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TELEVISÃO

Estrelando Ray Milland (segunda a domingo, às 22h, no Telecine Classic) – Lançado em meados dos anos 40, o drama Farrapo Humano foi um divisor de águas no cinema. Depois que o astro galês Ray Milland (1907-1986) encarnou Don Birnam, escritor que perde tudo na vida por causa do alcoolismo, abriram-se as portas de Hollywood para uma vasta galeria de personagens marginalizados e sofridos, de viciados em drogas a meretrizes – tipos que até hoje rendem fartas bilheterias. O clássico dirigido por Billy Wilder, a ser exibido na quarta-feira, é a melhor pedida deste ciclo com sete fitas estreladas pelo ator. Há razões de sobra, no entanto, para ficar ligado no restante da programação. Com mais de 150 trabalhos no currículo, Milland viveu os tempos de ouro do cinema noir. São dessa época Quando Desceram as Trevas (terça), suspense do cineasta Fritz Lang, e o fantasmagórico O Solar das Almas Perdidas (quinta).

 

DISCO

The Best Of, Blur (EMI) – No início dos anos 90, as bandas Blur e Oasis tentaram imitar o clima de rivalidade que ditou a carreira dos Beatles e dos Rolling Stones na década de 60. As duas atacavam-se mutuamente pela imprensa e lançavam compactos ao mesmo tempo, só para conferir qual era a preferida do público inglês. É certo que boa parte dos duelos foi ganha pelo Oasis, mas o Blur, como mostra esta coletânea, sempre foi mais versátil. A banda tem uma trajetória interessante. Ela atualizou o som psicodélico de conjuntos como Kinks e The Who – ícones do rock britânico dos anos 60 – e flertou com a androginia (como na faixa Girls & Boys). A melhor fase do grupo, no entanto, ocorreu a partir de 1997, com o lançamento do CD Blur. As fontes musicais do Blur, daí em diante, foram o rock independente e o gospel americanos. Desse namoro surgiram as grandes faixas da coletânea: Beetlebum e Song 2 (que fez sucesso depois de ser incluída em um videogame de futebol) e a balada Tender.

 

LIVRO

A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells (tradução de Marcos Bagno; Nova Alexandria; 208 páginas; 16 reais) – Em 1938, o cineasta e ator Orson Welles leu trechos deste livro em seu programa de rádio. Apavorados, milhares de americanos saíram correndo de casa certos de que a Terra estava sendo invadida por marcianos. Lançado quarenta anos antes do episódio, A Guerra dos Mundos narrava a destruição do planeta perpetrada por alienígenas. Encapuzados e vestindo armaduras, eles descem na Inglaterra a bordo de "máquinas de guerra" – objetos semelhantes a discos voadores que se movem sobre três pernas imensas e destroem tudo ao redor com raios de luz. Nascido em 1866, o britânico Herbert George Wells é, ao lado de Júlio Verne, um dos criadores do gênero ficção científica. Numa época em que o carro e a eletricidade eram as maiores conquistas da tecnologia, ele imaginou robôs e viagens interplanetárias que ajudaram a moldar o imaginário do "futuro" de que se alimentou o século XX.

 

DVD

The Complete Picture, The Smiths (WEA) – Liderada pelo cantor Morrissey e pelo guitarrista Johnny Marr, a banda inglesa Smiths tinha uma maneira peculiar de produzir videoclipes. A princípio, eles detestavam fazer caras e bocas para uma câmara. Isso explica o fato de boa parte das imagens deste DVD ser roubada de aparições da banda em programas de televisão. Mais tarde, no entanto, o grupo se associou ao cineasta inglês Derek Jarman – e ele criou curiosos roteiros para ilustrar canções como Panic. Os Smiths foram uma das bandas seminais dos anos 80, graças a uma receita musical que incluía boas influências literárias (Morrissey é fã de Oscar Wilde e Rimbaud) e uma das guitarras mais classudas da história do rock. Seus clipes também eram únicos. Por tudo isso, The Complete Picture é imperdível.

 

LITERATURA BRASILEIRA

O que aconteceu, aconteceu

Jacó Guinsburg
Ateliê Editorial
205 páginas;
22 reais

Na literatura brasileira, há uma fartura de obras célebres sobre o sertanejo, o gaúcho ou o caipira. Mas faltam textos de qualidade artística sobre o japonês, o árabe ou o alemão. Em outras palavras: não existe ficção de peso sobre os imigrantes. É possível contar nos dedos os autores que se dedicaram com algum afinco a explorar esse tema. Alcântara Machado deixou deliciosos contos modernistas sobre os italianos de São Paulo – e por certo teria escrito mais sobre a cidade multirracial que começava a desenhar-se nas décadas de 20 e 30, não fosse sua morte prematura. Jorge Amado teceu retratos divertidos de "turcos" em vários de seus romances. Mais recentemente, temos Moacyr Scliar, que já escreveu muito sobre os judeus de Porto Alegre, e Milton Hatoum, que até agora dedicou toda sua obra ficcional aos libaneses do Amazonas. Se ficou gente de fora dessa lista, não foram muitos. Mas o time acaba de receber um novo jogador. Mais conhecido como crítico literário, tradutor e dono da editora Perspectiva, Jacó Guinsburg acaba de lançar uma excelente coletânea de contos, O Que Aconteceu, Aconteceu. O livro reúne 29 narrativas curtas, todas centradas na experiência dos judeus em São Paulo.

Alguns textos de Guinsburg se aproximam do presente. A maior e melhor parte, no entanto, volta-se para as décadas de 30 a 50. O autor faz então, para o bairro judaico do Bom Retiro, algo semelhante àquilo que Alcântara Machado fez para os recantos italianos do Brás, do Bexiga e da Barra Funda. Ele evoca o cotidiano de pessoas recém-chegadas da Europa, como vendedores ambulantes que mal conseguem se expressar em português (O Que Foi Que Ela Disse?). Fala de gente que se acomodou no Brasil, mas ainda se sente ligada à terra natal (Figuras na Sombra). Ou ainda de jovens que já nasceram aqui, mas não se integraram plenamente e enfrentam a discriminação (Linho 120). É importante lembrar, no entanto, que Alcântara Machado tinha o texto elétrico dos modernistas, gostava de paródias e descreveu a imigração enquanto ela ainda acontecia. Guinsburg, por outro lado, está empenhado na tarefa de relembrar o passado. Em seus melhores momentos, ele consegue recuperar formas de expressão levemente anacrônicas, que dão um sabor especial a seus textos. Um certo perfume nostálgico desprende-se do livro. Mas o autor também sabe que "o que aconteceu, aconteceu". Não fica restrito à saudade, o que ajuda a ampliar o interesse de seus contos para além de um círculo de leitores puramente judaico.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.

 

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