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Conjuntura A
volta dos empregos Economia
em expansão gera 800 000 novas
ocupações, cria oportunidades para profissionais qualificados
e começa a reverter uma fase de estagnação do mercado
de trabalho que durou quase uma década  Chrystiane
Silva
Marcello
Fontes
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FILIPE AUGUSTO BOECHAT COUTINHO Analista
de negócios Em junho,
Filipe, de 25 anos, conseguiu o primeiro emprego na produtora paulista de aço
Cosipa. Sua formação foi determinante para lhe garantir a vaga.
Ele estudou administração de empresas na Universidade de Pittsburgh,
nos Estados Unidos. Hoje coordena os pedidos de placas de aço laminado
feitos por clientes americanos |
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Políticas
públicas equivocadas e o processo necessário de modernização
da indústria produziram um triste cenário no mercado de trabalho
brasileiro desde o início dos anos 90. Segundo pesquisa mensal do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 2,2 milhões
de pessoas procurando emprego nas seis maiores regiões metropolitanas do
Brasil. Outro dado do próprio instituto, medido em todo o país no
ano passado, revela que há 8,5 milhões de sem-trabalho. Os trabalhadores
que conseguiram segurar-se em suas vagas sofreram uma redução da
renda, que vem descendo ladeira abaixo desde 1997. No ano passado, retrocedeu
aos níveis de 1993. A má notícia é que esse retrato
desolador ainda vai estar por aí durante um bom tempo, até que um
processo generalizado e sólido de recuperação da economia
brasileira consiga revertê-lo. A boa notícia é que esse processo
já começou, e de forma surpreendentemente vigorosa.
De outubro de 2003
a outubro deste ano, o número de contratações formais e informais
superou em 800 000 o de demissões nas seis principais regiões metropolitanas
do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Recife
e Porto Alegre). Esse número equivale à população
de uma capital como Maceió. Até o fim do ano, a taxa de ocupação
continuará a subir, já que a tendência para novembro e dezembro
é sempre de aumento das contratações por causa do Natal.
A elevação do índice de emprego está sendo puxada
por um crescimento econômico que deve fechar 2004 em cerca de 5%, o melhor
desempenho dos últimos dez anos. Essa previsão foi reforçada
na semana passada pelo anúncio de que o PIB deu um salto de 6,1% no terceiro
trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Esses
resultados merecem escapar de uma análise meramente estatística
porque estão recheados de boas novidades com repercussão positiva
imediata na vida prática dos brasileiros.
Paulo
Vitale
 | SELMA
DE FRANÇA SANTOS Engenheira
Depois de concluir o mestrado em engenharia aeronáutica
promovido pelo ITA em parceria com a Embraer, Selma, uma baiana de 26 anos, foi
contratada em janeiro pela fabricante brasileira de aviões
IVAN MAGNANI FOCH JUNIOR Engenheiro Ivan
integra desde julho a equipe que desenvolve projetos para a Embraer. Ele cursou
engenharia elétrica na Escola Politécnica da USP e fez mestrado
no curso de engenharia aeronáutica da Embraer e do ITA |
| A
principal delas é que a economia está crescendo de forma robusta
ao mesmo tempo que o governo mantém o gasto público sob controle,
algo considerado impossível pelos críticos dos rigores fiscal e
monetário. Não fica apenas nisso. A arrancada de 2004 se materializou
a despeito de o Brasil ainda figurar nos primeiros lugares do ranking dos países
com as maiores taxas de juro real do mundo. Para os economistas, os números
sobre o crescimento da economia, a redução da dívida e o
aumento das exportações são por si sós motivo de júbilo.
Para o cidadão comum, é diferente. Qualquer jargão econômico
acompanhado de números dourados torna-se inócuo se a situação
não melhorar na vida real. E melhorar, nesse sentido, tem três significados.
É o desempregado conseguir trabalho, o empregado ter mais oportunidades
e as empresas se sentirem incentivadas e seguras para contratar. Todo o resto
é conversa uma conversa relevante, mas restrita a especialistas,
empresários e membros do governo.
Pela última medição do IBGE, a taxa de desemprego nas seis
principais regiões metropolitanas chegou a 10,5% em outubro. Foi uma das
menores registradas desde o começo da série histórica em
2002, mas ainda assim alta para um país com os desafios sociais do Brasil.
A tendência, no entanto, é de queda. "O desemprego pode fechar o
ano em apenas um dígito", diz o ex-ministro do Trabalho Edward Amadeo.
É uma ótima notícia para quem ainda está sem trabalho
e para os que pretendem mudar de emprego. Por uma razão estrutural que
se tornou a tônica da economia globalizada, as empresas estão muito
mais seletivas do que no passado. Ou seja, mais do que em qualquer outro período
histórico as vagas serão preenchidas por candidatos muito qualificados
em muitos casos por pretendentes com qualificações muito
acima das que suas funções vão exigir. É a vida. Quem
fez um MBA o famoso master in business administration, um curso de pós-graduação
puxadíssimo que pode custar, no Brasil, cerca de 12.000 dólares
por ano e acha que tem uma vaga garantida como gerente pode estar redondamente
equivocado. Esse diploma deixou de ser raridade e virou um pré-requisito
na maior parte das companhias líderes em seus segmentos. O mesmo vale para
cursos de especialização. Nas empresas que exportam, o inglês
fluente não é mais um diferencial, mas uma exigência.
