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Sem relógio de ponto

Empresas ampliam a adoção de horário
flexível para entrada e saída no trabalho,

com benefícios para os funcionários

Maurício Oliveira

Ricardo Benichio

Ana Maria, da AGF, vai à academia: dia mais saudável

Cada vez mais brasileiros estão conseguindo realizar um velho desejo: conciliar a jornada de trabalho com os compromissos e as necessidades da vida pessoal. O privilégio de passar na academia de ginástica antes do expediente, dar uma escapadinha no meio da tarde para ir ao dentista ou sair mais cedo para buscar os filhos no colégio deixou de ser exclusividade dos profissionais liberais, dos patrões ou de executivos em cargos muito elevados. Grandes companhias estão percebendo que abolir a rigidez nos horários de entrada e de saída aumenta a satisfação dos funcionários e pode ser uma providência fundamental para atrair e manter os bons profissionais. A tendência está se espalhando rapidamente e já atinge, em graus variados e em departamentos diferentes, 73% das maiores empresas instaladas no Brasil, de acordo com pesquisa da Hewitt Associates, uma das principais consultorias de recursos humanos do mundo. É um número próximo ao dos Estados Unidos, onde o porcentual de companhias que oferecem o benefício saltou de 50% para 80% nos últimos dez anos.

A forma mais comum de flexibilidade adotada no Brasil ainda não permite liberdade plena, mas representa um avanço significativo em relação aos tempos em que o cartão de ponto reinava soberano. Nela, as empresas oferecem alternativas ao horário padrão, sem, contudo, abrir mão do controle sobre a quantidade de horas trabalhadas. É o caso da seguradora AGF, que, em São Paulo, estipulou um horário-núcleo, entre 9h30 e 16h30, em que todos devem estar na empresa. As duas horas que restam para completar o expediente são administradas pelo próprio empregado, que pode cumpri-las pela manhã, à tarde ou simplesmente deixá-las para outro dia – desde que, no final do mês, tenha cumprido a carga estipulada. A analista administrativa Ana Maria Carneiro tem aproveitado. Antes, começava a trabalhar às 7h30 para sair às 16h30 e liberar a empregada que cuidava dos filhos. Agora, que pode chegar mais tarde em casa, passou a malhar antes de iniciar o expediente, às 9h30. "Estou com mais disposição", diz Ana Maria. Na farmacêutica Bristol-Myers Squibb, há esquema semelhante. A assistente social Clores Santos optou por iniciar o expediente mais cedo para sair às 16 horas. "Chego em casa com o dia claro e, no ano que vem, vou voltar para a faculdade", planeja Clores, que pretende fazer administração de empresas.

A prática atinge empresas de todos os setores. Entre as que já têm projetos em estágio avançado estão, por exemplo, Avon, Dow Química, Xerox, Gerdau, Kodak, Levis e Algar. Porém, apesar de estar bem difundida no mercado brasileiro, a iniciativa ainda não atinge os cargos de menor remuneração. Na pesquisa da Hewitt, apenas 35% dos funcionários das 131 companhias que disseram empregar o horário flexível têm chance de optar pelo esquema. Boa parte deles ocupa cargos de nível hierárquico superior – diretores, gerentes e consultores. Nas posições mais simples, a possibilidade de escapar da ditadura do relógio continua distante. Para diversos ramos de atividade, os especialistas em recursos humanos argumentam que a flexibilização representaria prejuízo no atendimento ao público, no relacionamento com outras corporações ou na produção em série. Mas a principal causa da resistência é mesmo cultural. "Muitas empresas receiam conceder liberdade plena de horário porque desconfiam que os empregados abusariam desse direito", diz Andrea Huggard-Caine, presidente no Brasil da Hewitt. "A maior parte dos chefes ainda acredita que produtividade se mede pela quantidade de horas que o funcionário permanece na empresa", acrescenta Patrícia Molino, diretora da consultoria KPMG.

Nas corporações em que cada profissional tem autonomia para administrar o próprio tempo e realizar as tarefas da forma que julgar conveniente, está ocorrendo exatamente o contrário do que se temia: é comum encontrar quem trabalhe doze ou mais horas por dia. "Para controlar os excessos, estamos até fazendo campanha de conscientização sobre a importância das férias", descreve o diretor de recursos humanos da Oracle, André Rapoport. A Merck Sharp & Dohme adotou uma solução drástica: o setor de manutenção tem ordem para apagar as luzes do prédio às 10 da noite, sem verificar se ainda há alguém trabalhando. "Existe um tipo de funcionário que adora ficar no escritório, mesmo que o volume de serviço não exija", diz o diretor de assuntos corporativos, Marcos Levy. Mas, de acordo com os consultores, está em baixa o prestígio dos viciados em trabalho, que estiveram em voga nos anos 80 mas perderam fôlego desde então. Hoje, o que as empresas querem é alguém que tenha outras preocupações na vida – família, lazer, filantropia. Retoma-se, assim, a tendência histórica que fez o número de horas dedicadas ao trabalho cair gradativamente no decorrer do século XX. Na década de 10, os brasileiros trabalhavam, em média, cerca de 3.000 horas por ano. Com a mecanização e o surgimento de benefícios como as férias remuneradas, esse índice caiu drasticamente. Atualmente, a média é de 2.000 horas anuais. Estima-se que um número cada vez maior de companhias evolua para formas mais sofisticadas de flexibilidade, permitindo que os funcionários trabalhem parte do tempo em casa ou reduzindo a jornada semanal para quatro dias. "A geração que está entrando agora no mercado tem outra mentalidade e vai fazer o máximo para encontrar o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal", diz Andrea Huggard-Caine, da Hewitt. "Afinal, quem viu os pais trabalharem feito loucos a vida toda para ser demitidos aos 50 anos não quer repetir o erro."

 

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