Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

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Carta ao leitor
Laboratório do caos

 
Claudio Pedrosa
Petry e Vitale: capacete de aço e coletes à prova de bala

Se a União Soviética foi o laboratório em que se provou empiricamente a ruína do centralismo econômico combinado com a supressão das liberdades, o pequeno Haiti é a prova em decomposição da impossibilidade de construir uma nação na ausência de instituições. Esse é o grande fracasso do país mais pobre do hemisfério ocidental, onde 1.200 militares brasileiros, sob a bandeira azul das Nações Unidas, lutam para evitar a eclosão de uma guerra civil. Independente da França desde 1804, o Haiti falhou em construir um futuro melhor do que seu passado colonial. Os haitianos tentaram no decorrer de sua história se organizar em torno de clãs, de religiões anímicas, do nacionalismo exacerbado e do ódio ao colonizador. Tudo em vão.

Em cinco momentos diferentes, VEJA mandou repórteres ao Haiti. A primeira incursão ocorreu em 1971, quando o então correspondente da revista em Nova York, José Roberto Guzzo, que mais tarde seria diretor de redação de VEJA, resumiu a indigência institucional de mais de 160 anos de vida do país com a seguinte informação: "Dos 36 chefes de Estado que o Haiti já teve, 24 foram assassinados ou derrubados do poder pela força". Repórteres da revista revisitariam o Haiti em 1986, 1992, 1994, ocasiões em que, invariavelmente, encontraram uma população reprimida por governantes golpistas e corruptos, eficientes apenas em impedir que prosperassem quaisquer tentativas de criar instituições civis funcionais.

Neste número, uma nova reportagem de VEJA sobre o Haiti feita pelo jornalista André Petry e pelo fotógrafo Paulo Vitale revela que as coisas pioraram muito quando comparadas à realidade encontrada pelas equipes que os precederam. "O governo do Haiti é inepto, violento e autoritário. Sua polícia é corrupta, brutal, envolvida em assassinatos, seqüestros, estupros e tráfico de drogas", conta Petry, no trecho em que seu relato se assemelha às reportagens anteriores. O que piorou? Sumiram os poucos vestígios de justiça organizada, representação política ou produção econômica. O país vive de ajuda externa e da remessa de dólares aos parentes feitas por haitianos que emigraram. Diz Petry: "As ruas estão entregues a bandos políticos armados que disputam espaço a bala com gangues de criminosos comuns".

 
 
 
 
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