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Brasil A
encruzilhada O presidente em seu gabinete no
Palácio do Planalto: sem a retórica eleitoral, o discurso é
bom 
Lucila Soares e Otávio Cabral
Anderson Schneider/WPN  |
PALAVRAS CERTAS
O presidente em seu gabinete no Palácio do Planalto: sem a retórica
eleitoral, o discurso é bom |
O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva foi reeleito com 58.295.042 votos a segunda
maior votação que um governante já obteve na história
das democracias ocidentais. Além do formidável respaldo popular
conquistado nas urnas, o presidente Lula terá a maioria dos governadores
do país ao seu lado e sua base parlamentar será mais ampla do que
no primeiro mandato. Com esse vasto leque de apoio, o segundo governo de Lula
pode ter força política para fazer muito, mas isso não o
coloca necessariamente no rumo certo para comandar um país moderno, democrático
e com uma economia crescentemente globalizada como o Brasil. A boa notícia
é que, logo depois de reeleito, Lula desceu do palanque, despiu-se da retórica
eleitoral exibida em seus programas na televisão e mostrou que sabe com
clareza o que precisa ser feito para entrar para a história como um presidente
modernizador e não como uma versão adocicada do venezuelano
Hugo Chávez.
Para ganhar a eleição presidencial em 2002, Lula se viu obrigado
a lançar a famosa Carta ao Povo Brasileiro, um documento no qual conseguiu
espantar os receios de que um governo petista rasgaria contratos e destruiria
os pilares da estabilidade econômica tão arduamente postos de pé
pela sociedade brasileira. Na carta, comprometia-se a pagar as dívidas
interna e externa, garantia manter as metas do superávit primário
e prometia manter a política de controle da inflação. Desta
vez, Lula não precisou lançar carta alguma, mas, mesmo assim, em
suas intervenções públicas na semana passada acabou reafirmando
uma série de princípios básicos que, se forem cumpridos
nos moldes apontados pelo presidente, proporcionarão um segundo mandato
com chances reais de representar um avanço para o país. VEJA compilou
os principais pontos abordados pelo presidente em seu pronunciamento à
nação, transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão
na terça-feira, e nas quatro entrevistas que concedeu às principais
emissoras de televisão do país. Dali, emerge um guia bastante claro
sobre o que pode ser o governo Lula segundo o próprio Lula. A seguir,
confira os sete compromissos do presidente:
Sergio Dutti/AE  |
ALVO CORRETO
Dilma falou que tinha de cortar gastos. Lula não censurou a ministra |
Controle da inflação
" Temos tudo, a partir de agora,
para aumentar o emprego, melhorar a educação, a saúde e a
segurança. Mas vamos fazer isso com grande responsabilidade na área
fiscal e controle da inflação. Só assim vamos entrar, definitivamente,
na rota do crescimento de longo prazo. " Pronunciamento
à nação, 31/10/2006
O presidente demonstra ter compreendido
claramente que é o controle da inflação que põe comida
na mesa na maioria das famílias pobres e não apenas o Bolsa
Família. Essa compreensão é o grande avanço de sua
visão sobre o funcionamento da economia. É também o maior
mérito do primeiro mandato, quando o controle da inflação
foi priorizado mesmo à custa de juros altos e índices de crescimento
pífios. Lula está certo quando diz que o Brasil pode voltar a crescer.
Mas, para que isso ocorra, é preciso o quê? Justamente não
ceder a pressões dos seus "desenvolvimentistas". Eles acreditam que os
juros podem baixar na marra porque a inflação está "debelada"
ou seja, não precisa mais ser controlada. Desastre na certa: basta
sinalizar que o controle da inflação não é mais prioritário
para ela sair em louca cavalgada. Estabilidade
" Pela primeira vez, o Brasil
enfrentou uma disputa presidencial sem nenhum tipo de abalo econômico, seja
antes, durante ou depois das eleições. A estabilidade é uma
das conquistas que precisamos manter e ampliar. " Pronunciamento
à nação, 31/10/2006
Para entender esse avanço
basta lembrar a turbulência que cercou a reta final da campanha de 2002,
quando o risco Lula levou o dólar a 4 reais e o risco-país chegou
a mais de 2 000 pontos. É um alento ouvir que o presidente preza a estabilidade
e deseja mantê-la e ampliá-la. Fazer isso, no entanto, é mais
difícil do que parece. Inclui mudanças estruturais, além
da reforma tributária e de regras que criem um horizonte previsível
para investimentos. Para o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, o
presidente precisa compor uma equipe que dê suporte a seu projeto de crescer
com estabilidade. "Se ele não tiver uma equipe que homogeneíze o
conjunto de medidas e reformas e dê suporte a sua intenção
de conjugar estabilidade e crescimento, vai colher mediocridade no crescimento."
