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Entrevista:
Nicholas Stern O
alerta global O economista inglês
afirma que o prejuízo com o aquecimento do planeta é muito
maior do que se imagina  Diego
Escosteguy
Peter Macdiarmid/Getty Images
 | "Modelos
científicos sugerem que dentro de cinqüenta ou 100 anos a Amazônia
pode secar e morrer" | |
O inglês Nicholas Stern, chefe do serviço econômico do governo
de seu país, recebeu há dezesseis meses uma tarefa colossal: medir
o impacto do aquecimento global na economia mundial. Ex-economista-chefe do Banco
Mundial e diplomado pelas universidades de Cambridge e de Oxford, Stern lançou
mão de modernos modelos matemáticos e econômicos na tentativa
pioneira de estimar os prejuízos decorrentes do chamado efeito estufa
o acúmulo de gases poluentes na atmosfera, que está fazendo a temperatura
da Terra subir assustadoramente. O ambicioso trabalho resultou num relatório
batizado de "Estudo Stern", lançado na semana passada na Inglaterra e recebido
com barulho pelos ambientalistas. Nele, Stern discorre sobre os prejuízos
econômicos no mundo com o aquecimento global, que chegam à cifra
monumental dos 7 trilhões de dólares, e faz um alerta urgente: "É
preciso agir agora". Nesta entrevista, concedida por telefone de Londres, Stern
explica como o homem deve se preparar para habitar um planeta mais quente e instável,
elogia as pesquisas do Brasil na área de biocombustíveis e avisa
que os efeitos mais duros do aquecimento global recairão sobre os países
mais pobres. A seguir, a entrevista. Veja
Qual o impacto que o aquecimento global terá sobre a economia
mundial se nada for feito para melhorar a situação atual? Stern
Se deixarmos as coisas tal como estão hoje, o planeta vai perder
entre 5% e 20% do PIB mundial. Estamos falando, portanto, de perdas que podem
chegar a cerca de 7 trilhões de dólares. O porcentual muda bastante,
de 5% a 20%, porque depende das variáveis inseridas no cálculo.
No nosso estudo, falamos em 20% porque fazemos uma abordagem mais ampla, incluindo
estimativas sobre o impacto que o aquecimento global terá sobre a vida
dos mais pobres, sobre os gastos com saúde pública etc. Claro que
não são números precisos, porque é impossível
prever com segurança hoje impactos que serão efetivamente sentidos
dentro de algumas décadas. Veja
Dentro de quanto tempo o mundo começará a sentir os
efeitos do aquecimento global? Stern Dentro de quarenta a cinqüenta
anos sentiremos o impacto do que já fizemos contra o planeta. São
efeitos que aparecerão na forma de desastres naturais, como secas, enchentes
e furacões progressivamente mais intensos. Não importa o que fizermos
agora, esses efeitos serão sentidos, eles já são inevitáveis.
Assim, tudo o que fizermos nas próximas duas ou três décadas
só terá impacto no fim deste século.
Veja O que é preciso fazer? Stern
Está claro que temos de diminuir os níveis da emissão
global de gases poluentes, como o gás metano que sai das mineradoras e
o dióxido de carbono dos automóveis, fábricas, aviões.
A redução desses gases não pode demorar mais do que vinte
anos. Se for feita, poderá diminuir grandemente os riscos que o planeta
corre. Calculamos que o custo de fazer essa redução de gases corresponderia
a cerca de 1% do PIB mundial nos próximos anos. O certo é que, se
começarmos a investir seriamente em tecnologias limpas, por volta de 2050
atingiremos um patamar de menor agressão ao meio ambiente. Mas, claro,
sempre pode demorar muito mais. Veja
Com 1% do PIB de investimento podemos chegar a um nível aceitável
de emissão de gases? Stern Sim. Um gasto dessa magnitude
nos levaria a grandes descobertas em termos tecnológicos. Estaríamos
dirigindo carros movidos a hidrogênio e os biocombustíveis seriam
uma realidade. Também conseguiríamos gerar eletricidade abundante
por meio da energia solar, da energia nuclear, do vento e da água. É
muito importante que países dependentes de carvão, e há muitos
nessa situação, aprendam a explorá-lo e a estocá-lo
de forma adequada. Sabemos que países como a Índia, a China, a Austrália,
os Estados Unidos e a Polônia têm grandes reservas de carvão.
Isso significa que, dentro de muitos anos, esses países ainda estarão
usando carvão para gerar eletricidade, o que é altamente poluente.
Somente agora estamos aprendendo a explorar o carbono e a guardá-lo de
novo no solo, e essa é uma tecnologia fundamental. Portanto, é imperativo
que haja incentivos para reduzir a produção de materiais com carbono.
