Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Conjuntura
A economia comanda a política

Bons resultados econômicos levam Palocci
e Lula a isolar a esquerda do PT e a atrair
partidos aliados de olho em 2006


Otávio Cabral

 
Ana Araújo

CONQUISTANDO APOIO
Semana de vitórias para Lula: reunião de prefeitos do PT (acima) se tornou palco de apoio ao governo; a Câmara, do Professor Luizinho (abaixo), aprovou status de ministro para Henrique Meirelles

Gustavo Miranda/Ag. OGlobo

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NESTA EDIÇÃO
A volta dos empregos
O campo em 2005

Os bons resultados da economia serviram ao governo como um poderoso antídoto para a crise política que se anunciava. Na semana passada, a esquerda do PT, que ameaçava se rebelar, reconheceu que perdeu, ao menos temporariamente, seu principal discurso – a mudança da política econômica. O PMDB, o maior partido aliado do governo já articula o adiamento da convenção marcada para o próximo domingo 12, quando decidirá sobre a proposta de rompimento com o governo. Com a expectativa de a economia continuar em alta, Lula se torna um candidato forte à reeleição em 2006. Partidos de DNA governista, como o PMDB, portanto, não teriam por que se afastar agora, num momento em que as perspectivas de poder a longo prazo surgem cristalinas no horizonte. Além de apaziguar os ânimos, a simbiose entre os resultados econômicos e as articulações políticas acabou também orientando a bússola de poder na Esplanada dos Ministérios na direção do ministro Antonio Palocci, que se transformou no principal conselheiro do presidente Lula inclusive para assuntos políticos.

A influência do ministro da Fazenda tem crescido na mesma proporção da atividade econômica. Palocci, nos últimos meses, virou o pivô do governo. É com ele que Lula se aconselha diariamente, seja por telefone, seja por audiência direta no palácio. É à casa dele que Lula vai nos fins de semana, muitas vezes de barco, navegando pelo Lago Paranoá. Um exemplo do prestígio do ministro com o presidente ocorreu na última reunião ministerial, no fim do mês passado. Como é costume na democracia petista, esses encontros servem para os assessores do presidente debaterem as dificuldades. Ouvidos um a um, a maioria dos ministros do PT culpava a política econômica pelos problemas em sua pasta. Quando chegou a vez de José Dirceu, as críticas foram endossadas com extrema veemência. Lula pediu a palavra. Chamou Palocci para sentar-se a seu lado e lhe disse: "A política econômica está certa e não vai mudar. É a única coisa com a qual estou 100% satisfeito no meu governo. Não mexam com o Palocci. Mexer com ele é mexer comigo". José Dirceu deixou a mesa, andou pelos jardins por uns cinco minutos, voltou à reunião e permaneceu mudo até o fim. O encontro com os ministros ocorreu antes da onda de boas notícias da semana passada.

O presidente Lula soube do crescimento do PIB um dia antes de sua divulgação oficial pelo IBGE. Palocci foi ao Palácio do Planalto e mostrou a ele os dados positivos. Momentos depois, Lula foi ao encontro dos prefeitos eleitos pelo PT, no qual fez loas públicas a Palocci, que saiu ainda mais fortalecido. Após seu discurso, o presidente passou o resto do encontro cochichando com o ministro. Com os números da economia jogando a seu lado, Palocci reafirmou que a estabilidade e o equilíbrio fiscal são meios que devem ser preservados e que levarão a melhorias na qualidade de vida e na distribuição de renda, bandeiras que, embora inicialmente caras ao PT, podem acabar se tornando a grande marca do governo. A segunda etapa dessa estratégia já foi anunciada. Para dar impulso à nova fase da economia, algumas medidas serão tomadas. A principal é o fechamento de um acordo com o FMI para que em 2005 sejam incluídos no Orçamento cerca de 3 bilhões de reais para investimentos em infra-estrutura que não serão computados nos cálculos do superávit. Noventa por cento desses recursos serão usados na recuperação de estradas e na construção de usinas hidrelétricas. Com isso, o governo calcula que sobrará dinheiro para aumentar o salário mínimo, reajustar a tabela do imposto de renda e incrementar programas de habitação. Com essas quatro medidas, o governo crê que conseguirá agradar à classe média, às camadas mais pobres, ao empresariado e às centrais sindicais, tornando a reeleição de Lula em 2006 uma possibilidade ainda mais concreta.

Os números da economia interferiram também num dos principais nichos de resistência ao governo. O PT vinha pressionando Lula a tomar uma atitude que garantisse a manutenção do apoio de todo o partido e dos aliados de esquerda a seu mandato e a sua reeleição. Exigia a nomeação de José Dirceu para o Ministério do Planejamento, que funcionaria como um contraponto à política econômica. É pouco provável que isso ocorra agora. Consultado sobre o assunto, Palocci disse que essa não era a saída de sua preferência, pois temia que o mercado interpretasse mal uma dicotomia no comando da economia. "Jogamos a toalha, não adianta mais dar murro em ponta de faca", admite o deputado Chico Alencar, do PT do Rio de Janeiro, um dos mais influentes nomes da esquerda petista na Câmara. "O predomínio de Palocci, que já era visível, agora está consolidado. Não podemos dizer que o crescimento econômico é ruim, ficamos sem discurso." A esquerda do PT se reúne nesta semana em São Paulo, e uma das propostas apresentadas será a de apoiar a política econômica do governo com restrições. "Agora, vamos tentar mudar por dentro", diz o deputado Walter Pinheiro, do PT da Bahia.

A reacomodação dos aliados, que se anunciava como uma provável hecatombe, também ganhou ares mais pacíficos na semana passada. O PMDB, velho chantagista de poder, começou a repensar sua determinação em virar partido de oposição, coisa que não faz há quase vinte anos. A convenção prevista para o próximo domingo, na qual o PMDB poderia anunciar sua saída do governo, deve ser postergada indefinidamente, e a situação do partido continuará a mesma: no governo, mas com uma ala oposicionista de faz-de-conta, esperando oportunidade para dar o bote. "Não podemos realizar essa convenção, que vai expor as divergências do partido e prejudicar a governabilidade em um momento importante para o país, quando a economia mostra que está no caminho certo", afirma o ministro peemedebista Eunício Oliveira, das Comunicações. Com o apoio do PMDB, a Câmara aprovou o polêmico projeto criando foro especial para investigações que envolvam o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e também ex-presidentes do banco. O governo só não conseguiu acordo com o PPS, a legenda que abriga ex-comunistas. Mas, numa maré de boas notícias produzidas pelo capital, que diferença isso faz?

 
 
 
 
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