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Carta
ao leitor Laboratório
do caos Claudio
Pedrosa
 | | Petry
e Vitale: capacete de aço e coletes à prova de bala |
Se a União Soviética foi o laboratório
em que se provou empiricamente a ruína do centralismo econômico combinado
com a supressão das liberdades, o pequeno Haiti é a prova em decomposição
da impossibilidade de construir uma nação na ausência de instituições.
Esse é o grande fracasso do país mais pobre do hemisfério
ocidental, onde 1.200 militares brasileiros, sob a
bandeira azul das Nações Unidas, lutam para evitar a eclosão
de uma guerra civil. Independente da França desde 1804, o Haiti falhou
em construir um futuro melhor do que seu passado colonial. Os haitianos tentaram
no decorrer de sua história se organizar em torno de clãs, de religiões
anímicas, do nacionalismo exacerbado e do ódio ao colonizador. Tudo
em vão. Em cinco momentos diferentes, VEJA
mandou repórteres ao Haiti. A primeira incursão ocorreu em 1971,
quando o então correspondente da revista em Nova York, José Roberto
Guzzo, que mais tarde seria diretor de redação de VEJA, resumiu
a indigência institucional de mais de 160 anos de vida do país com
a seguinte informação: "Dos 36 chefes de Estado que o Haiti já
teve, 24 foram assassinados ou derrubados do poder pela força". Repórteres
da revista revisitariam o Haiti em 1986, 1992, 1994, ocasiões em que, invariavelmente,
encontraram uma população reprimida por governantes golpistas e
corruptos, eficientes apenas em impedir que prosperassem quaisquer tentativas
de criar instituições civis funcionais. Neste
número, uma nova reportagem de VEJA sobre o Haiti feita pelo jornalista
André Petry e pelo fotógrafo Paulo Vitale revela que as coisas pioraram
muito quando comparadas à realidade encontrada pelas equipes que os precederam.
"O governo do Haiti é inepto, violento e autoritário. Sua polícia
é corrupta, brutal, envolvida em assassinatos, seqüestros, estupros
e tráfico de drogas", conta Petry, no trecho em que seu relato se assemelha
às reportagens anteriores. O que piorou? Sumiram os poucos vestígios
de justiça organizada, representação política ou produção
econômica. O país vive de ajuda externa e da remessa de dólares
aos parentes feitas por haitianos que emigraram. Diz Petry: "As ruas estão
entregues a bandos políticos armados que disputam espaço a bala
com gangues de criminosos comuns". |