco; 354
páginas; 39,50 reais), do canadense Yann Martel, e Max
e os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar, têm em comum.
Martel, aliás, sempre admitiu que esses elementos foram retirados
da obra de Scliar. No entanto, há dois anos, quando Martel
ganhou o Booker Prize, o mais prestigioso prêmio da literatura
em língua inglesa, surgiu a suspeita de que o canadense houvesse
plagiado a novela do brasileiro. A Vida de Pi chega ao país
depois que seu autor desfez os mal-entendidos com um telefonema
a Scliar (e uma carrada de explicações à imprensa).
O leitor pode constatar que o livro não só não
é um plágio, mas também é um ótimo
romance.
A literatura em língua
inglesa tem uma respeitável tradição de personagens
náufragos, como Gulliver e Robinson Crusoé. O náufrago
de Martel, porém, não é um herói colonizador,
mas, ao contrário, o fruto de uma antiga colônia inglesa,
a Índia. Filho de um administrador de zoológico, Piscine
Molitor Patel, mais conhecido como Pi, está a caminho do
Canadá quando o cargueiro em que viajava afunda. O navio
carregava vários animais selvagens, saldo do zôo que
o pai de Pi acabara de desmontar na Índia. O garoto de 16
anos se vê em um bote salva-vidas, acompanhado por um orangotango,
uma zebra, uma hiena e um tigre. Depois de algumas batalhas sanguinolentas,
sobram apenas Pi e o tigre. O rapaz precisa sobreviver ao mar, ao
sol inclemente, à falta de água doce e ainda
domar o felino.
A narrativa às
vezes desce a detalhes enfadonhos sobre técnicas de pesca
e montagem de dessalinizadores. Essas miudezas realistas ajudam
a compor a rotina excruciante do náufrago, mas também
prejudicam o tom de fábula que Martel persegue. Mesmo assim,
o romance consegue ultrapassar o simples relato de aventura. O misticismo
do protagonista é significativo. Insensível ao caráter
sectário das instituições religiosas, Pi segue
três credos: o cristianismo, o hinduísmo e o islamismo.
Conforme se leia o final ambíguo do livro, o tigre pode estar
lá para representar as difíceis conciliações
que um espírito religioso precisa fazer para conviver com
a violência. Não importa quanta fé você
tenha, é necessário ser selvagem para sobreviver na
selva. Ou em alto-mar.
|