Abertura para
o exterior " Quero continuar fazendo
um governo que (...) aprofunde, ainda mais, a inserção soberana
do Brasil no mundo. " Pronunciamento à
nação, 31/10/2006
Durante a campanha eleitoral, o presidente
Lula alardeou o desempenho das exportações brasileiras nos últimos
quatro anos. O superávit comercial saltou de 13 bilhões de dólares,
em 2002, para 45 bilhões no ano passado. O fundamental é não
confundir esse resultado com uma real abertura da economia. Isso exige importações
elevadas, para permitir a entrada de máquinas e equipamentos que aumentem
a competitividade das empresas. O presidente Lula não tem dado muita ênfase
a esse aspecto, mas vem mostrando claramente que o discurso antiglobalização
está recolhido ao museu das idéias petistas. Agora, resta ter coragem
de dar nova direção à política externa. "É
preciso ter mais pragmatismo e menos ideologia", diz Carlos Langoni, diretor do
Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas.
Parceria com empresas
" O país pode crescer. (...) Então, o
que nós precisamos fazer? Mais crédito, mais poupança interna,
mais parceria com a iniciativa privada, e os grandes projetos já estão
delineados. " Entrevista ao SBT, 30/10/2006
A histeria antiprivatista que
marcou a campanha eleitoral ficou para trás. O presidente demonstrou ter
claro que o Estado brasileiro esgotou sua capacidade de investimento e precisa
do apoio da iniciativa privada. Em seu pronunciamento, Lula deu alguns exemplos
de projetos que merecerão atenção especial: o Pólo
Petroquímico do Rio de Janeiro, o Pólo Siderúrgico do Ceará,
a Ferrovia Transnordestina. Todos envolvem parceria com empresas. O que precisa
ser enfatizado é que, para funcionarem a contento, as Parcerias Público-Privadas
precisam ser amparadas por marcos regulatórios sólidos em todos
os setores. E isso não existe em áreas estratégicas, como
saneamento e energia. Diz Langoni: "É preciso ter regras claras e remuneração
adequada para o investidor. Sem isso, o país continuará com infra-estrutura
ineficaz, um sério entrave ao crescimento". Desburocratização
" A burocracia é necessária,
mas ela não pode ser impeditiva do Brasil dar o salto de qualidade que
precisa dar para crescer e distribuir renda." Entrevista
à Rede Bandeirantes, 30/10/2006
Roberto Jayme/AE  |
A ERA PALOCCI
Tarso Genro anunciou o fim da "era Palocci". Levou um pito público
de Lula | O presidente
está coberto de razão. No Brasil, demora-se cinco meses para abrir
uma empresa. O interessado tem de provar que está vivo, que tem uma residência,
seu estado civil e mais uma infinidade de informações até
se tornar empresário. Se o negócio não for bem e ele quiser
fechá-lo, pode levar mais dez anos até conseguir encerrar a firma.
Esses são os prazos médios apurados pelo Banco Mundial, que colocam
o Brasil na 119ª posição num ranking sobre os melhores ambientes
de negócios, entre 155 países. O primeiro passo para resolver essa
questão é o país começar a acreditar mais em seus
cidadãos, eliminando a selva de documentos que se exigem a cada passo.
"A burocracia é a cereja do bolo de um Estado balofo e ineficaz", diz o
ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira.
Redução de impostos
" Se fosse aprovada
a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, nós iríamos ter menos
impostos, simplificar os impostos e as empresas iriam ter as suas vidas facilitadas."
Entrevista ao SBT, 30/10/2006
A aprovação da
lei é necessária e bem-vinda. Os micros e pequenos empresários
representam 99% do total de negócios existentes no país. A cada
ano, criam-se 500.000 empresas e 49% delas fecham as portas nos primeiros
dois anos de existência, esmagadas pelo peso dos impostos e da burocracia.
