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Entrevista: Ferran Adrià
Cozinha do espetáculo
O celebrado cozinheiro espanhol conta
que virou grife para poder, seis meses
por ano, fazer o que gosta: criar delícias
inimagináveis

Juliana Vale
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Francesc Guillamet/divulgação

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"Não
queremos que o Bulli seja rentável. Lá não
gosto de pensar no que vou ganhar, e sim em como vou cozinhar"
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Considerado um dos melhores cozinheiros do
planeta, se não o melhor, o espanhol Ferran Adrià,
42 anos, criador de deliciosas esquisitices como gelatina quente,
espuma de caviar e churros de gema de ovo, vai logo avisando: suas
receitas não são para ser "entendidas", mas sim usufruídas
puramente pelos sentidos. No seu restaurante El Bulli, portador
de rarefeitas três estrelas no Guia Michelin e situado
numa estradinha de montanha perto de lugar nenhum (na costa da Catalunha,
a três horas de Barcelona), a cozinha abre de abril a setembro,
apenas para o jantar, com cardápio fixo, porções
minúsculas e preços astronômicos. Mesmo assim,
a reserva tem de ser feita com um ano de antecedência. Não
é um absurdo? Ele mesmo reconhece que não esperaria
tanto tempo, mas diz que comer bem, hoje em dia, virou um hobby
daí a justificativa não só para as filas,
como para os preços. Simpático e simples, casado há
três anos com Isabel Pérez, torcedor fanático
do Barcelona, mergulhado atualmente na pesquisa de sabores para
a temporada 2005 do El Bulli, Adrià falou a VEJA sentado
no chão de sua oficina-laboratório em Barcelona.
Veja A culinária espanhola
vem se destacando e, para alguns, já é a melhor do
mundo. O senhor também acha isso?
Adrià Nossa culinária não
é a melhor do mundo porque, para avaliar isso, teríamos
de considerar os restaurantes de comida tradicional, e aí
perdemos pontos. O que a Espanha tem hoje é a melhor culinária
de vanguarda em certo sentido, uma evolução
da nouvelle cuisine francesa. Fazemos culinária criativa,
provamos coisas novas. Mas é coincidência que tudo
isso esteja acontecendo aqui na Espanha. Dentro de dez anos, os
cozinheiros vanguardistas podem estar em qualquer outro lugar. A
gastronomia é como a pintura, com movimentos artísticos
em diferentes berços: Itália, França, Espanha.
A vanguarda não pertence a um só país.
Veja Nesta geração
de chefs vanguardistas, seu nome é o mais conhecido, talvez
até venerado. Há inclusive quem acredite que o senhor
é a melhor coisa que aconteceu na gastronomia desde a invenção
do pão. Está de acordo?
Adrià Não, eu só tenho a sorte
de poder fazer o que gosto. Parece fácil, mas pouca gente
trabalha com o que gosta. Utilizo o interesse da mídia no
meu trabalho para tentar desmistificar a alta cozinha e aproximá-la
das pessoas comuns. Por isso tanta gente me conhece.
Veja Como o senhor acha tempo
para pesquisar, provar e apresentar sessenta novos "conceitos" culinários
a cada temporada? Na época em que o El Bulli fecha, de outubro
a março?
Adrià Na verdade, o processo criativo dura
o ano todo. Mas tentamos separar criatividade de produção.
Por isso, criamos a oficina, em 1997, e passamos a abrir o Bulli
só à noite a partir de 2002. Era complicado criar
e produzir ao mesmo tempo. Agora, sim, podemos pesquisar e experimentar
com mais liberdade durante o inverno, aqui na oficina, e apresentar
as receitas no verão, no restaurante. Mas sempre sobra alguma
coisa para completar, sempre há idéias de última
hora. É como se fizéssemos o chassi do prato aqui
e lá acabássemos o carro.
Veja Quem trabalha com o
senhor nesse processo?
Adrià Em pesquisa e criação,
sempre fomos três: eu, meu irmão Albert e Oriol (Castro,
cozinheiro catalão que trabalha com Adrià desde 1996).
A partir de janeiro, seremos mais: seis ou sete pessoas, incluindo
um cozinheiro encarregado basicamente de encontrar produtos novos,
como as frutas da Amazônia, que aqui ninguém conhece.
Além disso, tem o departamento científico, que faz
uma culinária de pesquisa e me ajuda a compreender as coisas
para, depois, encontrar uma maneira de transformá-las e assim
avançar com a gastronomia. Temos ainda um desenhista industrial,
que inventa a louça e o que for necessário para provar
esta nova maneira de comer que propomos.
