Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Sociedade
Regras para o bom
não-conhecedor

Especialistas em vinho avisam: beber deve ser
um prazer, não um exercício de comparações


Sandra Brasil


Ilustração Negreiros

EXCLUSIVO ON-LINE
Mais sobre vinhos no Portal Veja São Paulo
Trechos do livro Presença do Vinho no Brasil
Trechos do livro Vinhos - O Essencial
Trechos do livro
O Connaisseur Acidental - Uma Viagem Irreverente pelo Mundo do Vinho
Introdução
Uma estrada para Sassoferrato
Trechos do livro
Introdução ao Mundo do Vinho
Uma breve história
Perguntas mais Freqüentes

Algumas verdades básicas sobre vinhos são bem fáceis de entender. Primeiro, vinho em geral é uma bebida boa – e tanto melhor será quanto mais caro for. Segundo, como também é uma bebida alcoólica, tende a embebedar seus consumidores ou, no mínimo, deixá-los alegrinhos, o que fará com que esqueçam os preços vertidos pelas garrafas mais exigentes (até a manhã seguinte). Terceiro, na definição do cartunista americano Saul Steinberg, "vinho é a única coisa que deixa a nós, adultos, felizes por motivo nenhum". Bem, se ficássemos só no básico a história não progrediria – e é aí que entram os variados especialistas que desvendam, mas às vezes também complicam demais, o mundo da mais celebrada das bebidas. Assim, tem-se, entre outros, o enólogo, que estuda e entende do assunto, o enófilo, o bebedor que aprecia o vinho com conhecimento de causa, e o sommelier, profissional que sugere rótulos em restaurantes. Mais recentemente, o aumento do interesse geral pelos vinhos e a quase obrigatoriedade de fazer algum comentário sobre o assunto em ocasiões sociais propiciaram o surgimento de uma nova categoria: o "enobobo", também chamado em alguns círculos de "enochato". Não é difícil identificá-lo: trata-se do sujeito que fez um cursinho básico sobre vinhos, leu a respeito em revistas e, assim municiado, aproveita toda e qualquer chance para mandar ver nas taças, com pose de expert. Da encenação costumam sair pérolas, sobretudo quando ele se arrisca a imitar os especialistas em identificar aromas exóticos. "Nada afasta mais o brasileiro do vinho do que essa bobagem de comparar aromas. A pessoa pode perfeitamente apreciar o bouquet de um vinho sem ter de ficar tentando descobrir se lembra isso ou aquilo", reconhece o paulista Ciro Lilla, dono de uma importadora, que estuda o assunto há 35 anos e acaba de lançar o livro Introdução ao Mundo do Vinho, uma espécie de bê-á-bá da enologia. "O vinho serve para dar alegria. Não pode virar um fardo", concorda Manoel Beato, o mais incensado sommelier do Brasil, que prova, em média, quarenta vinhos por dia nos restaurantes do grupo Fasano.


Marcos Fernandes/Luz
Alunos do curso da sommelière Anna Rita (na frente, à dir.): destaque para a simplicidade dos vinhos

A busca de metáforas para o vinho é antiga e não é necessariamente pedante, visto que elas procuram geralmente identificar o aroma, a sensação mais difícil de descrever. No livro O Connaisseur Acidental – Uma Viagem Irreverente pelo Mundo do Vinho, o jornalista inglês Lawrence Osborne relata o desenvolvimento do vocabulário relativo ao mundo da enologia nos últimos 100 anos. "A linguagem evoluiu em torno de metáforas que podem facilmente confundir o iniciante, primeiro relativas à classe social, depois a gênero e em seguida a frutas e vegetais", diz Osborne. Na década de 50, a descrição dos vinhos seguia características ditas masculinas – "duro, afirmativo, grande" – ou femininas – "sedutor, gracioso". Depois, até meados dos anos 70, eles passaram a ser definidos em termos de, por assim dizer, classe: os bons eram "refinados", tinham "estirpe, fineza, distinção"; já os ruins eram classificados como "grosseiros, ásperos, sem sutileza". Em seguida aflorou a era das comparações frutíferas e vegetais. De um lado, facilitou – por exemplo, ninguém erra se disser que um tinto lembra frutas vermelhas. "Uva é uma fruta vermelha. Portanto, todo vinho tem um pouco de gosto de fruta vermelha", pondera Osborne. De outro, a mudança de critério introduziu um mundo novo (e perigoso) na seara das comparações, e vinhos passaram a "lembrar" grafite, iodo, couro de sela, sangue de porco, fumaça, tabaco e animais silvestres. Xixi de gato, por exemplo, virou praticamente um padrão comum. Uma parte da culpa é colocada na conta do mais respeitado crítico de vinhos do mundo, o americano Robert Parker, um advogado de Baltimore que conquistou o enouniverso ao transformar o sistema de pontuação de vinhos em um regulador do mercado. Apesar da eficiência americana do método, Parker incorreu inúmeras vezes em arroubos poéticos do tipo "asfalto derretido", "pedra friável", "cereja crocante" e "folhas de outono revestidas de caramelo".