É importante assinalar, contudo, que a lei não dá conta do
problema mais amplo, que é a confusão do sistema tributário
brasileiro. O emaranhado de impostos inibe o crescimento, a criação
de empregos e atrasa o desenvolvimento. Há empresas que, para atuar em
todo o território nacional, necessitam de 27 advogados, cada um cuidando
de um sistema tributário estadual diferente. Além de fazer uma reforma
que torne o sistema mais ágil e eficiente, o governo precisa gastar menos
e melhor o dinheiro que arrecada. O ex-ministro Marcílio Marques Moreira
afirma: "A tributação é alta porque o gasto é alto.
E o sistema é injusto. Penaliza os que ganham menos".
Ética
" Continuarei empenhado em que os órgãos
de investigação e da Justiça apurem todas as denúncias
de corrupção e que os verdadeiros culpados sejam exemplarmente punidos."
Pronunciamento à nação,
31/10/2006 O
assalto indiscriminado aos cofres públicos foi o lamaçal que manchou
todo o primeiro mandato de Lula. Conter a ousadia dos "companheiros" que erram
sempre em benefício do próprio bolso e do partido é o grande
desafio de Lula nos próximos quatro anos. O presidente tem feito repetidas
promessas de empenho na apuração das denúncias e punição
dos culpados, mas pouco existe de resultado concreto. A questão ética
não se esgota, no entanto, na apuração de escândalos.
Ela exige vários desdobramentos. Um deles é a reforma política
uma prioridade a que Lula tem feito referência, embora de forma genérica.
Outro é o Orçamento, cuja elaboração envolve um toma-lá-dá-cá
entre o Executivo e os partidos que leva em conta tudo, menos os interesses do
país. Um terceiro é a fiscalização dos gastos públicos.
Conclui o cientista político Murillo de Aragão: "Se o presidente,
fiscalizado pela imprensa como ele é, mesmo assim se beneficiou da sua
condição de presidente como candidato, imagine o que não
acontece na máquina pública nos estados periféricos".
Anderson Schneider  |
A EVOLUÇÃO
Crianças beneficiadas pelo Bolsa Família na escola (acima)
e alimentos à venda num supermercado: Lula compreendeu que o controle da
inflação é que põe comida na mesa das famílias
pobres | Antonio Milena  |
Com base nos sete compromissos listados
acima, Lula pode fazer um segundo mandato à altura do Brasil. O presidente
tem dito com insistência que pretende devotar o segundo mandato a um tripé:
crescimento econômico, distribuição de renda e educação
de qualidade. O problema é que, para chegar lá, Lula teria de tratar
de questões que tem negligenciado em suas entrevistas. A mais gritante
delas é a reforma da Previdência Social, cujo rombo de 40 bilhões
de reais por ano é um dos elementos que mais emperram a economia do país.
Outra é corolário da primeira: a necessidade de cortar os gastos
públicos. Em sua entrevista ao SBT na semana passada, Lula chegou
mesmo a dizer que é preciso fazer o contrário: aumentar os gastos
públicos, o que é disparate diante de uma máquina pública
que, só no ano passado, consumiu 352 bilhões de reais (veja
reportagem). O único sinal de alento nessa história
é que quando Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais,
disse que a "era Palocci" chegara ao fim o presidente passou-lhe um pito público.
E, quando a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, disse que o governo precisava
cortar gastos, Lula não lhe fez nenhum reparo.
No seu primeiro mandato, o presidente teve desempenho elogiável na condução
da economia e Lula sabe que esse é o principal motivo de sua reeleição
por uma margem tão ampla de votos. É natural, para usar uma metáfora
futebolística tão ao gosto do presidente, que não pretenda
mexer em time que está ganhando. O aspecto mais sombrio do seu primeiro
mandato esteve no campo das tentações totalitárias
e, claro, da ética. Nesse terreno, o eleitorado deve permanecer alerta.
