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Haiti
O atoleiro em que
o Brasil se meteu
No
meio da rua, um porco chafurda em um monturo
enlameado pelo contínuo vazamento do esgoto. Ao lado,
uma mulher negra alegre e banguela, sob um guarda-sol
colorido, vende peixe cru em seu tabuleiro e, para
livrar-se das escamas, lava o peixe no esgoto que
corre sob sua cadeira. Sua vizinha de feira vende
carne suína, já esverdeada pelo calor e pelas moscas.

André Petry, com fotos de Paulo
Vitale
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A GUERRA E A
PAZ
Feira em Porto Príncipe, a miserável capital
haitiana, onde se vende peixe cru lavado na água do esgoto
e porcos chafurdam no lixo, e uma patrulha brasileira sob a
bandeira da ONU: a luta pela sobrevivência num país
de paz precária |
A feira, retratada em fotos ao longo desta
reportagem, é montada todos os dias no coração
de Porto Príncipe, a capital do Haiti, e é uma das
mais estonteantes expressões do desmanche do país.
A feira está em local privilegiado, pois ali jorra água.
Não é água, na verdade: é o esgoto que
vaza. Como o esgoto não está viscoso e escuro, mas
ainda ralo e cinza, diluído, ganha uma remota aparência
de água. Sendo assim, lava-se nele o peixe cru. Lavam-se
as mãos. Os pés. Os chinelos. As bicicletas. Toma-se
até banho ali, com sabonete e tudo. Os haitianos chamam a
feira de "mercado da África", mas os estrangeiros, cada vez
mais numerosos no país por causa da missão da ONU,
apelidaram-na de "cozinha do inferno". A feira é uma síntese
do Haiti, metáfora de um país esmagado por uma agonia
interminável. Ali, há gente por todos os lados, vozes,
gingas, cores fortes e um inigualável sistema de cheiros,
em que o aroma agradável das bananas e mangas é subitamente
cortado por lufadas do odor fétido que vem das carnes podres
e da rua convertida em pocilga.
Eis o atoleiro em que o Brasil se meteu. Há
seis meses, o país desembarcou no Haiti seu maior contingente
militar já enviado ao exterior desde a II Guerra Mundial.
São 1.200 homens que, até
meados deste mês, serão substituídos por outros
1.200. Nenhum outro país, do Sri
Lanka à Argentina, do Chile ao Paquistão, mandou tanta
gente para o Haiti. Nenhuma outra tropa foi recebida com tanto entusiasmo
popular. Quando os militares circulavam pelas ruas de Porto Príncipe,
em jipes ou tanques Urutu, exibindo a bandeira verde-amarela na
manga do uniforme, os haitianos acenavam, aplaudiam, gritavam "Brésil,
Brésil, Brésil". Até beijavam a bandeira brasileira
para agradecer a ajuda e, é claro, ficar perto de alguém
da mesma nacionalidade que Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto
Carlos, o trio de craques mais celebrado num país em que
o futebol também é paixão nacional. Hoje, os
militares são tratados com olímpica indiferença.
Eles temem que a indiferença não demore a virar hostilidade.
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O
PALÁCIO E A RUA
Yveline Cadet, orgulhosa do salário de 1 000
reais como recepcionista do imaculado palácio presidencial,
e um protesto promovido por aliados de Aristide na favela de
Bel Air: tumulto e tiroteio de meia hora |
Não que a tropa brasileira esteja descumprindo
seu dever. O problema é que a força de paz tem o único
objetivo de garantir a segurança e a ordem pública.