No que isso ajuda o pobre consumidor mediano a sentar-se à mesa de um restaurante, abrir o menu e fazer uma escolha decente? Em nada. Mesmo apreciadores mais aplicados, como os que procuram cursos de degustação, encaram a preleção sobre comparação de aromas e sabores mais ou menos como se fosse uma apostila de física quântica – raramente conseguem transportar o enunciado para a realidade. Na semana passada, a executiva Neukiria Abrantes, 33 anos, manifestava duas expectativas em relação à aula a que se preparava para assistir: poder escolher vinhos de bons preços e aprender a distinguir aromas. "Participei de uma degustação em que o especialista dizia que o vinho lembrava fósforo e grama molhada. Quero aprender a fazer o mesmo sem correr o risco de pagar mico", dizia. Não aprendeu, mas saiu aliviada: na aula, a sommelière italiana Anna Rita Zanier destacou que vinho é, antes de tudo, um alimento simples, explicou o processo de fermentação e passou muito por alto pelo vocabulário dos aromas. Mesmo assim, na hora da degustação, mencionou-se com certa insistência uma "lembrança" de manjericão. A esteticista Jane Souza, 36 anos, tentou, mas não conseguiu achar o aroma. "O máximo que eu senti foi cheiro- verde", lamentava, inconformada.

Ao perder tempo com a nomenclatura dos aromas e gostos, dizem os conhecedores, o principiante deixa de lado conhecimentos mais relevantes, como as diferenças entre as uvas viníferas, as principais regiões produtoras, de que forma clima e solo interferem no resultado final, como deve ser lido o rótulo e quais as melhores combinações da bebida com a comida (sim, aprofundar-se no mundo dos vinhos é praticamente trabalho para toda uma vida). "Não seja chato. Deguste na hora de degustar e beba socialmente quando indicado. Não contribua para a injusta imagem de esnobismo que a degustação de vinhos tem junto ao público", recomenda o médico Mário Telles, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, em São Paulo. "Conhecer vinho é beber vinho. O ritual da bebida não pode ser confundido com afetação, um mal que faz com que só uma, em cada dez garrafas devolvidas nos restaurantes, esteja realmente estragada", diz o sommelier Beato. Devolver é gesto que só se justifica quando o vinho está 1) bouchonné (a rolha é atacada por um fungo e libera cheiro de mofo); ou 2) oxidado (aroma desagradável de vinagre e alteração de cor, mais escura no branco e amarronzada no tinto). "Não gostar do vinho não significa que ele esteja estragado. Significa que a pessoa fez a escolha errada", alerta Lilla. Ele ensina que cheirar a rolha e, depois, o vinho e girar o copo pela haste para liberar os aromas são rituais consagrados e necessários para a boa apreciação da bebida – desde que a pessoa efetivamente saiba o que está fazendo. Cheirar e girar porque todo mundo faz, melhor pular o ritual. As próprias taças não exigem a precisão germânica imposta pelos enochatos. "Um bom copo faz diferença. Agora, uma taça para cada tipo de vinho não é coisa do mundo real", diz Lilla. Por fim, importantíssimo para o prazer de beber vinho é contar com uma boa companhia. "O melhor vinho do mundo é aquele que você pode comprar e tomar junto das pessoas de que gosta", diz o enófilo Carlos Cabral, que está lançando o livro Presença do Vinho no Brasil. Uma obra, como o nome indica, de teor histórico – e não mais um daqueles pretensiosos livros sobre vinhos que, ao contrário da frase de Steinberg citada no começo desta reportagem, nos fazem infelizes por inúmeros motivos.

 

MANUAL DOS ENOCHATOS

Quando se trata de avaliar um vinho, o repertório
de metáforas alucinadas é praticamente infindável.
Especialistas ouvidos por
VEJA listaram algumas:

"Lembra cassis pisado"

"É uma explosão de nariz"

"Remete a suor de cavalo"

"Parece grama cortada"

"Xixi de gato, provavelmente"

"Lembra asfalto derretido"

"Tem algo de cereja crocante"

"Percebo folhas de outono revestidas de caramelo"

"Lembra sangue de porco"

"Remete a couro de sela"

 
 
 
 
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