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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro As
crendices do vestibular
"O vestibular
é um dos maiores focos de crendices e antipatias, por ser um ícone
da meritocracia, tão avessa aos gostos tupiniquins"
Ilustração
Atomica Studio
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"Vou
acabar com o vestibular!"
Quantos ministros
da Educação prometeram isso ao tomar posse? Tolice. Pode mudar de
nome, mas, se há mais candidatos do que vagas, é preciso uma prova
para garantir que os melhores sejam escolhidos. No caso dos cursos concorridos,
menos entram, mais cobiçados ficam. Em contraste, já há muitos
cursos superiores com menos candidatos do que vagas. Aliás, nada errado
com isso. Só que neles o vestibular é mera liturgia (exceto por
permitir às faculdades conhecer melhor seus alunos).
O vestibular é um dos maiores focos de crendices e antipatias, por ser
um ícone da meritocracia, tão avessa aos gostos tupiniquins. Vejamos
outras. "Coitadinho, tem de estudar tanto!"
Em todos os países sérios, o
ingresso nas melhores universidades é brutalmente competitivo, bem mais
do que no Brasil. Pesquisas no último ano do ensino médio, em escolas
privadas, mostraram pouco mais de uma hora de estudo diário depois da aula.
"O vestibular é uma loteria!"
Podem-se acertar algumas questões por acaso. Mas, sem saber, não
se acertam muitas. Aliás, o acerto por sorte é igual para todos.
Portanto, passa quem sabe mais respostas certas. Só passa por sorte quem
está concorrendo com outros candidatos que tampouco sabem as respostas
certas, e isso só acontece nos cursos menos cobiçados. Apenas nesses
casos vale a tese de que passa o ignorante sortudo. "É
absurdo decidir tudo em uma só prova!"
Pesquisas mostram que as notas refletem o que sabe o aluno. Elas quase não
variam em virtude da inspiração do momento ou da mosca que distraiu
sua atenção. Além disso, as provas predizem bem o desempenho
na faculdade. Nosso sistema não é diferente dos exames de fim de
secundário na Europa. Lá, provas parecidas aos nossos vestibulares
determinam quem entra em qual universidade (e quem nem sequer terá diploma
de secundário). "É pura decoreba!"
Já foi verdade. Hoje, nas melhores
universidades, o exame mede muito mais raciocínio do que memória.
Aliás, uma pesquisa na USP mostrou que, se fosse trocado o vestibular pelo
Enem, os aprovados seriam praticamente os mesmos. "Cursinho
é para adestrar, para aprender onde pôr as cruzinhas!"
Verdade, se o vestibular for de decoreba. Se for um vestibular inteligente, o
que hoje predomina nas boas universidades, o cursinho terá de educar de
verdade, pois sem aprender não se passará na prova. "Não
se podem testar conhecimentos marcando cruzinhas."
Sabe-se com total segurança que isso não é verdade. Provas
de múltipla escolha bem-feitas exigem raciocínios complexos e sofisticados
para decidir onde pôr a cruzinha. E, na sorte, o aluno só compete
com outros igualmente ignorantes. (Contudo, é péssima idéia
usar provas de múltipla escolha durante o curso.) "A
prova deste ano foi muito difícil!"
Verdade ou mentira? É irrelevante. A prova é a mesma para todos.
A dificuldade está no que sabem os outros candidatos. Se sabem muito, é
mais difícil passar. É como em um jogo de futebol, a dificuldade
não está nas regras, mas na competência do adversário.
"Se se trocar o vestibular pelo Enem, serão
aprovados analfabetos!" Qualquer que seja a
prova, se há mais vagas do que candidatos no curso escolhido mesmo
nas melhores universidades , o sistema classificatório aprova qualquer
analfabeto (e eliminar tal sistema seria mexer em vespeiro). "Os
vestibulares das universidades públicas criam distorções
no ensino médio." Dentre todas, essa
é a única afirmativa verdadeira. O vestibular das universidades
públicas funciona bem, mas virou o real currículo para as escolas
da cidade o que está errado. Pior, em vez de focalizar o raciocínio
e os pontos importantes da educação, como faz o Enem, leva à
dispersão de esforços, fazendo com que os alunos se percam em listas
enciclopédicas de conhecimentos e detalhes. Isso é menos grave nas
melhores escolas, em que os alunos já têm base mais sólida.
Mas é uma distorção grotesca no caso de alunos que nem sequer
pretendem entrar no superior. Recebem uma carga de conteúdos muito maior
do que dão conta de aprender. E, bem sabemos, quando se ensina demais,
aprende-se de menos. Claudio de Moura
Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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