É saudável o presidente dizer que pretende investigar os escândalos,
mas isso nem de longe é o bastante num governo em que os escândalos
se sucedem numa velocidade espantosa. Em menos de dois meses, vieram a público
o escândalo das cartilhas superfaturadas (ou fantasmas), o escândalo
do dossiê contra os tucanos comprado com dinheiro sujo e o escândalo
de Lulinha, o filho do presidente que andou fazendo lobby no governo para a Telemar.
Quanto ao viés totalitário que vez por outra volta ao centro da
cena política, não há nada a comemorar. Ao contrário.
Na semana passada, já no dia seguinte à eleição, enquanto
o presidente dava entrevistas às principais emissoras de televisão
do país, seus eleitores e aliados, ministros inclusive, voltaram a produzir
sinais preocupantes da dificuldade que têm em lidar com uma imprensa independente
e crítica (veja reportagem).
Apesar de tudo, é certo que
o Lula que se reelegeu agora para um segundo mandato é um político
mais preparado que o Lula eleito em 2002. O imenso revés sofrido com os
desmandos éticos pode ter ajudado a relegar esse aspecto a um plano mais
apagado, mas isso não quer dizer que não exista. Em quatro anos
no Palácio do Planalto, é claro que Lula acumulou experiência,
ampliou seu conhecimento da máquina pública e, em alguns aspectos,
sua visão passou por uma evolução notável. A questão
da desigualdade social, tão presente em seus discursos, é um exemplo.
Parece claro que Lula deixou para trás a visão tacanha de que a
miséria que afeta milhões de brasileiros possa ser superada pelo
princípio bolchevique de tirar dos ricos e dar aos pobres o que
é um jogo de soma zero. A miséria só será superada,
de fato, pela produção de riqueza. Para esse fim o gênio humano
não concebeu nada mais eficiente do que o velho e bom capitalismo, com
seus mercados livres, empreendedores ambiciosos e empresas inovadoras. Tudo isso
sob um governo que não faça a guerra, cobre impostos justos, proporcione
balizas jurídicas seguras e agências reguladoras respeitadas. Fora
desse ambiente, o máximo que se consegue é administrar a escassez
sob um regime de escravidão, como é o caso da ilha caribenha de
Cuba.
Lawrence Jackson/AP  |
QUESTÃO DE KNOW-HOW
Bush, exemplo vivo da maldição da reeleição, telefonou
para Lula | Lula entende
isso melhor do que pode externar sem ferir a suscetibilidade dos amigos e de alguns
áulicos. Mesmo quando fala do Bolsa Família, um sucesso inquestionável
de seu governo e um dos principais sustentáculos de sua reeleição,
Lula tem expressado o entendimento, como fez em entrevista à Rede Globo
na semana passada, de que o fundamental é dotar o programa de uma porta
de saída o que significa uma saudável superação
do velho assistencialismo estatal sem data para acabar. Ainda falta a Lula demonstrar
em um único discurso tudo o que os repórteres de VEJA foram garimpar
em suas falas recentes. Seria um marco. Uma libertação. Lula poderia
aposentar para sempre a idéia de palanque de que o Brasil é como
um sobrado em que só há andar de cima e andar de baixo e,
portanto, o único trabalho é fazer com que todos passem a habitar
o pedaço de cima. Isso é uma interpretação tão
tosca da sociedade brasileira que, na sua estupidez simplificadora, neutraliza
o papel crucial e dinamizador exercido pela classe média segmento
ao qual Lula fez acenos na campanha. No campo da modernidade, falta maior clareza
sobre como promover de maneira mais vigorosa as condições para que
a iniciativa privada produza mais conhecimento tecnológico de ponta, inove
mais e multiplique seus índices de produtividade.
"O desafio de Lula é tentar fazer com o que o Brasil
todo fique um pouco mais parecido com o Brasil que lhe negou os votos", afirma
o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília.
