'
 


    

 
Edição 1981 . 8 de novembro de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
Auto-retrato
VEJA.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
O estilo é o homem

A realidade crua da pobreza
nas memórias de infância
de José Saramago  


Jerônimo Teixeira 

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

A partir das histórias relatadas em As Pequenas Memórias (Companhia das Letras; 140 páginas; 31 reais), o Nobel português José Saramago, de 84 anos, poderia ter composto tanto um elogio idílico à pureza da infância na zona rural portuguesa quanto um lacrimoso melodrama sobre as famílias pobres de Lisboa. Não fez nem uma coisa nem outra: o memorialista manteve um cortante fio de ironia que o afasta de qualquer nota de celebração ou comiseração. Em um livro que expõe de forma desassombrada as realidades mais duras da própria infância e da adolescência, a ironia, claro, pode ao mesmo tempo servir como uma estratégia de autodefesa. Saramago, porém, resiste à idéia. "A ironia é uma constante no meu trabalho de escritor. Nunca pensei nela como um instrumento de autopreservação psicológica", disse o autor, em entrevista por e-mail a VEJA. Não só a ironia: a frase longa, de sintaxe ao mesmo tempo elegante e tortuosa empregada nesse livro de memórias, é a mesma que o leitor já conhece de romances como História do Cerco de Lisboa. Saramago é daqueles autores cujo estilo já se tornou personalidade – ou vice-versa.

O título do livro não se refere só à sua brevidade: são memórias dos tempos em que o autor era pequeno. Sua vida então se dividia entre a zona rural da Azinhaga, onde nasceu, e os subúrbios pobres de Lisboa. O livro tem lá suas concessões nostálgicas, como nesta analogia convencional entre a viagem de um barco e o passeio da memória (piorada pela associação kitsch entre juventude e sonho): "...o barco rústico que conduziu até às fronteiras do sonho um certo ser que fui e que deixei encalhado algures no tempo". Essa facilidade lírica, porém, não dá o tom geral do livro. As realidades cruas da pobreza – o irmão que morreu de broncopneumomia aos 4 anos, os cômodos divididos entre duas ou mais famílias, as violentas brigas domésticas, a iniciação sexual em casas onde a privacidade era um luxo raro – são descritas com uma objetividade seca.

Mais marcantes do que os pais de Saramago, seus avós maternos, Jerónimo e Josefa, rústicos camponeses da Azinhaga, ganham dignidade no relato. O casal faz uma figura severa, serena e sábia, que será talvez idealizada – mas essa é uma idealização que funciona literariamente. Em um livro no geral tão desencantado, há uma beleza genuína quando o autor relata a frase que teria ouvido da avó de 90 anos: "O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer".

 

A casa da memória  

"Desapareceu num montão de escombros a pobríssima morada de meus avós maternos, esse mágico casulo onde se geraram as metamorfoses decisivas da criança e do adolescente. Essa perda, porém, deixou de me causar sofrimento porque, pelo poder reconstrutor da memória, posso levantar as suas paredes brancas, plantar a oliveira que dava sombra à entrada, entrar nas pocilgas para ver mamar os bácoros, ir à cozinha e deitar do cântaro para o púcaro de esmalte esborcelado a água que pela milésima vez me matará a sede daquele Verão."

Trecho de As Pequenas Memórias

 
 
 
 
topovoltar