Em qualquer
lugar do mundo, as profissões se adaptam ao estágio
em que a economia como um todo se encontra. No Brasil, um dos casos
mais ilustrativos é o da engenharia. Nos anos 70, estava
entre os cursos mais valorizados pelo mercado de trabalho porque
estradas, prédios e usinas hidrelétricas surgiam da
noite para o dia. Nos anos 80, contaminados pela crise da dívida
externa, os engenheiros foram buscar oportunidades no mercado financeiro
e onde mais houvesse uma vaga. Hoje a profissão voltou a
estar entre as mais requisitadas. VEJA ouviu seis das dez maiores
empresas de colocação de trabalhadores do Brasil.
De acordo com elas, sete das doze profissões mais procuradas
no momento são da área da engenharia (confira
o quadro).
Marco
Pinto
 | ANA
CAROLINA FARIAS MENDES Assistente comercial Ana
Carolina foi contratada em junho para coordenar o transporte para o exterior da
empresa Cenibra, com sede em Minas Gerais. A administradora de empresas, de 23
anos, morou nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde fez um curso de inglês
para negócios. Ela fala alemão e quer fazer pós-graduação
em logística no próximo ano |
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A atual retomada
do mercado de trabalho tem outras peculiaridades. Uma das mais relevantes é
o renascimento do emprego na indústria. Nas seis principais regiões
metropolitanas, o comércio continua sendo o maior empregador, com 19% do
total, mas o setor que mais criou vagas desde outubro do ano passado foi o industrial.
No total, foram 214.000 novos postos. Dados da Confederação Nacional
da Indústria (CNI) confirmam essa tendência de alta. O ritmo do aumento
das vagas de setembro de 2003 a setembro deste ano foi de 5,9%, o maior desde
que começou a medição, há treze anos. Com a abertura
às importações no começo da década de 90, o
setor entrou num processo brutal de reestruturação. A necessidade
de competir trouxe a atualização tecnológica e níveis
de produtividade até então desconhecidos em muitos ramos. O preço,
porém, foi pago com a queda do nível de emprego. É isso o
que começa a mudar com força.
A fase atual da retomada econômica é puxada principalmente pela recuperação
do mercado interno, especialmente do consumo das famílias. Empregos estão
sendo gerados em indústrias de alimentação, empresas de call
center, bancos e grandes lojas de móveis. No entanto, a conquista de mercados
no exterior continua sendo parte essencial da explicação dessa virada.
Produtivos, vários ramos do setor industrial perderam o medo da competição
internacional. Hoje, de cada 10 reais produzidos pela indústria, 3 são
exportados. De janeiro a outubro deste ano, a Scania vendeu 73% de sua produção
de caminhões ao mercado internacional. Na Coteminas, a gigante brasileira
do setor têxtil, as exportações respondem por 40% do faturamento.
Na Aracruz, que exporta celulose, o porcentual é de 98%. Essa transformação
tem reflexos imediatos no mercado de trabalho. Empregos em empresas com presença
no exterior estão entre os mais atraentes porque remuneram melhor.
Massao
Goto Filho
 | JEFFERSON
BATISTA DA SILVA Operador de call center Em
abril, Jefferson, de 20 anos, conseguiu uma vaga na TeleTech, de São Paulo.
Seu exemplo evidencia que o nível de exigência do mercado aumentou.
Para ser contratado, Jefferson teve de comprovar conhecimento de computadores.
Sua função é orientar consumidores de uma fabricante de impressoras
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VEJA ouviu
trinta das 48 maiores companhias exportadoras brasileiras para descobrir
o perfil do novo profissional que ajuda a alavancar as vendas externas
(veja quadro).
Juntas, as trinta empresas exportaram 34 bilhões de dólares
de janeiro a outubro, o equivalente a 36% de todas as vendas do
Brasil no período. Empregam 330.000 pessoas, quase a população
de Florianópolis, e, em 2003, faturaram 71 bilhões
de dólares, o equivalente ao PIB da Nova Zelândia.
São responsáveis por 10% dos empregados da indústria
e 4% dos trabalhadores com carteira assinada. De acordo com essas
gigantes, boa formação acadêmica já não
é suficiente para garantir uma colocação profissional
na área de comércio exterior e nos outros departamentos
que se envolvem com a exportação (jurídico,
de logística, finanças, planejamento e estoques).
Metade das empresas exige que os funcionários também falem espanhol
fluentemente. Em tempos de globalização, profissionais que já
moraram fora do país, conhecem outras culturas e sabem lidar com situações
adversas levam vantagem em casos de empate. Pode parecer bobagem, mas não
é. Chegar a um país desconhecido, com clima diferente, sem conhecer
outras pessoas e ter de resolver pequenos problemas como alugar um apartamento
é uma experiência levada em conta nos processos de seleção.
"Se um profissional se saiu bem nessas situações, é provável
que tenha desenvoltura para influenciar na decisão de compra", diz Flávio
Kosminsky, sócio da Korn/Ferry, uma das maiores empresas de recolocação
profissional do país.
• O PIB cresceu
6,1% no terceiro trimestre, o maior aumento desde 1996
• O risco Brasil chegou a 402 pontos na semana passada, o menor nível dos
últimos sete anos
• O emprego na indústria aumentou 5,9% de setembro de 2003 a setembro de
2004, a maior evolução em treze nos
• As exportações vão fechar o ano em 95 bilhões de
dólares, recorde histórico Fontes:
IBGE, CNI e Funcex | | 
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