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Roberto
Pompeu de Toledo
Sobre o chato
e o não
chato,
na política
E
ainda, em
caráter exclusivo:
a
cabal
e definitiva
tradução
do
recado contido
das
urnas
Não.
Seria uma chatice. Dois expoentes, dos maiores, do colunismo político
no Brasil, Dora Kramer e Villas-Bôas Corrêa, reagiram
assim quando, no programa Observatório da Imprensa,
levado ao ar pela Rede Pública de Televisão, lhes
perguntaram se, na cobertura de imprensa da campanha eleitoral,
não teria faltado discutir mais os conteúdos, vale
dizer, os problemas concretos da vida real, e as idéias dos
candidatos para enfrentá-los. Cobertura que insistisse nos
conteúdos ficaria maçante, disseram. Dora Kramer,
perspicaz como sempre, foi ao cerne da questão ao acrescentar
que os jornalistas, enquanto hipocritamente cobram conteúdo
dos candidatos, no fundo torcem para que não faltem as denúncias
escabrosas e os confrontos sangrentos.
Reconheça-se
que assistir a uma boa briga não é mau programa. Dito
isso, permitam-se algumas dúvidas. Será que discutir
os conteúdos é chato mesmo? Em caso positivo, chato
para quem? Para o público? Ou, mais propriamente, para os
jornalistas? Não é o caso de Dora Kramer ou Villas-Bôas
Corrêa, dois profissionais de primeira ordem, mas o jornalista,
de modo geral, e a cobertura jornalística, por conseqüência,
têm a tendência a fixar-se na política pela política.
Quer dizer: a política pura, como jogo, como competição
entre os partidos. O moto-contínuo do quem leva o quê,
quem está melhor nas pesquisas e quem se mostra em vantagem
para o próximo lance eleitoral. É uma espécie
de concepção narcisística da política,
em que ela se apresenta voltada para si mesma, girando em torno
do próprio eixo como pião.
Tal
maneira de abordar a política tende a sufocar os conteúdos.
Será que é disso que o público gosta? Se gostasse,
devia se mostrar tão fascinado quanto pelas novelas. Como
não se mostra, presume-se que, vai ver, para a maioria, isso
sim é que é chatice.
Em
janeiro de 1995, na época da abertura da sessão legislativa,
nos Estados Unidos, o presidente Clinton apresentou-se em eventos
organizados por diferentes setores da sociedade. Foi a um encontro
de estudantes secundaristas em Boston, por exemplo. Estes prepararam
uma pauta de perguntas tais como: "Que pode ser feito para coibir
a venda de armas a jovens?" Ou: "O governo não poderia organizar
programas de treinamento profissional para jovens que não
vão à escola?" Na mesma época Clinton deu entrevistas
às três principais cadeias de TV. O tema dominante
foram suas relações com um Congresso em que o Partido
Republicano, nas recentes eleições, tinha obtido considerável
avanço. Política pura, claro.
Esse
caso, citado num livro do jornalista americano James Fallows (Breaking
the News, ou Detonando a Notícia, na tradução
brasileira), mostra que, lá como cá, jornalista gosta
da política em sua versão narcisística. Quando
é ao público que cabe fazer as perguntas e
isso é verdade aqui também , elas tendem a versar
sobre questões de conteúdo. Vai ver, o público
não acha essas coisas tão chatas.
Uma
das síndromes mais características da abordagem da
política pela política configura-se no impulso de,
mal terminada uma eleição, tentar adivinhar a próxima.
É uma espécie de gula: mal termina uma refeição,
já se está morto de fome pela seguinte. Os jornais,
nos últimos dias, estiveram repletos de 2002. Formularam-se
hipóteses, compuseram-se cenários, cravaram-se previsões
terminantes. Claro que se alguém guardar essas previsões
e, daqui a dois anos, compará-las com o que aconteceu, verificará
que estava tudo errado, mas como ninguém se dá a esse
trabalho fica por isso mesmo. No programa Roda Viva, da TV
Cultura de São Paulo, na última segunda-feira, um
jornalista torturou a prefeita eleita Marta Suplicy com uma elaborada
pergunta. Com base na eleição municipal, e dado isso
e dado aquilo, e considerando mais isto e mais aquilo, não
achava ela que, em 2002, aquilo outro? A resposta da prefeita foi:
"Como é que eu vou saber?"
Grande
Marta!
Há,
finalmente, o "recado das urnas". Todo mundo é especialista
em interpretar o recado das urnas. Para não fugir à
regra permita-se que se encerrem estas linhas com uma modesta contribuição
nesse sentido. Estas eleições resultaram em esmagadora
vitória da oposição, só comparável,
em tamanho e densidade, à que, de maneira igualmente nítida,
contemplou a situação. O eleitorado votou maciçamente
em candidatos éticos. Só deixou de fazê-lo quando,
para não perder o costume, premiou, na mesma proporção,
conhecidos ladrões. Revelou-se um manifesto desejo de ruptura,
só comparável a igual desejo de continuidade, tudo
resultando em claro sinal de uma audácia prudente, ou de
uma opção pelo avanço sem fechar as portas
para a possibilidade sempre presente do recuo. Em suma, evidenciou-se,
da parte do eleitorado, um sensível descontentamento, temperado
de compensadora satisfação. Pelo que se conclui que
em 2002, se não tomar cuidado, a oposição sofrerá
punição igual à que, desde já, pode-se
apostar que recairá sobre o governo.
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