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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Dos
pastéis na rua à poltrona de couro
Variações
e significados das fotos dos políticos em dois momentos: antes
e depois da campanha eleitoral Saem as
comidas, entram o sofá e a poltrona. Fotos de políticos fornecem
um retrato emblemático de nossa civilização. Os mais doutos
extrairiam delas tratados de alta sapiência. Nas campanhas eleitorais, no
Brasil, é hora das fotos de político comendo. Como comem, os candidatos!
Como vão a feiras, mercados, restaurantes populares! ou a botequins,
em cujos rudes balcões se encostam para sorver o cafezinho, com freqüência
acompanhado do pão de queijo. Pastéis também se precipitam
aos montes em direção aos políticos. E broas, salames, queijos,
croquetes, doces. Os fotógrafos, seres sabidamente maus, aproveitam esses
momentos e... crau. No dia seguinte, a foto no jornal é do candidato de
boca aberta, às voltas com um impossível pedaço de melancia,
ou deglutindo mal e mal o bolinho de bacalhau que lhe queima o céu da boca
mas pensa o leitor que o político não gosta? Gosta. Sua intuição
indica que sair por aí comendo o que lhe aparece pela frente será
interpretado como benfazeja disposição de comungar com o povo.
Dois impulsos inversos contribuem para esse hit das campanhas que é o flagrante
do candidato comendo. Um, de fora em direção ao político,
é o do homem ou da mulher da feira, do mercado, do restaurante ou da residência
particular eventualmente visitada de oferecer algo ao visitante. Somos um povo
cordial. O outro, vindo de dentro do político, é o de posar de gente
comum, que... sim, até come! Tão simpático... Ele não
tem nojo da nossa comida! Ponto alto são as investidas rumo aos bandejões.
O candidato entra na fila, bandeja na mão... clique: foto dele na fila,
bandeja na mão... oferecem para deixá-lo passar à frente...
não, obrigado, ele é apenas mais um, igual aos outros... ainda que
acompanhado de assessores, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas.
Senta-se ao mesão, cotovelos contra os cotovelos dos vizinhos de lado,
e o vizinho da frente a dois palmos de seu nariz. Clique. E com que ar de satisfação
leva o garfo à boca... clique... como se muitos desses estabelecimentos
não tivessem o demolidor apelido de "lixão".
A comida já gerou clássicos das campanhas políticas. Ulysses
Guimarães dizia que campanha era tempo de se empanturrar de maionese
o prato que o bom povo brasileiro considerava de festa. O candidato Fernando Henrique
Cardoso protagonizou, em 1994, o célebre episódio em que se disse
deliciado com uma buchada de bode, no sertão do Nordeste e ainda
esnobou ensinando que buchada não passa de uma versão cabocla da
tripe à la mode de Caen, requintado prato francês. Mas a campanha
acabou, e as fotos agora são dos gabinetes. A hora é das visitas
protocolares, das articulações, das reuniões. Nos flagrantes
da imprensa, sai a comida, entram o sofá e a poltrona.
O presidente George W. Bush (para começar com uma digressão estrangeira)
acomoda os visitantes numa das poltronas que ladeiam a lareira do Salão
Oval da Casa Branca e ocupa a outra. Dá-se então aquele aperto de
mão que não acaba enquanto o mais atrasadinho, no batalhão
de fotógrafos, não disparar o seu clique. A foto que resulta é
curiosa. Bush costuma estender amplamente o braço e apertar com vigor a
mão do convidado, mas olhando para a câmera e sorrindo. A mão
vai para um lado e o olhar, com o sorriso, para o outro, como duas entidades desarticuladas
entre si. O jeito de Bush se comportar nessas ocasiões deve querer dizer
alguma coisa. Talvez explique o fato de a Guerra do Iraque ser o desastre que
é. No Palácio do Planalto, o presidente
Lula recebe os visitantes no conjunto de sofá e poltronas de couro existente
numa das pontas de seu gabinete. O presidente ocupa a poltrona, o convidado, o
sofá. Acabou a campanha, nada de promiscuidade. Lula (assim como faziam
seus antecessores) senta-se na poltrona. É a maneira de se isolar num espaço
onde não entra mais ninguém. Se se sentasse no sofá, daria
chance para alguém se meter ao lado. Pior ainda se ficasse no meio do sofá,
espremido entre dois intrusos, e sem onde pousar os braços. Tais situações
feririam aquilo que o presidente Sarney chamou de "liturgia do cargo". A poltrona
é o objeto mais aparentado a um trono ao alcance da parte traseira do chefe
da nação em tempos republicanos. É nela que o presidente
posa para as fotos. O sofá, equivalente naquelas circunstâncias a
galerias populares, fica para a(s) visita(s). Mas
os fotógrafos, esses seres maldosos, gostam mesmo de outro tipo de situação
aquela em que o presidente e seu(s) convidado(s) estão se sentando.
Ou seja: não estão nem de pé nem sentados, mas no movimento
de inclinar-se em direção ao assento, as pernas começando
a dobrar-se, o torso arqueado, a cabeça voltada para baixo. É uma
posição instável, nem para cá nem para lá.
Transmite deselegância e sugere fragilidade. Na quinta-feira passada, a
Folha de S.Paulo publicou uma foto assim, de Lula com o governador eleito
de Sergipe, Marcelo Déda. Os fotógrafos que disparam a câmera
nesses momentos sabem o que fazem. Eles flagram o poder num momento de instabilidade.
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