Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Cinema
Revolução animada

Os Incríveis, da Pixar, trata
de temas que mesmo os filmes
"adultos" não têm querido abordar


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Beto Pêra e sua superfamília: referências que vão das aventuras de 007 às comédias de Billy Wilder

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Duas semanas atrás, passou a circular em Hollywood a blague de que os oito grandes estúdios americanos estudam mover uma ação coletiva contra a Pixar nos tribunais: segundo eles, a produtora de desenhos animados estaria arruinando duas décadas de esforços para persuadir o público de que é inevitável que a maior parte da produção de Hollywood seja ruim ou medíocre. A queixa teria sido provocada por Os Incríveis (The Incredibles, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país e é o sexto longa-metragem da Pixar – e também o sexto a se provar um estouro de crítica e de bilheteria. "Não dá para continuar nesse ramo se tivermos de competir com um estúdio que não contrata executivos sem qualificações para interferir no processo de criação", teria reclamado Alan Horn, presidente da Warner Bros. Tudo brincadeira, é claro, mas seria verdade se a indústria de entretenimento cultivasse o hábito da franqueza. Protagonizado por uma família de super-heróis obrigados a viver no anonimato, Os Incríveis se equipara, na excelência do roteiro, da animação e dos personagens, a todos os outros títulos do currículo da Pixar – os dois Toy Story, Vida de Inseto, Monstros S.A. e Procurando Nemo. Mas amplia drasticamente a definição do que é um desenho. Da comédia de costumes à sátira política e ao drama familiar, Os Incríveis trata de temas que mesmo os filmes ditos "adultos" não têm se interessado em abordar – e não de maneira desdentada, mas com inteligência e verve.

Antes o mais popular dos super-heróis, o Sr. Incrível agora vive como Beto Pêra, funcionário oprimido de uma seguradora e pai de família dedicado, mas insatisfeito. Incrível e toda a sua categoria foram tirados de circulação há mais de uma década, quando uma onda de pedidos de indenizações contra super-heróis tornou caro demais para o governo mantê-los como agentes da lei. Tendo passado de benfeitores a figuras hostilizadas pelo público, os heróis precisam ocultar sua identidade como se fossem criminosos – daí a frustrante vida civil de Pêra, sua esposa, a Mulher-Elástica, e seus três filhos, todos também superpoderosos. É claro que algo vai acontecer para tirar os Incríveis da aposentadoria e levá-los a se envolver numa aventura tão ambiciosa quanto as do espião James Bond – e são sensacionais as citações visuais a filmes de 007, como O Homem com a Pistola de Ouro e O Amanhã Nunca Morre. Mas, em sua primeira parte, Os Incríveis poderia ser um filme dirigido por Billy Wilder e estrelado por Jack Lemmon, como Se Meu Apartamento Falasse: a cena em que Beto Pêra tenta transferir o volume do abdômen para o peito, a fim de entrar no novo uniforme desenhado por Edna E. Mode (uma caricatura de Edith Head, a mais célebre figurinista do cinema), é um retrato magnificamente tragicômico de um homem em crise de meia-idade.


Edna E. Mode: caricatura da célebre figurinista do cinema

O preço médio de um minuto de filme da Pixar é de 1 milhão de dólares – e, justamente por ser tão cara, a animação não permite que se inicie o trabalho antes de o roteiro ser testado à exaustão. Só isso, porém, não explica a superioridade que a produtora hoje demonstra sobre sua parceira, a Disney. Enquanto a Disney segue a tradição (que ela mesma inventou) de entregar cada personagem a um animador, a Pixar divide o trabalho conforme a tonalidade emocional de cada cena. Há os animadores com mais talento para a ação, o humor, o drama. Todos têm de trabalhar juntos e criticar a produção alheia, num processo de crivo que, até agora, tem se provado infalível. Essa é apenas uma das razões pelas quais o relacionamento entre a Disney e a Pixar tem sido tão conflituoso. A principal, claro, é o dinheiro. Os dois estúdios dividem igualmente os custos e os lucros, mas a Disney leva vantagem: como distribuidora, ela ganha 12,5% do montante arrecadado pelo circuito exibidor. É provável que a Disney ainda distribua os dois próximos títulos da Pixar – Cars e Ratatouille –, mas Steve Jobs, dono da Apple e da produtora, já começou a investigar novos sócios (Warner e Fox são os candidatos mais fortes). Isso se os acionistas da Disney não capitularem, no que fariam muito bem: uma análise das contas da empresa entre os anos fiscais de 1999 e 2001 apontou que a Pixar responde por 45% do faturamento da divisão de cinema da Disney. Davi, ao que parece, já virou Golias.

 
 
 
 
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