Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Haiti
O atoleiro em que
o Brasil se meteu

No meio da rua, um porco chafurda em um monturo
enlameado pelo contínuo vazamento do esgoto. Ao lado,
uma mulher negra alegre e banguela, sob um guarda-sol
colorido, vende peixe cru em seu tabuleiro – e, para
livrar-se das escamas, lava o peixe no esgoto que
corre sob sua cadeira. Sua vizinha de feira vende
carne suína, já esverdeada pelo calor e pelas moscas.


André Petry, com fotos de Paulo Vitale


A GUERRA E A PAZ
Feira em Porto Príncipe, a miserável capital haitiana, onde se vende peixe cru lavado na água do esgoto e porcos chafurdam no lixo, e uma patrulha brasileira sob a bandeira da ONU: a luta pela sobrevivência num país de paz precária

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Perguntas e Respostas: Crise no Haiti

A feira, retratada em fotos ao longo desta reportagem, é montada todos os dias no coração de Porto Príncipe, a capital do Haiti, e é uma das mais estonteantes expressões do desmanche do país. A feira está em local privilegiado, pois ali jorra água. Não é água, na verdade: é o esgoto que vaza. Como o esgoto não está viscoso e escuro, mas ainda ralo e cinza, diluído, ganha uma remota aparência de água. Sendo assim, lava-se nele o peixe cru. Lavam-se as mãos. Os pés. Os chinelos. As bicicletas. Toma-se até banho ali, com sabonete e tudo. Os haitianos chamam a feira de "mercado da África", mas os estrangeiros, cada vez mais numerosos no país por causa da missão da ONU, apelidaram-na de "cozinha do inferno". A feira é uma síntese do Haiti, metáfora de um país esmagado por uma agonia interminável. Ali, há gente por todos os lados, vozes, gingas, cores fortes e um inigualável sistema de cheiros, em que o aroma agradável das bananas e mangas é subitamente cortado por lufadas do odor fétido que vem das carnes podres e da rua convertida em pocilga.

Eis o atoleiro em que o Brasil se meteu. Há seis meses, o país desembarcou no Haiti seu maior contingente militar já enviado ao exterior desde a II Guerra Mundial. São 1.200 homens que, até meados deste mês, serão substituídos por outros 1.200. Nenhum outro país, do Sri Lanka à Argentina, do Chile ao Paquistão, mandou tanta gente para o Haiti. Nenhuma outra tropa foi recebida com tanto entusiasmo popular. Quando os militares circulavam pelas ruas de Porto Príncipe, em jipes ou tanques Urutu, exibindo a bandeira verde-amarela na manga do uniforme, os haitianos acenavam, aplaudiam, gritavam "Brésil, Brésil, Brésil". Até beijavam a bandeira brasileira para agradecer a ajuda e, é claro, ficar perto de alguém da mesma nacionalidade que Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos, o trio de craques mais celebrado num país em que o futebol também é paixão nacional. Hoje, os militares são tratados com olímpica indiferença. Eles temem que a indiferença não demore a virar hostilidade.

O PALÁCIO E A RUA
Yveline Cadet, orgulhosa do salário de 1 000 reais como recepcionista do imaculado palácio presidencial, e um protesto promovido por aliados de Aristide na favela de Bel Air: tumulto e tiroteio de meia hora

Não que a tropa brasileira esteja descumprindo seu dever. O problema é que a força de paz tem o único objetivo de garantir a segurança e a ordem pública. É óbvio que um povo pobre e analfabeto, faminto e desempregado quer muito mais do que segurança. Por isso, o ronco da brabeza popular já começa a ser ouvido aqui e ali. Para decepção dos haitianos, desde a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide em fevereiro passado, a ONU não executou um único projeto humanitário, não montou uma frente de trabalho, não instalou um poste de iluminação pública, não pavimentou um trecho de ruela. Engasgado na tentacular burocracia da ONU, o grosso do dinheiro da ajuda internacional nunca chega. E isso num país em que a ajuda internacional, desde há muito, é a grande fonte de renda do Estado, disputando com as remessas feitas pelos haitianos que vivem nos Estados Unidos ou no Canadá – cerca de 1,5 milhão, quase 20% de toda a população do Haiti. Como prática, a ONU faz licitação internacional para abastecer as tropas de paz. Por isso, nem a presença dos 5.000 militares e policiais estrangeiros no país foi capaz de dar um sopro de vida ao que ainda está de pé na economia haitiana. Resultado: num país paupérrimo, o café-da-manhã dos comandantes é um convescote em que se servem maionese espanhola, geléia belga, manteiga italiana.

