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André
Petry
Corruptos e falastrões
"Descobriu-se que outra maneira
de referir-se
à moeda sonante é 'andorinha', criação
deliciosamente inventiva na medida em
que sugere que, se a maracutaia não for
bem feita, o dinheiro pode voar embora"
Os corruptos brasileiros podem ser tão
competentes em driblar a polícia quanto seus colegas de qualquer
outra parte do mundo mas aqui há um fenômeno
bastante particular. Os corruptos brasileiros adoram falar. Adoram
verbalizar suas maracutaias, adoram comentar o saldo de suas trambicagens.
Têm tal gosto pela parlapatice que chegam a falar sobre seus
golpes até mesmo ao telefone, sabidamente o meio mais inseguro
de manter uma conversa privada no Brasil. Agora mesmo, a prisão
dos seis empresários e dos quatro graduados funcionários
do Tribunal de Contas da União envolvidos num esquema de
corrupção suprema metáfora da raposa
e do galinheiro começou pela boca. Em conversas telefônicas,
os detidos comentavam detalhes sobre suas maquinações,
combinando valores e trocando idéias, ainda que o fizessem
com códigos e meias palavras. Em operações
anteriores da Polícia Federal, corporação que
parece encontrar-se num momento particularmente ativo de sua história,
o grosso dos corruptos capturados em plena ação caiu
fisgado pela boca, em escutas telefônicas.
É excelente que os corruptos brasileiros
sejam falastrões. Por duas razões. Primeiro porque,
existindo polícia e alguma vontade de aliviar a corrupção,
a verborragia ajuda a colocá-los atrás das grades.
Segundo porque, sendo tão falantes, acabam por enriquecer
o vocabulário da língua portuguesa com a criação
de sinônimos inesperados. Houve um político que, para
não mencionar a palavra "dinheiro", falava "telefone". No
escândalo que envolve deputados da Assembléia Legislativa
do Rio de Janeiro, descobriu-se que outra maneira de referir-se
à moeda sonante é "andorinha", criação
deliciosamente inventiva na medida em que sugere que, se a maracutaia
não for bem feita, o dinheiro pode voar embora. Quando o
dólar era bem mais seguro do que hoje, falar da moeda americana
como "verdinhas" era tão banal que logo a expressão
foi trocada por "alfaces". No grampo da máfia da Sudam, início
do calvário do então senador Jader Barbalho, descobriu-se
que propina era "documento". Diziam: "O documento já está
em Brasília".
A questão que intriga, no fundo, é
saber por que os corruptos inventam tais sinônimos. Julgam
que os pobres mortais honestos nunca descobrirão que "telefone"
ou "andorinha" querem dizer dinheiro? No grampo mais recente, que
levou o pessoal do TCU à prisão, a polícia
acredita que se introduziu mais um sinônimo de propina no
vocabulário nacional "vela de aniversário",
expressão usada por um dos interlocutores grampeados. Qual
a associação? Que, com a maturidade, com o passar
dos anos, vem a riqueza, ainda que ilícita? De onde sai essa
inspiração? Talvez os corruptos queiram, a um só
tempo, enganar a si próprios e preservar a liberdade de falar
pelos cotovelos. Enganam a si mesmos ao evitar dizer as coisas tais
como são e, assim enganados, supõem que podem falar
e falar e falar. Ótimo. A parcela honesta da população
brasileira, penhorada, agradece tanto um quanto o outro motivo.
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