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Em
foco: Gustav Franco
Por que os juros
são altos
"Existem muitas reflexões sobre
as razões
dos juros altos no Brasil, desde a vilania sistemática
de todos os dirigentes
do Banco Central até teorias
sobre o risco de fazer negócios financeiros no Brasil"
Num interessante seminário recente sobre
o futuro do sistema financeiro, a maior parte do tempo foi dedicada
às conseqüências de um fenômeno crucial
para que se entenda por que os juros são tão altos
no Brasil, mas que, a despeito disso, nem sequer tem tradução
para o português. Nem mesmo para o dialeto economês.
É claro que isso não é
acidental. Como na "novilíngua" do romance de George Orwell
(1984), o idioma pode ignorar determinado fenômeno econômico
considerado irrelevante, deslocado, heresia, ou uma dessas esquisitices
de livro-texto americano que não existem no país da
jabuticaba.
A expressão crowding out descreve
o efeito que o déficit público tem sobre a taxa de
juros e sobre os investimentos das empresas. Crowd quer dizer
multidão e também aperto, e um lugar está crowded
quando muito cheio de gente (aqui, já entramos no idioma
dos surfistas). Se alguém é crowded out quer
dizer que foi expulso ou deslocado para fora de um lugar porque
ele ficou muito cheio.
Pois bem, quando aumentam os gastos do governo,
e o Banco Central se recusa a fabricar papel pintado para pagar
a conta, o Tesouro precisa se endividar. Ao fazê-lo, vai provocar
um aumento nas taxas de juros, pois o Tesouro precisa oferecer mais
taxa para captar dinheiro adicional. E, dessa forma, o juro maior
"ocupa" uma parcela maior da poupança financeira disponível
e "expulsa" ou faz diminuir o desejo das empresas de fazer investimentos.
Trata-se aqui, portanto, de o investimento
privado ser "deslocado" para fora do cenário econômico
em contrapartida ao crescimento do tamanho do governo, ou mais precisamente
da despesa pública não financiada por impostos.
O leitor há de concordar que o "tamanho
do governo" nunca foi propriamente um problema no Brasil, senão
em anos recentes, quando deixamos de ser o país da inflação
e passamos, sintomaticamente, ao status de campeão mundial
de taxas de juros. No tempo da inflação, não
havia muita atenção sobre as taxas de juros, pois
a indexação era muito mais importante. E desde que
a inflação foi embora, de 1994 para cá, foi
ficando cada vez mais claro que tínhamos limites muito severos
para a redução das taxas de juros, limites estes que
as pessoas parecem não compreender muito bem.
Nos primeiros anos depois da estabilização
firmou-se a crença equivocada de que os juros eram altos
para sustentar a política de "âncora cambial". Pois
bem, a "âncora cambial" acabou em janeiro de 1999, o câmbio
flutua como uma pluma bêbada, o governo é do PT e continuamos
campeões mundiais de juros cinco anos depois.
Existem muitas reflexões sobre as razões
dos juros altos no Brasil, desde a vilania sistemática de
todos os dirigentes do Banco Central, passando por conspirações
de toda ordem, e chegando a teorias muito sofisticadas e interessantes
sobre o risco de fazer negócios financeiros no Brasil.
A explicação mais simples, todavia,
aquela de livro-texto, enfatizando o rombo nas contas públicas
e o gigantismo do governo, estranhamente não tem sido muito
lembrada. Pode ser o hábito nacionalista, e pré-globalização,
de avacalhar os livros-textos americanos, que seriam feitos para
um mundo diferente do nosso. Imaginem um mundo onde as pessoas se
revoltam contra impostos elevados e entendem que o governo deve
ser sempre secundário à iniciativa privada, nada poderia
ser mais diferente do Brasil, onde o Estado é a mola mestra
do desenvolvimento e todos pagam impostos felizes da vida, não
é mesmo?
O fato é que o Brasil reúne
todos os sintomas do fenômeno acima descrito: a carga tributária
é imensa, os gastos do governo também, assim como
a dívida pública e os juros. A recomendação
de qualquer livro-texto seria simples: reduzir despesa pública,
o que faz cair os juros, e, reduzindo muito a despesa, dá
para reduzir também os impostos.
Em termos práticos, isso significa
aumentar o superávit primário, e o governo está
fazendo o contrário disso ao elevar gastos que não
vai contabilizar para fins de apuração do superávit
primário. A quem eles pensam que estão enganando?
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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