Veja Quem é a primeira
pessoa a provar um prato novo?
Adrià Nós três. E, sendo três,
é muito difícil errar.
Veja Algum prato já
foi reprovado pelos clientes e tirado do cardápio?
Adrià Isso nunca aconteceu porque sempre
tem alguém que gosta do prato. Existem, isso sim, pratos
polêmicos, com produtos polêmicos como a orelha
de coelho, que metade acha genial e metade nem prova. Nesse caso,
é antes de tudo uma questão cultural. Muita gente
jamais comeria tarântula, mas saboreia com prazer um caranguejo,
que é primo dos aracnídeos. Sempre é mais fácil
agradar a gente jovem e a gente que viaja, porque estão mais
abertos às novidades.
Veja Entre suas criações,
qual o senhor considera a mais engenhosa?
Adrià Só o tempo vai dizer. Tudo ainda
é muito novo. São mais de 1 100 receitas... Bom, se
tivesse de escolher uma criação importante, citaria
as espumas de sifão. Por quê? Porque há milhares
de pessoas fazendo espumas, agora. Mas com certeza minha criação
mais revolucionária foi a gelatina quente. Até 1998,
gelatinas só eram frias.
Veja Dá para explicar
exatamente o que é a tão citada "desconstrução"
da comida?
Adrià A desconstrução é
um dos estilos de culinária que oferecemos no Bulli, e nem
tem sido muito usada nos últimos dois anos. Ela se transformou
num ícone que todo mundo menciona, mas 99,9% não sabem
do que estão falando. É um movimento da vanguarda:
pegar um prato qualquer feijoada, por exemplo e mudar
sua apresentação. Visualmente, fica irreconhecível,
mas quando começa a comer a pessoa vai se dando conta: "Uau!
Tem gosto de feijoada!". É divertido trabalhar com a memória,
mudar a forma de sabores que estão arquivados.
Veja O senhor conhece a culinária
brasileira?
Adrià Sinceramente, nas duas vezes em
que fui ao Brasil estava de férias (uma foi no Carnaval do
Rio de Janeiro), com a cabeça em outras coisas. Comi muito
bem em rodízios, mas não conheço mais que dois
ou três pratos da culinária tradicional. É uma
das coisas que ainda quero fazer: conhecer o Brasil de maneira profissional.
Acho que no futuro vai ser um dos países a levar em consideração
na área da gastronomia. Não estou dizendo isso para
agradar. Já manifestei essa opinião em diversas entrevistas
anteriores. O Brasil tem jovens chefs fantásticos e os brasileiros
têm grande sensibilidade na hora de comer. Dos dez melhores
gourmets do mundo, eu diria que três são brasileiros.
Veja Quem?
Adrià Não vou dar nomes para não
criar polêmica. Mas admiro muito a criatividade, a forma de
pensar dos brasileiros: seja feliz sem complicar a vida dos outros.
Aliás, acho que Brasil, Peru e China são os três
países que mais vêm ganhando espaço na gastronomia
mundial. São sensibilidade pura.
Veja O senhor certa vez declarou
que só 4 de cada 10 euros que ganha vêm da cozinha.
Quais são suas outras fontes de renda?
Adrià Eu falava dos patrocínios. Faço
negócio com o nome Ferran Adrià e assim compro minha
liberdade. Em três anos, pretendo parar, e aí só
farei publicidade com fins beneficentes.
Veja Um restaurante como
o El Bulli não é altamente rentável?
Adrià Nós não queremos que seja
rentável. No Bulli, não gosto de pensar no que vou
ganhar, e sim em como vou cozinhar. Todo mundo me pergunta: por
que não aumenta o preço, se há um milhão
de pedidos de reserva e 8.000 lugares
disponíveis por ano? Mas eu não quero trabalhar no
Bulli pelo dinheiro.
Veja Um milhão de
pedidos de reserva? É só maneira de dizer?
Adrià A cifra exata não sei, mas para
a temporada de 2005 já estamos completos e há quem
tenha esperado quatro anos por isso. É tanta procura que
meus pais não vão ao Bulli há três anos
e minha mulher só foi uma vez. As pessoas entram na fila,
esperam. Não me pergunte por quê. Eu mesmo não
entendo. Não gosto de fazer reserva em restaurante, de organizar
a vida com muita antecedência. Se tivesse de esperar tanto
por uma mesa, desistiria.
