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Cinema
Revolução animada
Os Incríveis,
da Pixar, trata
de temas que mesmo os filmes
"adultos" não têm querido abordar

Isabela Boscov
Fotos divulgação
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| Beto Pêra e sua superfamília: referências
que vão das aventuras de 007 às comédias de Billy Wilder |
Duas semanas atrás, passou a circular
em Hollywood a blague de que os oito grandes estúdios americanos
estudam mover uma ação coletiva contra a Pixar nos
tribunais: segundo eles, a produtora de desenhos animados estaria
arruinando duas décadas de esforços para persuadir
o público de que é inevitável que a maior parte
da produção de Hollywood seja ruim ou medíocre.
A queixa teria sido provocada por Os Incríveis (The
Incredibles, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta
sexta-feira no país e é o sexto longa-metragem da
Pixar e também o sexto a se provar um estouro de crítica
e de bilheteria. "Não dá para continuar nesse ramo
se tivermos de competir com um estúdio que não contrata
executivos sem qualificações para interferir no processo
de criação", teria reclamado Alan Horn, presidente
da Warner Bros. Tudo brincadeira, é claro, mas seria verdade
se a indústria de entretenimento cultivasse o hábito
da franqueza. Protagonizado por uma família de super-heróis
obrigados a viver no anonimato, Os Incríveis se equipara,
na excelência do roteiro, da animação e dos
personagens, a todos os outros títulos do currículo
da Pixar os dois Toy Story, Vida de Inseto, Monstros S.A.
e Procurando Nemo. Mas amplia drasticamente a definição
do que é um desenho. Da comédia de costumes à
sátira política e ao drama familiar, Os Incríveis
trata de temas que mesmo os filmes ditos "adultos" não
têm se interessado em abordar e não de maneira
desdentada, mas com inteligência e verve.
Antes o mais popular dos super-heróis,
o Sr. Incrível agora vive como Beto Pêra, funcionário
oprimido de uma seguradora e pai de família dedicado, mas
insatisfeito. Incrível e toda a sua categoria foram tirados
de circulação há mais de uma década,
quando uma onda de pedidos de indenizações contra
super-heróis tornou caro demais para o governo mantê-los
como agentes da lei. Tendo passado de benfeitores a figuras hostilizadas
pelo público, os heróis precisam ocultar sua identidade
como se fossem criminosos daí a frustrante vida civil
de Pêra, sua esposa, a Mulher-Elástica, e seus três
filhos, todos também superpoderosos. É claro que algo
vai acontecer para tirar os Incríveis da aposentadoria e
levá-los a se envolver numa aventura tão ambiciosa
quanto as do espião James Bond e são sensacionais
as citações visuais a filmes de 007, como O Homem
com a Pistola de Ouro e O Amanhã Nunca Morre.
Mas, em sua primeira parte, Os Incríveis poderia ser
um filme dirigido por Billy Wilder e estrelado por Jack Lemmon,
como Se Meu Apartamento Falasse: a cena em que Beto Pêra
tenta transferir o volume do abdômen para o peito, a fim de
entrar no novo uniforme desenhado por Edna E. Mode (uma caricatura
de Edith Head, a mais célebre figurinista do cinema), é
um retrato magnificamente tragicômico de um homem em crise
de meia-idade.
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| Edna E. Mode: caricatura da célebre figurinista
do cinema |
O preço médio de um minuto de
filme da Pixar é de 1 milhão de dólares
e, justamente por ser tão cara, a animação
não permite que se inicie o trabalho antes de o roteiro ser
testado à exaustão. Só isso, porém,
não explica a superioridade que a produtora hoje demonstra
sobre sua parceira, a Disney. Enquanto a Disney segue a tradição
(que ela mesma inventou) de entregar cada personagem a um animador,
a Pixar divide o trabalho conforme a tonalidade emocional de cada
cena. Há os animadores com mais talento para a ação,
o humor, o drama. Todos têm de trabalhar juntos e criticar
a produção alheia, num processo de crivo que, até
agora, tem se provado infalível. Essa é apenas uma
das razões pelas quais o relacionamento entre a Disney e
a Pixar tem sido tão conflituoso. A principal, claro, é
o dinheiro. Os dois estúdios dividem igualmente os custos
e os lucros, mas a Disney leva vantagem: como distribuidora, ela
ganha 12,5% do montante arrecadado pelo circuito exibidor. É
provável que a Disney ainda distribua os dois próximos
títulos da Pixar Cars e Ratatouille
, mas Steve Jobs, dono da Apple e da produtora, já
começou a investigar novos sócios (Warner e Fox são
os candidatos mais fortes). Isso se os acionistas da Disney não
capitularem, no que fariam muito bem: uma análise das contas
da empresa entre os anos fiscais de 1999 e 2001 apontou que a Pixar
responde por 45% do faturamento da divisão de cinema da Disney.
Davi, ao que parece, já virou Golias.
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