Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Conjuntura
A volta dos empregos

Economia em expansão gera 800 000
novas ocupações, cria oportunidades
para profissionais qualificados e começa
a reverter uma fase de estagnação do
mercado de trabalho que durou
quase uma década


Chrystiane Silva

 
Marcello Fontes

FILIPE AUGUSTO BOECHAT COUTINHO
Analista de negócios
Em junho, Filipe, de 25 anos, conseguiu o primeiro emprego na produtora paulista de aço Cosipa. Sua formação foi determinante para lhe garantir a vaga. Ele estudou administração de empresas na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Hoje coordena os pedidos de placas de aço laminado feitos por clientes americanos



NESTA REPORTAGEM
Gráfico: A volta dos empregos

EXCLUSIVO ON-LINE
Notícias diárias sobre economia

NESTA EDIÇÃO
O campo em 2005
A economia comanda a política

Políticas públicas equivocadas e o processo necessário de modernização da indústria produziram um triste cenário no mercado de trabalho brasileiro desde o início dos anos 90. Segundo pesquisa mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 2,2 milhões de pessoas procurando emprego nas seis maiores regiões metropolitanas do Brasil. Outro dado do próprio instituto, medido em todo o país no ano passado, revela que há 8,5 milhões de sem-trabalho. Os trabalhadores que conseguiram segurar-se em suas vagas sofreram uma redução da renda, que vem descendo ladeira abaixo desde 1997. No ano passado, retrocedeu aos níveis de 1993. A má notícia é que esse retrato desolador ainda vai estar por aí durante um bom tempo, até que um processo generalizado e sólido de recuperação da economia brasileira consiga revertê-lo. A boa notícia é que esse processo já começou, e de forma surpreendentemente vigorosa.

De outubro de 2003 a outubro deste ano, o número de contratações formais e informais superou em 800 000 o de demissões nas seis principais regiões metropolitanas do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre). Esse número equivale à população de uma capital como Maceió. Até o fim do ano, a taxa de ocupação continuará a subir, já que a tendência para novembro e dezembro é sempre de aumento das contratações por causa do Natal. A elevação do índice de emprego está sendo puxada por um crescimento econômico que deve fechar 2004 em cerca de 5%, o melhor desempenho dos últimos dez anos. Essa previsão foi reforçada na semana passada pelo anúncio de que o PIB deu um salto de 6,1% no terceiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Esses resultados merecem escapar de uma análise meramente estatística porque estão recheados de boas novidades com repercussão positiva imediata na vida prática dos brasileiros.

 
Paulo Vitale

SELMA DE FRANÇA SANTOS
Engenheira
Depois de concluir o mestrado em engenharia aeronáutica promovido pelo ITA em parceria com a Embraer, Selma, uma baiana de 26 anos, foi contratada em janeiro pela fabricante brasileira de aviões

IVAN MAGNANI FOCH JUNIOR
Engenheiro
Ivan integra desde julho a equipe que desenvolve projetos para a Embraer. Ele cursou engenharia elétrica na Escola Politécnica da USP e fez mestrado no curso de engenharia aeronáutica da Embraer e do ITA

A principal delas é que a economia está crescendo de forma robusta ao mesmo tempo que o governo mantém o gasto público sob controle, algo considerado impossível pelos críticos dos rigores fiscal e monetário. Não fica apenas nisso. A arrancada de 2004 se materializou a despeito de o Brasil ainda figurar nos primeiros lugares do ranking dos países com as maiores taxas de juro real do mundo. Para os economistas, os números sobre o crescimento da economia, a redução da dívida e o aumento das exportações são por si sós motivo de júbilo. Para o cidadão comum, é diferente. Qualquer jargão econômico acompanhado de números dourados torna-se inócuo se a situação não melhorar na vida real. E melhorar, nesse sentido, tem três significados. É o desempregado conseguir trabalho, o empregado ter mais oportunidades e as empresas se sentirem incentivadas e seguras para contratar. Todo o resto é conversa – uma conversa relevante, mas restrita a especialistas, empresários e membros do governo.

Pela última medição do IBGE, a taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas chegou a 10,5% em outubro. Foi uma das menores registradas desde o começo da série histórica em 2002, mas ainda assim alta para um país com os desafios sociais do Brasil. A tendência, no entanto, é de queda. "O desemprego pode fechar o ano em apenas um dígito", diz o ex-ministro do Trabalho Edward Amadeo. É uma ótima notícia para quem ainda está sem trabalho e para os que pretendem mudar de emprego. Por uma razão estrutural que se tornou a tônica da economia globalizada, as empresas estão muito mais seletivas do que no passado. Ou seja, mais do que em qualquer outro período histórico as vagas serão preenchidas por candidatos muito qualificados – em muitos casos por pretendentes com qualificações muito acima das que suas funções vão exigir. É a vida. Quem fez um MBA – o famoso master in business administration, um curso de pós-graduação puxadíssimo que pode custar, no Brasil, cerca de 12.000 dólares por ano – e acha que tem uma vaga garantida como gerente pode estar redondamente equivocado. Esse diploma deixou de ser raridade e virou um pré-requisito na maior parte das companhias líderes em seus segmentos. O mesmo vale para cursos de especialização. Nas empresas que exportam, o inglês fluente não é mais um diferencial, mas uma exigência.