O nosso estudo é otimista, mas só haverá uma mudança
de rumo se todos os países agirem em conjunto. Nenhum país pode
resolver esse problema sozinho. Veja
Por que os países pobres serão mais atingidos pelas
mudanças climáticas? Stern Por várias
razões. Uma é a geografia: os países mais próximos
à linha do Equador sofrerão duramente, porque são os mais
quentes. É onde estão os países mais pobres, por um azar
geográfico. Outro fator é a limitação das atividades
econômicas desses países. Países mais pobres têm economia
centrada em atividades agrícolas, setor mais vulnerável às
mudanças climáticas que sofreremos. Em terceiro, os países
pobres dispõem de menos dinheiro para investir em formas de se proteger
contra os efeitos do aquecimento global. Nesses lugares, há menos dinheiro
para gastar em infra-estrutura e na adaptação necessária
para protegê-los. Veja
Em seu estudo, o senhor calcula que os países pobres poderão
perder até 10% do PIB. Não é um cálculo exagerado?
Stern As perdas econômicas para os países
pobres realmente serão bem maiores do que as verificadas nos países
desenvolvidos. Esse número deve variar com o tempo daqui em diante. Será
menos do que 10% agora e mais do que isso depois. É uma questão
de risco, de probabilidades. Pode vir a ser menos do que isso ou mais do que isso.
O aumento das perdas se dará com o tempo, e isso será pior nos países
pobres. Veja
O esforço global para reduzir a emissão de gases poluentes pode
prescindir do apoio dos Estados Unidos, que são responsáveis por
36% das emissões? Stern Não. Claro que precisamos
que os Estados Unidos se conscientizem da necessidade de diminuir as emissões
de gases poluentes, e acho que as atitudes e as idéias dos americanos começam
a mudar. Eles estão desenvolvendo iniciativas significativas na Califórnia
e em importantes cidades do nordeste. O governo americano vem tomando medidas
para promover o desenvolvimento de novas tecnologias. Apesar de não terem
apoiado o Tratado de Kioto, os Estados Unidos estão começando a
mudar. E não são os únicos. A Índia e a China também
estão mudando. Na China, já foram definidas fortes metas de eficiência
no uso de energia. O objetivo é cortar em 20% o desperdício nos
próximos cinco anos. Acredito que o mundo já começou a entender
a importância dos impactos do aquecimento global, mas precisa agir mais
rápido para mitigar os prejuízos. Todos os países têm
de trabalhar para isso, porque todos contribuem para essa situação.
Sozinho, nenhum país pode diminuir os níveis de emissão de
forma significativa. O Brasil, por exemplo, é um caso especial de país
que pode contribuir de maneiras eficazes para esse esforço global.
Veja Por quê?
Stern Porque o Brasil utiliza mais energia hidrelétrica do que
os outros países. Também investe pesadamente no desenvolvimento
de biocombustíveis. Além disso, tem uma grande área de florestas.
O Brasil vem contribuindo enormemente em termos de pesquisa em novas tecnologias.
Eu penso que, se conseguirmos descobrir como cultivar biocombustíveis em
terras menos nobres, em vez de produzi-los em terras férteis, será
uma tremenda contribuição para o uso de energias limpas. O etanol,
por exemplo, é uma boa forma de energia limpa, mas são necessárias
terras nobres para cultivar cana. Seria um grande passo conseguir produzir celulose
ou óleos vegetais em terras pobres. O Brasil tem grandes áreas de
terra pobre, assim como a Ásia Central e a América do Norte.
Veja Existe tecnologia
disponível para cultivar biocombustíveis em terras inférteis?
Stern Essa tecnologia está quase disponível.
Com ela, o Brasil terá contribuído enormemente para diminuir o aquecimento
global. Outra contribuição se dá na luta pela preservação
das florestas. Estive no Brasil em abril deste ano e participei de debates interessantes
sobre o uso de menos carbono na economia. Foi uma visita muito produtiva. Pretendo
voltar ao Brasil para investigar as possibilidades de produção de
energias limpas, porque o país tem se mostrado original nessa área.
O Brasil também está pensando e agindo na questão do desmatamento
da Amazônia. Para mim, o mundo é o maior beneficiário da diminuição
do desmatamento. Claro que o Brasil se beneficia igualmente disso, mas, como beneficiário,
o resto do mundo deveria ajudar o Brasil e aqueles países onde as florestas
ainda resistem. Eles precisam receber assistência. É a terra deles
e eles têm de decidir a estratégia e a política para isso.
