Com jeitinho
e na surdina
Na
moita, Caixa planeja pôr 1,6
bilhão
de reais em seu fundo de
pensão para
cobrir rombo
Ana
d'Angelo, de Brasília
Ana Araújo
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| Prédio
da CEF, em Brasília: negociações a portas fechadas |
Ninguém precisa ser especialista em contas públicas
para saber que em Brasília falta dinheiro. A maioria do funcionalismo
não tem reajuste salarial há seis anos. A equipe econômica,
guardiã do ajuste fiscal, joga pesado com os prefeitos eleitos
que já começaram a pedir a renegociação
de suas dívidas. Governo e Congresso quebram a cabeça
para descobrir uma fonte de recursos capaz de sustentar um aumento
do salário mínimo de 151 reais para 180 reais. Tudo
isso mostra que o dinheiro anda escasso em Brasília
mas a penúria não vale para todos. Na semana passada,
soube-se que a Caixa Econômica Federal (CEF) e a Funcef, o
fundo de pensão dos funcionários do banco, estão
a um passo de concluir um acordo que vem sendo negociado na surdina:
a Caixa vai despejar 1,6 bilhão de reais nos cofres da Funcef,
tudo para garantir, sem sobressalto, a aposentadoria futura de,
no máximo, 55.000 funcionários
do banco. Com esse dinheiro, daria para bancar o aumento do salário
mínimo para 6,5 milhões de velhinhos do Instituto
Nacional do Seguro Social.
O
acordo tem todos os ingredientes de um privilégio. Negociado
a portas fechadas, como convém a tudo que é melhor
esconder do que divulgar, o aporte de 1,6 bilhão de reais
tem uma origem polêmica. Em teoria, destina-se a cobrir gastos
adicionais que a Funcef terá em virtude de mudanças
introduzidas no sistema de previdência complementar. Mas de
quanto é a despesa adicional? "Não sei", desconversa
o diretor financeiro da Caixa, Valdery Albuquerque, que participa
das negociações para fechar o acordo. Ele admite,
no entanto, que os gastos extras da Funcef provocados pelas novidades
no sistema previdenciário são inferiores a 1,6 bilhão
de reais. Se os gastos não chegam a tanto, cabe a indagação:
por que a Caixa, em tempos de vacas magras, decidiu ser tão
generosa com o fundo de pensão de seus funcionários
e vai desembolsar além do devido? É onde aparece a
parte feia da história. O banco e o fundo, na verdade, estão
aproveitando a ocasião para cobrir um rombo aberto no passado
por práticas um tanto heterodoxas.
Uma
auditoria do Tribunal de Contas da União, feita em 1991,
descobriu que a Funcef tinha um buraco de mais de 1 bilhão
de reais em suas contas. Descobriu, também, que o rombo era
resultado de investimentos malfeitos, irregularidades nas aplicações
e concessão de benefícios generosos demais
a Funcef chegava a brindar seus beneficiários com pagamentos
iguais ao salário da ativa mesmo para quem não tinha
cumprido o tempo de serviço exigido por lei ou contribuído
sobre o valor do salário. Na época, o TCU também
soube que a Caixa vinha cobrindo os rombos deixados por essas mazelas.
Em 1995, o tribunal mandou que o banco não pagasse mais nem
um centavo. A pendenga foi parar na Justiça: a Caixa deve
ou não seguir cobrindo o rombo? No início do ano,
antes que a Justiça decidisse a parada, e desrespeitando
a recomendação do TCU, banco e fundo resolveram acertar-se
amigavelmente. Logo, chegaram a um consenso: a Caixa tinha, sim,
de cobrir o rombo.
Agora,
só falta decidir a forma do pagamento. A decisão final
deve ser sacramentada neste mês, em reunião do conselho
de administração do banco. Será interessante
observar o comportamento dos membros do conselho de administração.
Afinal, entre seus sete conselheiros, três são graduados
representantes da equipe econômica do governo, a mesma que,
em nome do ajuste fiscal, não costuma abrir as torneiras
com facilidade. Um dos membros dessa equipe com assento no conselho
é Amaury Bier, braço direito do ministro Pedro Malan,
da Fazenda. As conseqüências do aporte de 1,6 bilhão
de reais serão sentidas pelo Tesouro Nacional. No ano passado,
a Caixa registrou um lucro de 400 milhões de reais. Neste
ano, estima-se, até agora, que possa fazer um lucro de 250
milhões de reais. Caso desembolse 1,6 bilhão para
a Funcef, o lucro, naturalmente, se evapora e o Tesouro deixará
de receber dividendos. Em outras palavras: se o banco realmente
cobrir o rombo da Funcef, o custo será bancado pelo meu,
seu, nosso dinheiro.
JJ Leister/AE
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Lindauro Gomes/ Ag. Estado
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Com
Ricardo Mansur, que faliu o Mappin, a Funcef torrou mais de
100 milhões
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Num
negócio com o ex-banqueiro Cacciola, a Funcef perdeu
22 milhões
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Há
outros dois aspectos inconvenientes no aporte de 1,6 bilhão.
Primeiro: a administração da Funcef, além dos
problemas verificados pela auditoria do TCU, abusou de seu direito
de errar em investimentos. Torrou mais de 100 milhões de
reais comprando títulos e ações do Mappin,
que foi à falência nas mãos do empresário
Ricardo Mansur. Também perdeu 22 milhões de reais
fazendo negócios com uma empresa do ex-banqueiro Salvatore
Cacciola, que, para escapar da polícia, está foragido
na Itália. O segundo aspecto é o seguinte: apesar
de tudo, a Funcef está muito bem das pernas. É o quarto
maior fundo de previdência do país e, pelas suas próprias
contas, precisa de 6,1 bilhões de reais para bancar benefícios
de 16 000 aposentados e pensionistas e 55 000 funcionários
que, ainda em atividade, uma hora pedirão a aposentadoria.
No entanto, o fundo tem mais do que precisa. Conforme seu último
balanço, do final do ano passado, o patrimônio do fundo
chega a 6,5 bilhões de reais. Tem 400 milhões de reais
de sobra.
Ana Araújo
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| Solange
Vieira: sob o comando da investigação na Funcef |
Ao mesmo tempo que recebe um presente da Caixa, o fundo de pensão
passará a ser investigado. Nesta semana, a Secretaria de
Previdência Complementar, órgão do Ministério
da Previdência, começa a examinar a documentação
da Funcef para entender a compra de títulos e ações
de algumas empresas. Suspeita-se que os administradores do fundo
jogaram dinheiro demais em empresas de menos, privilegiando algumas.
A devassa será comandada por Solange Paiva Vieira, que assumiu
a Secretaria de Previdência Complementar na semana passada.
Entra em terreno pantanoso.
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