"Os indicadores das regiões pobres, onde Lula reinou, precisam ficar cada
vez mais próximos dos indicadores das regiões mais favorecidas,
onde Lula perdeu para Geraldo Alckmin." As piores votações do presidente
aconteceram justamente nos estados que concentram as economias mais dinâmicas
e os melhores índices de qualidade de vida, como São Paulo e os
três estados do Sul. Nas vinte localidades que exibem as melhores taxas
de IDH, índice que mede o nível de desenvolvimento humano, o tucano
Geraldo Alckmin ganhou em dezessete e Lula, em apenas três: Niterói,
Vitória e Fernando de Noronha. Já nas vinte que registram os piores
níveis de IDH do país, Lula venceu em todas numa delas, a
paupérrima Belágua, no interior do Maranhão, levou nada menos
que 96% dos votos. Para fazer o país
avançar, produzir riqueza e gerar justiça, o presidente Lula tem
muitos desafios para superar e um deles começa em casa. O Partido
dos Trabalhadores, que se transformou numa usina de escândalos, deu recados
de que não pretende, de novo, facilitar a vida do presidente. Fortalecido
pelo bom desempenho nas urnas ao eleger cinco governadores e uma bancada de 83
deputados, o PT já está rosnando. Na semana passada, depois de uma
reunião da cúpula, o partido divulgou uma nota oficial cobrando
que no novo mandato Lula faça um "governo de esquerda". Ninguém
sabe exatamente o que isso quer dizer, mas é certo que significa mandar
às favas o equilíbrio fiscal e o controle da inflação
em troca de um crescimento econômico tão duradouro quanto um vôo
de galinha. Com sua peculiar falta de generosidade política e sua arrogância
hegemônica, o PT também deixou claro que não pretende ceder
espaço no governo para os novos aliados. É a máquina petista
que se incrustou na máquina pública com o apego das cracas já
se movimentando para resistir à expulsão.
Com idéias claras na cabeça e cercado de apoio político mas
com um rosário de dificuldades à frente, o presidente Lula começará
o segundo governo tendo de desafiar a tradição de acordo com a qual
os segundos mandatos são sempre mais difíceis que os primeiros.
O cientista político David Fleischer, americano radicado no Brasil há
três décadas, fez um estudo sobre todos os presidentes reeleitos
nos Estados Unidos nos últimos cinqüenta anos. Concluiu que apenas
um deles, Harry Truman, foi melhor no segundo mandato do que no primeiro
e, ainda assim, porque seu primeiro mandato foi tampão, já que assumiu
o cargo em função da morte de Franklin Roosevelt e, portanto, sem
a legitimidade das urnas. Na terça-feira, um exemplo vivo do fracasso dos
segundos mandatos telefonou para Lula. O presidente George W. Bush, que amarga
seus piores índices de popularidade e enfrenta agora uma eleição
parlamentar em que perderá a maioria no Congresso, cumprimentou Lula pela
vitória e brincou: "Você teve uma vitória espetacular. Você
tem de me dar um pouquinho do seu know-how". De fato, depois de três derrotas
consecutivas, Lula aprendeu a fazer sucesso em eleições. Precisa
agora fazer sucesso no governo.
| OPOSIÇÃO EM RUMO
INCERTO
Paulo Pinto/AE  |
A CAMINHO DE 2010
O tucano José Serra, que se elegeu governador de São Paulo: altivez
de olho na próxima campanha |
A oposição foi para o embate das urnas com a certeza de que o discurso
contra a corrupção e a favor da ética lhe renderia bons dividendos
eleitorais. Afinal, mesmo sendo minoria no Congresso, o PSDB e o PFL, os dois
maiores partidos de oposição, conseguiram instalar três CPIs
que mantiveram por mais de um ano o governo do presidente Lula submerso em um
mar de escândalos monumentais. A lógica da oposição
se sustentava na crença de que os eleitores puniriam os áulicos
e premiariam aqueles que ajudaram a desmascarar a organização criminosa
petista. Não foi isso que aconteceu. Lula foi reeleito com uma votação
arrasadora. O PT também elegeu uma bancada expressiva de deputados e senadores
e ainda conquistou cinco governos estaduais, além de outros onze que serão
comandados por partidos aliados. A oposição, por sua vez, sai das
urnas menor e muito menos influente do que antes. Algumas lideranças, surpreendidas
com o tamanho da derrota, ainda se mostram completamente grogues, sem saber ao
certo como se comportar nos próximos quatro anos. Explica o cientista político
Plínio Dentzien, da Universidade Estadual de Campinas: "A oposição
não esperava um resultado tão ruim nas urnas. Eles estão
atordoados".