É óbvio que um povo pobre e analfabeto, faminto e
desempregado quer muito mais do que segurança. Por isso,
o ronco da brabeza popular já começa a ser ouvido
aqui e ali. Para decepção dos haitianos, desde a queda
do presidente Jean-Bertrand Aristide em fevereiro passado, a ONU
não executou um único projeto humanitário,
não montou uma frente de trabalho, não instalou um
poste de iluminação pública, não pavimentou
um trecho de ruela. Engasgado na tentacular burocracia da ONU, o
grosso do dinheiro da ajuda internacional nunca chega. E isso num
país em que a ajuda internacional, desde há muito,
é a grande fonte de renda do Estado, disputando com as remessas
feitas pelos haitianos que vivem nos Estados Unidos ou no Canadá
cerca de 1,5 milhão, quase 20% de toda a população
do Haiti. Como prática, a ONU faz licitação
internacional para abastecer as tropas de paz. Por isso, nem a presença
dos 5.000 militares e policiais estrangeiros
no país foi capaz de dar um sopro de vida ao que ainda está
de pé na economia haitiana. Resultado: num país paupérrimo,
o café-da-manhã dos comandantes é um convescote
em que se servem maionese espanhola, geléia belga, manteiga
italiana.
Maurice Prosper, 49 anos, não tem do que reclamar. Depois
da queda de Aristide, tudo foi trocado no país e Prosper
foi nomeado prefeito de Pétionville, a região rica
da capital. Ganha 45.000 gourdes,
3.300 reais, mais ajuda de custo
equivalente a 1.000 reais. Seus
filhos mais velhos estão encaminhados. Um é advogado.
Outro estuda medicina na República Dominicana.
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A MISÉRIA
E A ARTE
Morador recolhe água dentro de um córrego
tomado por detritos em Porto Príncipe, e Enel Alcius,
com o pai, mostra as telas coloridas que vende na praça
de Pétionville |
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Em Porto Príncipe, cidade de 2 milhões
de habitantes derramada à beira de um mar solidamente poluído,
há lixo por toda parte e em quantidades suntuosas. Até
o lixo é pobre. Nele, encontram-se garrafas de plástico,
restos de alimentos, em geral legumes ou frutas, calçados,
latas, papéis e quase nada mais. É raro haver
entre os detritos lâmpadas, brinquedos, caixas, móveis,
vidros. Há cruzamentos interditados à passagem de
carros devido ao acúmulo de sujeira. São montes de
mais de 1 metro de altura, com os quais os pedestres convivem como
se fossem parte inata da paisagem. Passam sobre eles, arregaçando
as calças para não sujá-las, ou contornam-nos,
para não enlamear os sapatos. Sobre o lixo, passam homens
de terno e gravata, passam mulheres de vestido longo e sandálias
douradas, trajadas para a missa de domingo. O órgão
que deve recolher o lixo, com o pomposo nome de Serviço Metropolitano
de Coleta de Resíduos Sólidos, está falido,
como quase tudo o que vem do Estado haitiano. Em Pétionville,
a região rica, onde vivem 400.000
pessoas, há quatro caminhões de lixo. Por esses dias,
só um estava funcionando.
A falência da coleta de lixo em Porto
Príncipe é um símbolo apenas do vácuo
de instituições sobre o qual se pretendeu um dia construir
um país. No Haiti, a nação mais pobre das Américas,
tudo pode piorar. O governo é provisório. O Parlamento
está fechado desde outubro do ano passado e, se tudo der
certo, só haverá eleição no fim do ano
que vem. A Justiça é uma peça de ficção,
embora sejam numerosas as faculdades de direito, das quais a primeira
foi criada nos anos 60 do século XIX. As Forças Armadas,
que faziam oposição a Aristide, foram dissolvidas
em meados dos anos 90 num canetaço presidencial e
os militares voltaram para casa sem nenhuma indenização
mas, por garantia, levaram seus uniformes e suas armas. A produção
econômica é cada vez menor. Como colônia francesa,
o Haiti chegou a ser o maior produtor de açúcar do
mundo, com 75% do mercado mundial. Em meados da década passada,
o país importava o produto dos Estados Unidos. Como colônia
francesa, o Haiti chegou a ser tão farto que, sozinho, valia
mais para Paris do que rendiam, juntas, as treze colônias
americanas à monarquia em Londres. Há trinta anos,
o Haiti era auto-suficiente em alimentos. Hoje, importa mais de
um terço do que come. Seu PIB cai a cada ano. Já beirou
os 4 bilhões de dólares em 2000, mas hoje, no arremedo
das estatísticas locais, não passaria de 2,7 bilhões.