Em qualquer lugar do mundo, as profissões se adaptam ao estágio em que a economia como um todo se encontra. No Brasil, um dos casos mais ilustrativos é o da engenharia. Nos anos 70, estava entre os cursos mais valorizados pelo mercado de trabalho porque estradas, prédios e usinas hidrelétricas surgiam da noite para o dia. Nos anos 80, contaminados pela crise da dívida externa, os engenheiros foram buscar oportunidades no mercado financeiro e onde mais houvesse uma vaga. Hoje a profissão voltou a estar entre as mais requisitadas. VEJA ouviu seis das dez maiores empresas de colocação de trabalhadores do Brasil. De acordo com elas, sete das doze profissões mais procuradas no momento são da área da engenharia (confira o quadro).

 
Marco Pinto
ANA CAROLINA FARIAS MENDES
Assistente comercial
Ana Carolina foi contratada em junho para coordenar o transporte para o exterior da empresa Cenibra, com sede em Minas Gerais. A administradora de empresas, de 23 anos, morou nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde fez um curso de inglês para negócios. Ela fala alemão e quer fazer pós-graduação em logística no próximo ano

A atual retomada do mercado de trabalho tem outras peculiaridades. Uma das mais relevantes é o renascimento do emprego na indústria. Nas seis principais regiões metropolitanas, o comércio continua sendo o maior empregador, com 19% do total, mas o setor que mais criou vagas desde outubro do ano passado foi o industrial. No total, foram 214.000 novos postos. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) confirmam essa tendência de alta. O ritmo do aumento das vagas de setembro de 2003 a setembro deste ano foi de 5,9%, o maior desde que começou a medição, há treze anos. Com a abertura às importações no começo da década de 90, o setor entrou num processo brutal de reestruturação. A necessidade de competir trouxe a atualização tecnológica e níveis de produtividade até então desconhecidos em muitos ramos. O preço, porém, foi pago com a queda do nível de emprego. É isso o que começa a mudar com força.

A fase atual da retomada econômica é puxada principalmente pela recuperação do mercado interno, especialmente do consumo das famílias. Empregos estão sendo gerados em indústrias de alimentação, empresas de call center, bancos e grandes lojas de móveis. No entanto, a conquista de mercados no exterior continua sendo parte essencial da explicação dessa virada. Produtivos, vários ramos do setor industrial perderam o medo da competição internacional. Hoje, de cada 10 reais produzidos pela indústria, 3 são exportados. De janeiro a outubro deste ano, a Scania vendeu 73% de sua produção de caminhões ao mercado internacional. Na Coteminas, a gigante brasileira do setor têxtil, as exportações respondem por 40% do faturamento. Na Aracruz, que exporta celulose, o porcentual é de 98%. Essa transformação tem reflexos imediatos no mercado de trabalho. Empregos em empresas com presença no exterior estão entre os mais atraentes porque remuneram melhor.

 
Massao Goto Filho
JEFFERSON BATISTA DA SILVA
Operador de call center
Em abril, Jefferson, de 20 anos, conseguiu uma vaga na TeleTech, de São Paulo. Seu exemplo evidencia que o nível de exigência do mercado aumentou. Para ser contratado, Jefferson teve de comprovar conhecimento de computadores. Sua função é orientar consumidores de uma fabricante de impressoras

VEJA ouviu trinta das 48 maiores companhias exportadoras brasileiras para descobrir o perfil do novo profissional que ajuda a alavancar as vendas externas (veja quadro). Juntas, as trinta empresas exportaram 34 bilhões de dólares de janeiro a outubro, o equivalente a 36% de todas as vendas do Brasil no período. Empregam 330.000 pessoas, quase a população de Florianópolis, e, em 2003, faturaram 71 bilhões de dólares, o equivalente ao PIB da Nova Zelândia. São responsáveis por 10% dos empregados da indústria e 4% dos trabalhadores com carteira assinada. De acordo com essas gigantes, boa formação acadêmica já não é suficiente para garantir uma colocação profissional na área de comércio exterior e nos outros departamentos que se envolvem com a exportação (jurídico, de logística, finanças, planejamento e estoques).

Metade das empresas exige que os funcionários também falem espanhol fluentemente. Em tempos de globalização, profissionais que já moraram fora do país, conhecem outras culturas e sabem lidar com situações adversas levam vantagem em casos de empate. Pode parecer bobagem, mas não é. Chegar a um país desconhecido, com clima diferente, sem conhecer outras pessoas e ter de resolver pequenos problemas como alugar um apartamento é uma experiência levada em conta nos processos de seleção. "Se um profissional se saiu bem nessas situações, é provável que tenha desenvoltura para influenciar na decisão de compra", diz Flávio Kosminsky, sócio da Korn/Ferry, uma das maiores empresas de recolocação profissional do país.

 

• O PIB cresceu 6,1% no terceiro trimestre, o maior aumento desde 1996

• O risco Brasil chegou a 402 pontos na semana passada, o menor nível dos últimos sete anos

• O emprego na indústria aumentou 5,9% de setembro de 2003 a setembro de 2004, a maior evolução em treze nos

• As exportações vão fechar o ano em 95 bilhões de dólares, recorde histórico

Fontes: IBGE, CNI e Funcex

 

 
 
 
 
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