O PFL foi o primeiro
a acusar o golpe. O partido, que comandava quatro estados, elegeu apenas um governador
o ex-senador José Roberto Arruda, no Distrito Federal, aquele que,
em 2001, renunciou ao mandato para escapar da cassação por ter violado
o painel eletrônico. O mau desempenho se deu também no Parlamento.
De 84 deputados eleitos em 2002, a segunda maior bancada do Congresso, o partido
minguou para 65. No Senado, a situação não é melhor.
Ex-candidata do partido à Presidência da República, a senadora
Roseana Sarney, que perdeu a eleição para o governo do Maranhão
no segundo turno, pediu sua desfiliação. Ela vai formalizar sua
aliança com o governo Lula. Com isso, o partido perde a supremacia no Senado,
passando de dezenove para dezoito senadores e sendo superado pelo PMDB. Deixou,
portanto, de ter a prerrogativa de pleitear a presidência do Congresso
um naco efetivo e vistoso de poder. Abatido pelos eleitores, o PFL sinaliza que
pretende trilhar um caminho mais radical contra o governo. Instado sobre a proposta
do presidente Lula de abrir um canal de diálogo direto com a oposição,
o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, desdenhou: "Se quiser, o presidente poderá
manter o diálogo através de seus líderes no Legislativo.
Não estamos dispostos a ouvir as promessas que ele não cumpriu nos
últimos quatro anos. A reforma política, por exemplo, ele trocou
pela cooptação e pelo mensalão".
Jonathan Campos/Gazeta do Povo/AE  |
RESULTADO PÍFIO
O PFL de Bornhausen: apenas um governador eleito em 2006 | Enquanto
o PFL parte para a estridência, o PSDB já anunciou que pretende fazer
uma oposição mais comedida. O partido elegeu seis governadores,
três deles em estados estratégicos: São Paulo, Minas Gerais
e Rio Grande do Sul. Na Câmara, o desempenho foi mais fraco do que em 2002.
A bancada dos tucanos caiu de setenta para 65 deputados, mas o partido está
politicamente credenciado a disputar a sucessão presidencial. Não
é outra a intenção que vai pautar os passos do PSDB como
oposição nos próximos quatro anos. O partido tem dois pretendentes
declarados à sucessão de Lula o governador eleito de São
Paulo, José Serra, e o governador reeleito de Minas, Aécio Neves.
Na semana passada, Serra deu a partida. Em sua primeira entrevista após
a eleição, ele tentou dar o tom de como o PSDB deverá se
comportar daqui para a frente. O tucano criticou a condução da política
econômica e disse que seu partido não dará eco aos que querem
fazer uma oposição estridente. Essa parte do pronunciamento foi
interpretada como um aceno de boa vontade com o governo Lula, embora os tucanos
garantam que se trata apenas de uma estratégia para convencer o eleitorado
de que o partido quer fazer oposição de maneira responsável.
Resumiu Serra: "Na oposição, o PSDB vai se comportar com altivez".
O quadro que se desenha nesse início
de segundo mandato é politicamente favorável ao presidente Lula.
Lideranças do PFL e do PSDB já prevêem o fim da aliança
entre os dois partidos, que começou na eleição do presidente
Fernando Henrique Cardoso, em 1994, atravessou os oito anos de governo e continuou
até as últimas eleições. Uma oposição
dividida, é claro, favorece o governo, mas também nisso há
uma estratégia bem definida. Os tucanos querem se viabilizar como única
alternativa de poder. As urnas deixaram claro que oposição sem proposta
concreta não chega a lugar algum. O desafio do PSDB é governar bem
os estados, o que é uma tarefa difícil sem a ajuda federal. Por
isso, os tucanos tendem a compor com o governo, mantendo o tom crítico
mas colaborando na aprovação de projetos de interesse comum no Congresso,
principalmente os mais impopulares, como as reformas sindical, trabalhista e previdenciária.
"Com perspectivas de retornar ao poder, não há razões para
os partidos de oposição se negarem a apoiar reformas impopulares.
Afinal, os custos políticos recairiam sobre a situação, mas
os frutos seriam colhidos principalmente pelos próximos governantes", analisa
a cientista política Fernanda Machiaveli, da consultoria Tendências.
Sem ter o que perder, caberá ao PFL o papel mais aguerrido da oposição.
Estarão separados, mas continuarão parceiros. Diego
Escosteguy | | |