Maurice Prosper, 49 anos, não tem do que reclamar. Depois da queda de Aristide, tudo foi trocado no país e Prosper foi nomeado prefeito de Pétionville, a região rica da capital. Ganha 45.000 gourdes, 3.300 reais, mais ajuda de custo equivalente a 1.000 reais. Seus filhos mais velhos estão encaminhados. Um é advogado. Outro estuda medicina na República Dominicana.

A MISÉRIA E A ARTE
Morador recolhe água dentro de um córrego tomado por detritos em Porto Príncipe, e Enel Alcius, com o pai, mostra as telas coloridas que vende na praça de Pétionville

Em Porto Príncipe, cidade de 2 milhões de habitantes derramada à beira de um mar solidamente poluído, há lixo por toda parte e em quantidades suntuosas. Até o lixo é pobre. Nele, encontram-se garrafas de plástico, restos de alimentos, em geral legumes ou frutas, calçados, latas, papéis – e quase nada mais. É raro haver entre os detritos lâmpadas, brinquedos, caixas, móveis, vidros. Há cruzamentos interditados à passagem de carros devido ao acúmulo de sujeira. São montes de mais de 1 metro de altura, com os quais os pedestres convivem como se fossem parte inata da paisagem. Passam sobre eles, arregaçando as calças para não sujá-las, ou contornam-nos, para não enlamear os sapatos. Sobre o lixo, passam homens de terno e gravata, passam mulheres de vestido longo e sandálias douradas, trajadas para a missa de domingo. O órgão que deve recolher o lixo, com o pomposo nome de Serviço Metropolitano de Coleta de Resíduos Sólidos, está falido, como quase tudo o que vem do Estado haitiano. Em Pétionville, a região rica, onde vivem 400.000 pessoas, há quatro caminhões de lixo. Por esses dias, só um estava funcionando.

A falência da coleta de lixo em Porto Príncipe é um símbolo apenas do vácuo de instituições sobre o qual se pretendeu um dia construir um país. No Haiti, a nação mais pobre das Américas, tudo pode piorar. O governo é provisório. O Parlamento está fechado desde outubro do ano passado e, se tudo der certo, só haverá eleição no fim do ano que vem. A Justiça é uma peça de ficção, embora sejam numerosas as faculdades de direito, das quais a primeira foi criada nos anos 60 do século XIX. As Forças Armadas, que faziam oposição a Aristide, foram dissolvidas em meados dos anos 90 num canetaço presidencial – e os militares voltaram para casa sem nenhuma indenização mas, por garantia, levaram seus uniformes e suas armas. A produção econômica é cada vez menor. Como colônia francesa, o Haiti chegou a ser o maior produtor de açúcar do mundo, com 75% do mercado mundial. Em meados da década passada, o país importava o produto dos Estados Unidos. Como colônia francesa, o Haiti chegou a ser tão farto que, sozinho, valia mais para Paris do que rendiam, juntas, as treze colônias americanas à monarquia em Londres. Há trinta anos, o Haiti era auto-suficiente em alimentos. Hoje, importa mais de um terço do que come. Seu PIB cai a cada ano. Já beirou os 4 bilhões de dólares em 2000, mas hoje, no arremedo das estatísticas locais, não passaria de 2,7 bilhões.