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A
VIDA E A MORTE
A multidão num camelódromo e um cemitério
da capital haitiana: as casas dos vivos, cinzentas e frágeis,
contrastam com as moradas dos mortos, sempre sólidas
e coloridas |
E vai piorar. Pelas previsões da Cepal,
todos os países da América Latina e do Caribe vão
crescer no ano que vem, à exceção de dois:
a República Dominicana, cuja economia ficará estagnada,
e o pobre Haiti, que nem ao menos ficará estagnado. Vai empobrecer
ainda mais. A economia informal, calcula-se, passa de 60%. O país
é um gigantesco camelódromo. No centro de Porto Príncipe
todas as lojas, farmácias, confecções, bazares
estão com suas portas fechadas. Em frente às lojas,
há uma horda de camelôs com suas banquinhas, tabuleiros,
caixotes, cabides, vendendo um universo de quinquilharias. A taxa
de desemprego e subemprego é de 70%. "E está crescendo,
com certeza", aposta Jean Edouard Baker, 61 anos, vice-presidente
da Associação das Indústrias do Haiti. Baker
vive na pele a desgraça do país. Em fevereiro, nos
dias de fúria da queda de Aristide, tocaram fogo nas suas
três fábricas têxteis. Só uma ficou em
pé. Dos 1.000 empregados que tinha,
restam 200.
Yveline Cadet, bela negra de sorriso contido e olhos ariscos, ganha
menos que o prefeito de Pétionville, mas está contente.
Era caixa no Unibank, a segunda maior casa bancária do Haiti,
e agora é recepcionista no palácio presidencial, o
único prédio imaculadamente branco e limpo do país.
Ganha o equivalente a 1.000 reais.
Aos 24 anos, não tem filhos, mora perto do emprego e ainda
estuda. Cursa administração de empresas numa faculdade
privada.
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O
CARVÃO E O LIXO
Judeland, que vende sacos de carvão de domingo
a domingo, uma das razões do frenético desmatamento
do país, e Beaubrun, que recolhe lixo e vende-o como
comida para os porcos: nenhum dos dois, em sua luta contra a
miséria, é exceção |
O Haiti, com seus 8,5 milhões de habitantes,
não é um atoleiro só por causa de suas carências
monumentais. É também uma arapuca política,
pois, ao fim e ao cabo, as tropas brasileiras sustentam um governo
provisório inepto, violento e autoritário. O primeiro-ministro
Gérard Latortue, ex-apresentador de um talk-show em Miami,
na Flórida, é um senhor roliço, neófito
em política e hábil em culpar todo mundo pela paralisia
de seu governo. O presidente Boniface Alexandre, juiz da Suprema
Corte, dono de um corpanzil que contrasta com sua voz caprina, é
ainda menos ativo e vive enfurnado no palácio presidencial.
Autoritário, o governo tenta impedir as manifestações
de partidários de Aristide e apóia a brutalidade da
Polícia Nacional do Haiti. A PNH tem 4.000
homens e é famosa por meter-se com assassinatos, estupros,
tráfico, seqüestros. Seus policiais costumam chegar
atirando. "Têm mesmo de atirar e depois perguntar", diz Jean
Philippe Sassine, espécie de vice-prefeito da capital. "Se
não limparmos o país das gangues não haverá
progresso. Será um massacre, mas se não fizermos isso
agora vai ficar pior."
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A FOME E A COMIDA
Um tabuleiro com carnes que, num colapso de higiene,
estão sempre expostas às moscas, e Bazile, que
cuida do arroz tailandês abrigado no galpão de
uma ONG: o vigia dos alimentos, ironia haitiana, também
tem seus dias de fome |
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Numa quarta-feira recente, na favela de Bel
Air, reduto de partidários de Aristide, a brutalidade policial
apareceu com força. Nesse dia, uma multidão desfilava
pela favela pedindo a volta de Aristide, num ritmo mais parecido
com Carnaval baiano do que com protesto político. Um pelotão
de brasileiros vigiava a manifestação de longe, a
bordo de um Urutu. Tudo transcorria em paz até que chegou
a Polícia Nacional atirando, como sempre. A multidão
se dispersou, manifestantes desciam as ladeiras correndo, com os
braços abertos para mostrar que não estavam armados.
