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Conjuntura
A economia comanda a política
Bons resultados econômicos levam Palocci
e Lula a isolar a esquerda do PT e a atrair
partidos aliados de olho em 2006

Otávio Cabral
Ana Araújo
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CONQUISTANDO
APOIO
Semana
de vitórias para Lula: reunião de prefeitos
do PT (acima) se tornou palco de apoio ao governo;
a Câmara, do Professor Luizinho (abaixo), aprovou
status de ministro para Henrique Meirelles
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Gustavo Miranda/Ag. OGlobo
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Os bons resultados da economia serviram ao
governo como um poderoso antídoto para a crise política
que se anunciava. Na semana passada, a esquerda do PT, que ameaçava
se rebelar, reconheceu que perdeu, ao menos temporariamente, seu
principal discurso a mudança da política econômica.
O PMDB, o maior partido aliado do governo já articula o adiamento
da convenção marcada para o próximo domingo
12, quando decidirá sobre a proposta de rompimento com o
governo. Com a expectativa de a economia continuar em alta, Lula
se torna um candidato forte à reeleição em
2006. Partidos de DNA governista, como o PMDB, portanto, não
teriam por que se afastar agora, num momento em que as perspectivas
de poder a longo prazo surgem cristalinas no horizonte. Além
de apaziguar os ânimos, a simbiose entre os resultados econômicos
e as articulações políticas acabou também
orientando a bússola de poder na Esplanada dos Ministérios
na direção do ministro Antonio Palocci, que se transformou
no principal conselheiro do presidente Lula inclusive para assuntos
políticos.
A influência do ministro da Fazenda
tem crescido na mesma proporção da atividade econômica.
Palocci, nos últimos meses, virou o pivô do governo.
É com ele que Lula se aconselha diariamente, seja por telefone,
seja por audiência direta no palácio. É à
casa dele que Lula vai nos fins de semana, muitas vezes de barco,
navegando pelo Lago Paranoá. Um exemplo do prestígio
do ministro com o presidente ocorreu na última reunião
ministerial, no fim do mês passado. Como é costume
na democracia petista, esses encontros servem para os assessores
do presidente debaterem as dificuldades. Ouvidos um a um, a maioria
dos ministros do PT culpava a política econômica pelos
problemas em sua pasta. Quando chegou a vez de José Dirceu,
as críticas foram endossadas com extrema veemência.
Lula pediu a palavra. Chamou Palocci para sentar-se a seu lado e
lhe disse: "A política econômica está certa
e não vai mudar. É a única coisa com a qual
estou 100% satisfeito no meu governo. Não mexam com o Palocci.
Mexer com ele é mexer comigo". José Dirceu deixou
a mesa, andou pelos jardins por uns cinco minutos, voltou à
reunião e permaneceu mudo até o fim. O encontro com
os ministros ocorreu antes da onda de boas notícias da semana
passada.
O presidente Lula soube do crescimento do
PIB um dia antes de sua divulgação oficial pelo IBGE.
Palocci foi ao Palácio do Planalto e mostrou a ele os dados
positivos. Momentos depois, Lula foi ao encontro dos prefeitos eleitos
pelo PT, no qual fez loas públicas a Palocci, que saiu ainda
mais fortalecido. Após seu discurso, o presidente passou
o resto do encontro cochichando com o ministro. Com os números
da economia jogando a seu lado, Palocci reafirmou que a estabilidade
e o equilíbrio fiscal são meios que devem ser preservados
e que levarão a melhorias na qualidade de vida e na distribuição
de renda, bandeiras que, embora inicialmente caras ao PT, podem
acabar se tornando a grande marca do governo. A segunda etapa dessa
estratégia já foi anunciada. Para dar impulso à
nova fase da economia, algumas medidas serão tomadas. A principal
é o fechamento de um acordo com o FMI para que em 2005 sejam
incluídos no Orçamento cerca de 3 bilhões de
reais para investimentos em infra-estrutura que não serão
computados nos cálculos do superávit. Noventa por
cento desses recursos serão usados na recuperação
de estradas e na construção de usinas hidrelétricas.
Com isso, o governo calcula que sobrará dinheiro para aumentar
o salário mínimo, reajustar a tabela do imposto de
renda e incrementar programas de habitação. Com essas
quatro medidas, o governo crê que conseguirá agradar
à classe média, às camadas mais pobres, ao
empresariado e às centrais sindicais, tornando a reeleição
de Lula em 2006 uma possibilidade ainda mais concreta.
Os números da economia interferiram
também num dos principais nichos de resistência ao
governo. O PT vinha pressionando Lula a tomar uma atitude que garantisse
a manutenção do apoio de todo o partido e dos aliados
de esquerda a seu mandato e a sua reeleição. Exigia
a nomeação de José Dirceu para o Ministério
do Planejamento, que funcionaria como um contraponto à política
econômica. É pouco provável que isso ocorra
agora. Consultado sobre o assunto, Palocci disse que essa não
era a saída de sua preferência, pois temia que o mercado
interpretasse mal uma dicotomia no comando da economia. "Jogamos
a toalha, não adianta mais dar murro em ponta de faca", admite
o deputado Chico Alencar, do PT do Rio de Janeiro, um dos mais influentes
nomes da esquerda petista na Câmara. "O predomínio
de Palocci, que já era visível, agora está
consolidado. Não podemos dizer que o crescimento econômico
é ruim, ficamos sem discurso." A esquerda do PT se reúne
nesta semana em São Paulo, e uma das propostas apresentadas
será a de apoiar a política econômica do governo
com restrições. "Agora, vamos tentar mudar por dentro",
diz o deputado Walter Pinheiro, do PT da Bahia.
A reacomodação dos aliados,
que se anunciava como uma provável hecatombe, também
ganhou ares mais pacíficos na semana passada. O PMDB, velho
chantagista de poder, começou a repensar sua determinação
em virar partido de oposição, coisa que não
faz há quase vinte anos. A convenção prevista
para o próximo domingo, na qual o PMDB poderia anunciar sua
saída do governo, deve ser postergada indefinidamente, e
a situação do partido continuará a mesma: no
governo, mas com uma ala oposicionista de faz-de-conta, esperando
oportunidade para dar o bote. "Não podemos realizar essa
convenção, que vai expor as divergências do
partido e prejudicar a governabilidade em um momento importante
para o país, quando a economia mostra que está no
caminho certo", afirma o ministro peemedebista Eunício Oliveira,
das Comunicações. Com o apoio do PMDB, a Câmara
aprovou o polêmico projeto criando foro especial para investigações
que envolvam o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,
e também ex-presidentes do banco. O governo só não
conseguiu acordo com o PPS, a legenda que abriga ex-comunistas.
Mas, numa maré de boas notícias produzidas pelo capital,
que diferença isso faz?
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