A VIDA E A MORTE
A multidão num camelódromo e um cemitério da capital haitiana: as casas dos vivos, cinzentas e frágeis, contrastam com as moradas dos mortos, sempre sólidas e coloridas

E vai piorar. Pelas previsões da Cepal, todos os países da América Latina e do Caribe vão crescer no ano que vem, à exceção de dois: a República Dominicana, cuja economia ficará estagnada, e o pobre Haiti, que nem ao menos ficará estagnado. Vai empobrecer ainda mais. A economia informal, calcula-se, passa de 60%. O país é um gigantesco camelódromo. No centro de Porto Príncipe todas as lojas, farmácias, confecções, bazares estão com suas portas fechadas. Em frente às lojas, há uma horda de camelôs com suas banquinhas, tabuleiros, caixotes, cabides, vendendo um universo de quinquilharias. A taxa de desemprego e subemprego é de 70%. "E está crescendo, com certeza", aposta Jean Edouard Baker, 61 anos, vice-presidente da Associação das Indústrias do Haiti. Baker vive na pele a desgraça do país. Em fevereiro, nos dias de fúria da queda de Aristide, tocaram fogo nas suas três fábricas têxteis. Só uma ficou em pé. Dos 1.000 empregados que tinha, restam 200.

Yveline Cadet, bela negra de sorriso contido e olhos ariscos, ganha menos que o prefeito de Pétionville, mas está contente. Era caixa no Unibank, a segunda maior casa bancária do Haiti, e agora é recepcionista no palácio presidencial, o único prédio imaculadamente branco e limpo do país. Ganha o equivalente a 1.000 reais. Aos 24 anos, não tem filhos, mora perto do emprego e ainda estuda. Cursa administração de empresas numa faculdade privada.

O CARVÃO E O LIXO
Judeland, que vende sacos de carvão de domingo a domingo, uma das razões do frenético desmatamento do país, e Beaubrun, que recolhe lixo e vende-o como comida para os porcos: nenhum dos dois, em sua luta contra a miséria, é exceção

O Haiti, com seus 8,5 milhões de habitantes, não é um atoleiro só por causa de suas carências monumentais. É também uma arapuca política, pois, ao fim e ao cabo, as tropas brasileiras sustentam um governo provisório inepto, violento e autoritário. O primeiro-ministro Gérard Latortue, ex-apresentador de um talk-show em Miami, na Flórida, é um senhor roliço, neófito em política e hábil em culpar todo mundo pela paralisia de seu governo. O presidente Boniface Alexandre, juiz da Suprema Corte, dono de um corpanzil que contrasta com sua voz caprina, é ainda menos ativo e vive enfurnado no palácio presidencial. Autoritário, o governo tenta impedir as manifestações de partidários de Aristide e apóia a brutalidade da Polícia Nacional do Haiti. A PNH tem 4.000 homens e é famosa por meter-se com assassinatos, estupros, tráfico, seqüestros. Seus policiais costumam chegar atirando. "Têm mesmo de atirar e depois perguntar", diz Jean Philippe Sassine, espécie de vice-prefeito da capital. "Se não limparmos o país das gangues não haverá progresso. Será um massacre, mas se não fizermos isso agora vai ficar pior."

A FOME E A COMIDA
Um tabuleiro com carnes que, num colapso de higiene, estão sempre expostas às moscas, e Bazile, que cuida do arroz tailandês abrigado no galpão de uma ONG: o vigia dos alimentos, ironia haitiana, também tem seus dias de fome

