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André
Petry O uísque do governo
"Que
ninguém duvide de que qualquer governo, tucano ou petista, faria tudo
para garantir vida longa à CPMF e seus monumentais 30
bilhões de reais" Em
American Graffiti, um dos primeiros filmes do cineasta George Lucas, lançado
no Brasil sob o título Loucuras de Verão, há uma cena
em que um adolescente entra numa lojinha de conveniência, contempla maravilhado
a seqüência interminável de garrafas de uísque expostas
nas prateleiras e começa a fazer seu pedido ao atendente. Pede uma barra
de chocolate, uma caneta, um pedaço de carne seca, uma garrafa de uísque,
umas pilhas... Quase que de forma mecânica, o atendente foi colocando cada
pedido sobre o balcão e está prestes a fechar a embalagem com tudo
dentro para entregar ao comprador quando se dá conta de um detalhe fundamental:
"Você tem carteira de identidade para comprar o uísque?". O plano
do adolescente falhara. Ele não tinha idade para comprar a bebida. E a
lista de compras era propositadamente extensa apenas para encobrir o único
produto que realmente lhe interessava: a garrafa de uísque.
Pois, na semana passada, na primeira reunião de trabalho no Palácio
do Planalto depois da reeleição, Lula encontrou-se com quatro ministros
e com o presidente do Banco Central e pareciam à beira do balcão
de uma loja de conveniência. Na reunião, os ministros levaram uma
lista com cinqüenta idéias capazes de ajudar o país a crescer
a 5% do PIB nos próximos quatro anos. Listaram providências importantíssimas,
todas muito vagas, amplas e subjetivas como reduzir o custo dos investimentos,
diminuir a carga tributária para setores estratégicos, enxugar as
despesas da máquina pública... Tudo muito aéreo, mas, à
certa altura da lista interminável, perdida como se não merecesse
nenhum destaque ou atenção especial, aparecia uma das poucas medidas
precisas e claras do pacote: "prorrogação da CPMF". Bingo. É
o uísque do governo. Listaram cinqüenta idéias, mas o que realmente
interessa é prorrogar a CPMF. O resto é pilha e chocolate.
CPMF é a sigla de contribuição provisória sobre movimentação
financeira, conhecida como "imposto do cheque". Foi criada em 1997, com o objetivo
de injetar dinheiro na saúde. Deveria durar apenas o tempo necessário
para que o governo de então reorganizasse suas contas e encaminhasse a
reforma tributária. Daí porque se chamava "provisória". Com
as sucessivas prorrogações, já virou uma contribuição
permanente e está prestes a completar sua primeira década de vida.
Hoje, a CPMF recolhe cerca de 30 bilhões de reais anuais para o governo,
e o dinheiro, naturalmente, não vai apenas para a saúde mas serve
para tapar vários buracos.
Que ninguém duvide da honestidade das intenções do presidente
e de seus ministros sobre o crescimento econômico. Não resta dúvida
de que querem, sim, que o país cresça a 5% do PIB ou mais. Que ninguém
duvide de que qualquer governo, tucano ou petista, faria tudo para garantir vida
longa à CPMF e seus monumentais 30 bilhões de reais. Mas, dadas
a tradição tributária brasileira e a imensa capacidade que
o governo petista já demonstrou para fazer coisas com rapidez e eficiência,
também não vale duvidar de que as cinqüenta providências
importantíssimas possam vir a cair uma depois da outra até
restar apenas, triunfal e soberana, a prorrogação da CPMF.
No filme, o golpe não dá certo. O Brasil não é um
filme. |