Edição 1883 . 8 de dezembro de 2004

Índice
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

André Petry
Corruptos e falastrões

"Descobriu-se que outra maneira de referir-se
à moeda sonante
é 'andorinha', criação
deliciosamente inventiva na medida em
que sugere que, se a maracutaia não for
bem feita,
o dinheiro pode voar embora"

Os corruptos brasileiros podem ser tão competentes em driblar a polícia quanto seus colegas de qualquer outra parte do mundo – mas aqui há um fenômeno bastante particular. Os corruptos brasileiros adoram falar. Adoram verbalizar suas maracutaias, adoram comentar o saldo de suas trambicagens. Têm tal gosto pela parlapatice que chegam a falar sobre seus golpes até mesmo ao telefone, sabidamente o meio mais inseguro de manter uma conversa privada no Brasil. Agora mesmo, a prisão dos seis empresários e dos quatro graduados funcionários do Tribunal de Contas da União envolvidos num esquema de corrupção – suprema metáfora da raposa e do galinheiro – começou pela boca. Em conversas telefônicas, os detidos comentavam detalhes sobre suas maquinações, combinando valores e trocando idéias, ainda que o fizessem com códigos e meias palavras. Em operações anteriores da Polícia Federal, corporação que parece encontrar-se num momento particularmente ativo de sua história, o grosso dos corruptos capturados em plena ação caiu fisgado pela boca, em escutas telefônicas.

É excelente que os corruptos brasileiros sejam falastrões. Por duas razões. Primeiro porque, existindo polícia e alguma vontade de aliviar a corrupção, a verborragia ajuda a colocá-los atrás das grades. Segundo porque, sendo tão falantes, acabam por enriquecer o vocabulário da língua portuguesa com a criação de sinônimos inesperados. Houve um político que, para não mencionar a palavra "dinheiro", falava "telefone". No escândalo que envolve deputados da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, descobriu-se que outra maneira de referir-se à moeda sonante é "andorinha", criação deliciosamente inventiva na medida em que sugere que, se a maracutaia não for bem feita, o dinheiro pode voar embora. Quando o dólar era bem mais seguro do que hoje, falar da moeda americana como "verdinhas" era tão banal que logo a expressão foi trocada por "alfaces". No grampo da máfia da Sudam, início do calvário do então senador Jader Barbalho, descobriu-se que propina era "documento". Diziam: "O documento já está em Brasília".

A questão que intriga, no fundo, é saber por que os corruptos inventam tais sinônimos. Julgam que os pobres mortais honestos nunca descobrirão que "telefone" ou "andorinha" querem dizer dinheiro? No grampo mais recente, que levou o pessoal do TCU à prisão, a polícia acredita que se introduziu mais um sinônimo de propina no vocabulário nacional – "vela de aniversário", expressão usada por um dos interlocutores grampeados. Qual a associação? Que, com a maturidade, com o passar dos anos, vem a riqueza, ainda que ilícita? De onde sai essa inspiração? Talvez os corruptos queiram, a um só tempo, enganar a si próprios e preservar a liberdade de falar pelos cotovelos. Enganam a si mesmos ao evitar dizer as coisas tais como são e, assim enganados, supõem que podem falar e falar e falar. Ótimo. A parcela honesta da população brasileira, penhorada, agradece tanto um quanto o outro motivo.

 
 
 
 
topovoltar