Numa quarta-feira recente, na favela de Bel Air, reduto de partidários de Aristide, a brutalidade policial apareceu com força. Nesse dia, uma multidão desfilava pela favela pedindo a volta de Aristide, num ritmo mais parecido com Carnaval baiano do que com protesto político. Um pelotão de brasileiros vigiava a manifestação de longe, a bordo de um Urutu. Tudo transcorria em paz até que chegou a Polícia Nacional – atirando, como sempre. A multidão se dispersou, manifestantes desciam as ladeiras correndo, com os braços abertos para mostrar que não estavam armados. Os soldados brasileiros, surpreendidos no meio do salseiro, postaram-se no tanque blindado e ficaram quase meia hora trocando tiros – sem saber direito quem atirava nem por quê. No fim, nenhum morto, dez presos. "Isso não pode continuar", desabafa um coronel gaúcho, com um posto estratégico na brigada em Porto Príncipe. "O Brasil e a ONU tinham de forçar o governo do Haiti a ser civilizado, democrático. Não podemos apoiar isso." Para piorar, os governos dos EUA, França e Canadá vivem pressionando para que os brasileiros sejam mais duros e violentos na repressão local, como admitiu o general Augusto Heleno Ribeiro, comandante-geral das tropas da ONU no Haiti, em depoimento no Congresso em Brasília, na semana passada.

Phéné Bazile, 41 anos, não ganha como o prefeito de Pétionville nem pode estudar, como a recepcionista do palácio, mas está empregado. Há onze anos, cuida do galpão de uma ONG estrangeira que armazena alimentos para dar aos pobres. A ironia é que Bazile, tomando conta do depósito de comida, às vezes passa fome em casa, com a mulher e quatro filhos pequenos. "Tem dias que o salário não dá", diz ele, cercado por pacotes de arroz trazidos da Tailândia.

O DEUS E OS DEUSES
Uma cerimônia de vodu, realizada na casa-templo de Max Beauvoir, o mais celebrado pai-de-santo do país, e dois pastores evangélicos à cata de fiéis no domingo de sol: diz-se que 80% dos haitianos são católicos, 20% são evangélicos e 100% praticam o voduísmo, religião que Hollywood demonizou

Em Porto Príncipe, ouve-se uma piada sobre o caráter do haitiano. Um francês morre, chega no céu e, diante do portão celestial, São Pedro comunica-lhe: "O que o senhor pedir será dado em dobro ao próximo morto". O francês pede uma noite com Sharon Stone, e o morto seguinte teria duas noites. Um americano aparece no céu, ouve o aviso de São Pedro, reflete um pouco e pede 10 milhões de dólares – e o próximo levaria 20 milhões. Até que chega um haitiano e, diante da charada de São Pedro, ele pensa, pensa, pensa. Finalmente, faz seu pedido: "Quero que o senhor me fure um olho". Os haitianos desenvolveram um instinto predatório. Nas ruas da capital, há dezenas, centenas de carcaças de automóvel. Estão desmanteladas, enferrujadas, queimadas. É que os carros são usados até o limite, até o último recurso, e então, quando estragam de forma irremediável, são abandonados em qualquer lugar. Os haitianos, particularmente o que sobrou de sua elite, as poucas pessoas com articulação e poder de mudar alguma coisa, agem assim, com egoísmo fulcral, em várias esferas da vida.

Na eleição municipal de 1995, vários prefeitos abandonaram o cargo no dia em que souberam de sua derrota, deixando a prefeitura às moscas. Usam da mesma indiferença para lidar com os recursos naturais do país. Estima-se que 97% da cobertura vegetal do Haiti tenha sido destruída. O carvão, combustível do século XIX, é o combustível do Haiti do terceiro milênio – e, para produzi-lo, na aguda carência de fogões e botijões de gás, o desmatamento é frenético. A natureza agredida tem cobrado a conta na forma de imensos desabamentos (como o de Mapou, em maio: 3.000 mortos) e violentas enchentes (como a de Gonaïves, em outubro: 2.500 mortos). Com tantos desastres e tragédias, o Haiti só tem mesmo fartura de funerárias e cemitérios. Os túmulos e jazigos, com suas portinholas e varandinhas, parecem uma cidade de anões e são mais sólidos e bem-cuidados que as casas dos vivos. As sepulturas são pintadas, em contraste com os barracos invariavelmente erguidos com cinzentos blocos de concreto. A tinta é caríssima. Um galão pode custar quase 200 reais. Tanto dinheiro só pode ser gasto no que os haitianos chamam de morada eterna.