Os soldados brasileiros, surpreendidos no meio do salseiro, postaram-se
no tanque blindado e ficaram quase meia hora trocando tiros
sem saber direito quem atirava nem por quê. No fim, nenhum
morto, dez presos. "Isso não pode continuar", desabafa um
coronel gaúcho, com um posto estratégico na brigada
em Porto Príncipe. "O Brasil e a ONU tinham de forçar
o governo do Haiti a ser civilizado, democrático. Não
podemos apoiar isso." Para piorar, os governos dos EUA, França
e Canadá vivem pressionando para que os brasileiros sejam
mais duros e violentos na repressão local, como admitiu o
general Augusto Heleno Ribeiro, comandante-geral das tropas da ONU
no Haiti, em depoimento no Congresso em Brasília, na semana
passada.
Phéné Bazile, 41 anos, não ganha como o prefeito
de Pétionville nem pode estudar, como a recepcionista do
palácio, mas está empregado. Há onze anos,
cuida do galpão de uma ONG estrangeira que armazena alimentos
para dar aos pobres. A ironia é que Bazile, tomando conta
do depósito de comida, às vezes passa fome em casa,
com a mulher e quatro filhos pequenos. "Tem dias que o salário
não dá", diz ele, cercado por pacotes de arroz trazidos
da Tailândia.
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O DEUS E OS DEUSES
Uma cerimônia de vodu, realizada na casa-templo
de Max Beauvoir, o mais celebrado pai-de-santo do país,
e dois pastores evangélicos à cata de fiéis
no domingo de sol: diz-se que 80% dos haitianos são católicos,
20% são evangélicos e 100% praticam o voduísmo,
religião que Hollywood demonizou |
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Em Porto Príncipe, ouve-se uma piada
sobre o caráter do haitiano. Um francês morre, chega
no céu e, diante do portão celestial, São Pedro
comunica-lhe: "O que o senhor pedir será dado em dobro ao
próximo morto". O francês pede uma noite com Sharon
Stone, e o morto seguinte teria duas noites. Um americano aparece
no céu, ouve o aviso de São Pedro, reflete um pouco
e pede 10 milhões de dólares e o próximo
levaria 20 milhões. Até que chega um haitiano e, diante
da charada de São Pedro, ele pensa, pensa, pensa. Finalmente,
faz seu pedido: "Quero que o senhor me fure um olho". Os haitianos
desenvolveram um instinto predatório. Nas ruas da capital,
há dezenas, centenas de carcaças de automóvel.
Estão desmanteladas, enferrujadas, queimadas. É que
os carros são usados até o limite, até o último
recurso, e então, quando estragam de forma irremediável,
são abandonados em qualquer lugar. Os haitianos, particularmente
o que sobrou de sua elite, as poucas pessoas com articulação
e poder de mudar alguma coisa, agem assim, com egoísmo fulcral,
em várias esferas da vida.
Na eleição municipal de 1995,
vários prefeitos abandonaram o cargo no dia em que souberam
de sua derrota, deixando a prefeitura às moscas. Usam da
mesma indiferença para lidar com os recursos naturais do
país. Estima-se que 97% da cobertura vegetal do Haiti tenha
sido destruída. O carvão, combustível do século
XIX, é o combustível do Haiti do terceiro milênio
e, para produzi-lo, na aguda carência de fogões
e botijões de gás, o desmatamento é frenético.
A natureza agredida tem cobrado a conta na forma de imensos desabamentos
(como o de Mapou, em maio: 3.000 mortos)
e violentas enchentes (como a de Gonaïves, em outubro: 2.500
mortos). Com tantos desastres e tragédias, o Haiti só
tem mesmo fartura de funerárias e cemitérios. Os túmulos
e jazigos, com suas portinholas e varandinhas, parecem uma cidade
de anões e são mais sólidos e bem-cuidados
que as casas dos vivos. As sepulturas são pintadas, em contraste
com os barracos invariavelmente erguidos com cinzentos blocos de
concreto. A tinta é caríssima. Um galão pode
custar quase 200 reais. Tanto dinheiro só pode ser gasto
no que os haitianos chamam de morada eterna.
