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Livros O
estilo é o homem A realidade crua
da pobreza nas memórias de infância de José Saramago
 Jerônimo
Teixeira
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A partir das histórias
relatadas em As Pequenas Memórias (Companhia das Letras;
140 páginas; 31 reais), o Nobel português José Saramago, de
84 anos, poderia ter composto tanto um elogio idílico à pureza da
infância na zona rural portuguesa quanto um lacrimoso melodrama sobre as
famílias pobres de Lisboa. Não fez nem uma coisa nem outra: o memorialista
manteve um cortante fio de ironia que o afasta de qualquer nota de celebração
ou comiseração. Em um livro que expõe de forma desassombrada
as realidades mais duras da própria infância e da adolescência,
a ironia, claro, pode ao mesmo tempo servir como uma estratégia de autodefesa.
Saramago, porém, resiste à idéia. "A ironia é uma
constante no meu trabalho de escritor. Nunca pensei nela como um instrumento de
autopreservação psicológica", disse o autor, em entrevista
por e-mail a VEJA. Não só a ironia: a frase longa, de sintaxe ao
mesmo tempo elegante e tortuosa empregada nesse livro de memórias, é
a mesma que o leitor já conhece de romances como História do
Cerco de Lisboa. Saramago é daqueles autores cujo estilo já
se tornou personalidade ou vice-versa.
O título do livro não se refere só à sua brevidade:
são memórias dos tempos em que o autor era pequeno. Sua vida então
se dividia entre a zona rural da Azinhaga, onde nasceu, e os subúrbios
pobres de Lisboa. O livro tem lá suas concessões nostálgicas,
como nesta analogia convencional entre a viagem de um barco e o passeio da memória
(piorada pela associação kitsch entre juventude e sonho): "...o
barco rústico que conduziu até às fronteiras do sonho um
certo ser que fui e que deixei encalhado algures no tempo". Essa facilidade lírica,
porém, não dá o tom geral do livro. As realidades cruas da
pobreza o irmão que morreu de broncopneumomia aos 4 anos, os cômodos
divididos entre duas ou mais famílias, as violentas brigas domésticas,
a iniciação sexual em casas onde a privacidade era um luxo raro
são descritas com uma objetividade seca.
Mais marcantes do que os pais de Saramago, seus avós maternos, Jerónimo
e Josefa, rústicos camponeses da Azinhaga, ganham dignidade no relato.
O casal faz uma figura severa, serena e sábia, que será talvez idealizada
mas essa é uma idealização que funciona literariamente.
Em um livro no geral tão desencantado, há uma beleza genuína
quando o autor relata a frase que teria ouvido da avó de 90 anos: "O mundo
é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer".
A casa da memória
"Desapareceu num montão de escombros a pobríssima
morada de meus avós maternos, esse mágico casulo onde se geraram
as metamorfoses decisivas da criança e do adolescente. Essa perda, porém,
deixou de me causar sofrimento porque, pelo poder reconstrutor da memória,
posso levantar as suas paredes brancas, plantar a oliveira que dava sombra à
entrada, entrar nas pocilgas para ver mamar os bácoros, ir à cozinha
e deitar do cântaro para o púcaro de esmalte esborcelado a água
que pela milésima vez me matará a sede daquele Verão."
Trecho de As Pequenas Memórias |
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