Veja Com que freqüência
é recomendável comer uma culinária vanguardista,
como a sua?
Adrià Diria que se deve experimentá-la
umas oito ou dez vezes por ano, como o teatro. Não é
porque você é amante da boa gastronomia que deve ir
diariamente a um bom restaurante. Além de comer, tem também
o prazer de se preparar, escolher aonde vai, desfrutar o momento...
Veja Mas o senhor acha que
todo mundo que vai ao seu restaurante entende, de fato, o que o
senhor está fazendo?
Adrià Não há que entender. Ou
você gosta ou não gosta. Quando alguém diz que
não entende, eu respondo: você não gosta. Tudo
bem.
Veja Mas muitas pessoas devem
arregalar os olhos diante das coisas estranhas que o senhor coloca
no prato delas.
Adrià O público do Bulli vai ao
restaurante como quem vai a um show. E, de certa forma, sabe o que
o aguarda. Quem vai assistir aos Rolling Stones não espera
ouvir música clássica. Nossa mágica está
precisamente no fato de que as pessoas não vão ao
Bulli só para comer. Vão para ter uma experiência.
E ninguém sabe o que acontecerá quando reabrirmos
em abril. Nem eu. Estamos inventando agora.
Veja O senhor concorda com
a afirmação de que as pessoas são o que comem?
Adrià Em parte. Conheço muita gente
que sabe comer, mas que é muito estúpida. E há
também o inverso: alguém que não está
acostumado a comer bem, como um agricultor do interior do Brasil,
e é capaz de apreciar uma receita da alta cozinha.
Veja E o senhor? Descansa
da alta gastronomia de vez em quando? Aprecia os pratos simples?
Adrià Em casa, costumo comer ovo frito,
alcachofras fervidas, peixe grelhado, uma culinária saudável
e rápida. Chego às 20h30 e às 21h quero jantar,
como qualquer um que volta do trabalho cansado e com fome. Em casa,
como comida caseira mesmo.
Veja O senhor não
acha que a importância dada à comida hoje em dia é
exagerada? Que pagar 100, 200 dólares por uma refeição
é um absurdo?
Adrià É uma questão de estabelecer
prioridades na vida. Há quem pague isso por comida, por um
relógio, para ver um jogo de futebol. Comer se tornou um
passatempo lúdico. Pouco a pouco, a comida foi se transformando
em um hobby. Tem gente que gosta de compras; tem os que gostam de
comer fora.
Veja Os aprendizes de cozinheiro
devem fazer fila para estagiar com o senhor. Como é a seleção?
Que características apontam, desde logo, um bom cozinheiro?
Adrià A questão dos candidatos a estágio
no Bulli é mesmo uma loucura, mas sobre o processo de seleção
minha posição é igual à dos pedidos
de reserva: não quero saber de nada. Já para saber
se um principiante será bom cozinheiro, tenho de vê-lo
trabalhando. É, antes de tudo, uma questão de feeling.
Veja Como o senhor começou?
Houve um momento decisivo, um clique?
Adrià Não houve clique, e sim uma série
de conseqüências. Virei cozinheiro porque queria passar
férias em Ibiza. Continuei porque lá era uma festa.
Fui para o Bulli porque tinha um conhecido que me recomendou. Me
promoveram a chefe de cozinha porque o anterior foi embora. Juli
(Soler, seu sócio atual) e eu compramos o Bulli porque
Marquetta (Schilling, a ex-proprietária) não
tinha filhos para herdar o negócio. Não tive nenhuma
cultura gastronômica especial na infância.
Veja Quem cozinha na sua
casa?
Adrià Eu, porque minha mulher prefere assim.
É que cozinho mais rápido e, se sai algo errado, eu
mesmo me dou uma bronca.
Veja E acontece de sair algo
errado?
Adrià Ih, muitas vezes... Cozinhar em casa
não tem nada a ver com cozinhar no Bulli, onde tenho quarenta
cozinheiros e um material diferente, muito profissional.
Veja Entre os chefs que se
destacam na alta gastronomia, quais o senhor admira?
Adrià Essa é a pergunta a que não
se deve responder jamais. Mas vou lhe dar alguns nomes. Admiro muito
os criadores da nouvelle cuisine, nos anos 70: Michel Guérard,
Paul Bocuse, Pierre Troisgros.
Veja Por fim, uma questão,
digamos, de ética gastronômica: existe justificativa
para alimentar patos e gansos à força, só para
produzir foie gras?
Adrià Não há... Não há...
Para que disfarçar? Não há.
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