Mas me parece que o resto do mundo deveria ajudar o Brasil, a Indonésia
e a Malásia, países que ainda têm florestas.
Veja A ministra do Meio Ambiente do Brasil,
Marina Silva, sugeriu recentemente a criação de um fundo internacional
de proteção à Amazônia. É uma utopia ou uma
idéia factível? Stern É uma idéia
excelente. É justamente o tipo de iniciativa que acreditamos ser importante.
O ministro das Finanças da Inglaterra, Gordon Brown, disse que vai trabalhar
junto ao Banco Mundial para tentar obter apoio internacional para esse tipo de
iniciativa. Acredito que a discussão sobre o aquecimento global está
se movendo no sentido de apoiar ações como essa.
Veja O senhor está otimista quanto
à perspectiva de conservação da Floresta Amazônica?
Stern A conservação é fundamental, mas a ameaça
à Amazônia também vem do aumento da temperatura global. A
seca da Amazônia pode afetar profundamente o Brasil. Então, é
importante que o país seja um dos líderes mundiais na demanda por
fortes medidas para mitigar as emissões globais de gases poluentes. O Brasil
sofreria pesadamente se a Amazônia morresse. Se as montanhas de neve dos
Andes, fonte de boa parte da água na América do Sul, começarem
a derreter, isso significará uma grande perturbação nas correntes
de água do continente. O Brasil tem muito a perder. Portanto, é
importante que o país continue algo que já começou: a pressão
por ações internacionais. Essa pressão permanente, junto
com o papel do país no desenvolvimento de biocombustíveis e o esforço
para proteger as florestas, faz do Brasil um ator extremamente importante na luta
pela diminuição das emissões de gases poluentes.
Veja O que pode acontecer
com a Amazônia se as emissões de gases poluentes não forem
reduzidas? Stern Há modelos científicos que sugerem
que dentro de cinqüenta ou 100 anos a Amazônia pode secar e morrer.
Isso se continuarmos no mesmo nível de emissões em que estamos agora.
Não falta tanto tempo assim. Pode acontecer durante a vida de nossos filhos
e netos. Temos de agir fortemente nos próximos vinte anos para reduzir
os riscos de que isso aconteça. Mas não há nada certo aqui.
Estamos falando de investir agora para controlar e reduzir riscos de que tragédias
ocorram. Veja
O que o Brasil pode fazer? Stern O desenvolvimento de
tecnologias diferentes é fundamental. O Brasil é líder no
desenvolvimento de biocombustíveis e pode mostrar ao resto do mundo que
isso não custa tanto e não é tão difícil assim,
que outros países podem seguir em sentido parecido. Preciso enfatizar que
ir além do etanol é muito importante, devido à necessidade
de terras nobres para cultivar cana. O Brasil também pode dividir sua tecnologia
e suas idéias com outros países pobres. O Brasil, a África
do Sul e a Inglaterra estão trabalhando juntos com outros países
africanos, como Moçambique e Angola, para implantar algumas dessas idéias
lá. Uma coisa é desenvolver tecnologias, e outra é disseminá-las
e dividi-las. O Brasil será um líder nisso.
Veja O que o senhor achou da proposta de
"internacionalizar" a Amazônia, sugerida por David Miliband, secretário
do Meio Ambiente do governo britânico? Stern Prefiro não
comentar sobre propostas específicas, mas o nosso estudo tem um capítulo
sobre desmatamento de florestas. Nesse capítulo, dizemos que o país
onde a árvore fica deve ser o responsável por protegê-la.
Mas o resto do mundo, que se beneficiaria do fim do desmatamento, deveria ajudar
os países que estão fazendo esforços para cessar o desmatamento.
Porém, cabe ao país, sozinho, determinar sua forma de trabalhar.
E isso por duas razões. Em primeiro lugar, por uma questão de soberania
e, em segundo, porque o país saberá bem melhor do que qualquer estrangeiro
o que fazer. Veja
No seu estudo, o senhor cita a China e a Índia como exemplos de países
que se tornarão grandes poluidores e que vão contribuir para o aumento
das emissões de gases poluentes. Por que o Brasil, também tido como
um país com grande potencial de crescimento econômico, não
está nessa lista? Stern O Brasil é um país
relevante no cenário internacional, mas é menor e não vem
crescendo tão rápido quanto a China e a Índia. Além
disso, está investindo em tipos diferentes de tecnologia, como a hidreletricidade
e os biocombustíveis, e deve ter um futuro menos poluente. Mesmo assim,
o Brasil ainda é responsável por um grande nível de emissão
de gases poluentes, aspecto no qual o desmatamento das florestas tem peso importante.
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