Enel Alcius. 24 anos, é expansivo e simpático. Jamais
ganhou um salário como o do prefeito de Pétionville,
não estuda como a recepcionista do palácio nem tem
emprego como o vigia do galpão de comida. Na praça,
com o pai, Alcius vende telas de pintura naïve, coqueluche
local. Ganha 1.000 gourdes por
semana, uns 70 reais. "Moro com a família, trabalho para
comprar uma roupa, uma comida", diz.
É um escândalo que haja um país
tão pobre como o Haiti na soleira da porta da maior potência
econômica e militar da história da humanidade. Os Estados
Unidos várias vezes intervieram no país, como toda
potência, na defesa dos próprios interesses. O embargo
econômico, que durou de 1991 a 1994, foi devastador e afundou
a nação ainda mais em um poço do qual jamais
se recuperou. De meados da década de 90 até agora,
esta é a quinta missão da ONU no Haiti. Nenhuma das
anteriores deu certo. Ao fim de cada uma, os haitianos seguiram
num rascunho de país: cercados de miséria e incapazes
de criar instituições minimamente estáveis.
E rezando ao Deus cristão ou aos deuses do Daomé
para que a vida não lhes traga mais dor. No Haiti,
diz-se que 80% são católicos e 20% evangélicos,
ramo em franco crescimento no país, mas 100% são adeptos
do voduísmo, a religião de origem africana demonizada
por Hollywood. "O vodu é o cimento social deste país",
comenta o pai-de-santo e engenheiro químico Max Beauvoir,
negro alto e forte, casado com uma simpática francesa loira.
"O Haiti inventou essa religião", completa ele, com um sorriso
de acostamento, que estaciona nos lábios apenas na hora calculadamente
conveniente.
Judeland Charles, que não revela a idade, não tem
salário, não estuda, não tem emprego e trabalha
para sobreviver. Vende carvão, de domingo a domingo, numa
feira de Porto Príncipe. Cada saco sai por 24 reais. O negócio
está piorando. Com dinheiro curto, ela compra cada vez menos
carvão para revender.
Phanor Beaubrun é o haitiano mais desassistido de todos
os que aparecem nesta reportagem. Não tem salário,
nem estudo, nem emprego, nem pinturas ou carvão para vender.
Ele vasculha o lixo de Porto Príncipe. Nos monturos, seleciona
restos de legumes, cascas de frutas, pedaços de cana-de-açúcar.
Coloca tudo num carrinho de mão e, com altivez incongruente
para quem fuça na imundície, sai a vender a carga
como comida para porcos. Cobra 20 gourdes por carregamento, coisa
de 1,50 real. Vive do lixo e da fome dos porcos.
Phanor Beaubrun não é uma exceção,
um caso radical da miséria haitiana. Ele é a própria
personificação da realidade de seu país. Tem
52 anos (a expectativa de vida dos haitianos), é analfabeto
(48% da população) e está desempregado (70%).
Por 40 reais, aluga uma peça de 6 metros quadrados, o tamanho
de uma cela de presídio, onde dormem ele, a mulher e os seis
filhos. Na peça, não tem energia elétrica,
nem água, nem esgoto (70% dos barracos de Porto Príncipe).
Na peça de Beaubrun, há apenas dois colchões,
uma mesa, algumas panelas e um exemplar da Bíblia.
Nos últimos meses, como que para ressaltar sua identidade
carnal com o desmanche do Haiti, sua situação piorou.
"Tive de tirar as crianças da escola. Não tem mais
dinheiro", diz ele, ao encerrar a labuta de um dia em que a família
não teve o que comer. Phanor Beaubrun é o próprio
Haiti, descrito com aridez e exatidão pelo romancista inglês
Graham Greene, que morou em Porto Príncipe no um dia acolhedor
Hotel Oloffson. Beaubrun é o Haiti, país onde, como
escreveu Greene, "nossos passos rangem sobre o carvão em
pó, e o gosto de pedregulho fica entre os dentes".
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