Enel Alcius. 24 anos, é expansivo e simpático. Jamais ganhou um salário como o do prefeito de Pétionville, não estuda como a recepcionista do palácio nem tem emprego como o vigia do galpão de comida. Na praça, com o pai, Alcius vende telas de pintura naïve, coqueluche local. Ganha 1.000 gourdes por semana, uns 70 reais. "Moro com a família, trabalho para comprar uma roupa, uma comida", diz.

É um escândalo que haja um país tão pobre como o Haiti na soleira da porta da maior potência econômica e militar da história da humanidade. Os Estados Unidos várias vezes intervieram no país, como toda potência, na defesa dos próprios interesses. O embargo econômico, que durou de 1991 a 1994, foi devastador e afundou a nação ainda mais em um poço do qual jamais se recuperou. De meados da década de 90 até agora, esta é a quinta missão da ONU no Haiti. Nenhuma das anteriores deu certo. Ao fim de cada uma, os haitianos seguiram num rascunho de país: cercados de miséria e incapazes de criar instituições minimamente estáveis. E rezando – ao Deus cristão ou aos deuses do Daomé – para que a vida não lhes traga mais dor. No Haiti, diz-se que 80% são católicos e 20% evangélicos, ramo em franco crescimento no país, mas 100% são adeptos do voduísmo, a religião de origem africana demonizada por Hollywood. "O vodu é o cimento social deste país", comenta o pai-de-santo e engenheiro químico Max Beauvoir, negro alto e forte, casado com uma simpática francesa loira. "O Haiti inventou essa religião", completa ele, com um sorriso de acostamento, que estaciona nos lábios apenas na hora calculadamente conveniente.

Judeland Charles, que não revela a idade, não tem salário, não estuda, não tem emprego e trabalha para sobreviver. Vende carvão, de domingo a domingo, numa feira de Porto Príncipe. Cada saco sai por 24 reais. O negócio está piorando. Com dinheiro curto, ela compra cada vez menos carvão para revender.

Phanor Beaubrun é o haitiano mais desassistido de todos os que aparecem nesta reportagem. Não tem salário, nem estudo, nem emprego, nem pinturas ou carvão para vender. Ele vasculha o lixo de Porto Príncipe. Nos monturos, seleciona restos de legumes, cascas de frutas, pedaços de cana-de-açúcar. Coloca tudo num carrinho de mão e, com altivez incongruente para quem fuça na imundície, sai a vender a carga como comida para porcos. Cobra 20 gourdes por carregamento, coisa de 1,50 real. Vive do lixo e da fome dos porcos.

Phanor Beaubrun não é uma exceção, um caso radical da miséria haitiana. Ele é a própria personificação da realidade de seu país. Tem 52 anos (a expectativa de vida dos haitianos), é analfabeto (48% da população) e está desempregado (70%). Por 40 reais, aluga uma peça de 6 metros quadrados, o tamanho de uma cela de presídio, onde dormem ele, a mulher e os seis filhos. Na peça, não tem energia elétrica, nem água, nem esgoto (70% dos barracos de Porto Príncipe). Na peça de Beaubrun, há apenas dois colchões, uma mesa, algumas panelas e um exemplar da Bíblia. Nos últimos meses, como que para ressaltar sua identidade carnal com o desmanche do Haiti, sua situação piorou. "Tive de tirar as crianças da escola. Não tem mais dinheiro", diz ele, ao encerrar a labuta de um dia em que a família não teve o que comer. Phanor Beaubrun é o próprio Haiti, descrito com aridez e exatidão pelo romancista inglês Graham Greene, que morou em Porto Príncipe no um dia acolhedor Hotel Oloffson. Beaubrun é o Haiti, país onde, como escreveu Greene, "nossos passos rangem sobre o carvão em pó, e o gosto de pedregulho fica entre os dentes".

 
 
 
 
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