América
dos latinos
Latino-americanos
são o grupo de
maior
crescimento e já mudam costumes
nos
Estados Unidos
Angela
Pimenta, de Nova York
Mike Blake/ Reuters
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| Jennifer
Lopez: os pais da mulher mais sexy dos Estados Unidos vieram
de Porto Rico |
Em empate virtual nas pesquisas de preferência de voto para
as eleições presidenciais desta terça-feira,
o republicano George W. Bush e o democrata Al Gore têm enrolado
a língua para gravar anúncios em espanhol, cortejando
os 8 milhões de eleitores americanos que se sentem mais à
vontade na língua de Cervantes que na de Shakespeare. Numa
disputa tão apertada, eles podem muito bem fazer a diferença
e determinar quem vai instalar-se na Casa Branca. Bush até
pôs na linha de frente da campanha seu sobrinho George, cuja
mãe é mexicana. O papel destacado no cenário
político do país é a faceta mais recente da
explosão latina, a maior mudança demográfica
e cultural experimentada pelos Estados Unidos desde as grandes levas
de imigrantes europeus no século XIX. A população
de origem latino-americana aumentou 45% desde 1990, tornando-se
o grupo étnico que cresce em ritmo mais rápido. É
estimada em 32 milhões, mais ou menos a população
da Argentina, ou quase 12% dos americanos. Dentro de cinco anos,
deve suplantar os negros como a minoria mais numerosa do país.
Em 2050, um em cada quatro americanos terá raízes
na América Latina. O espanhol é o novo sotaque do
show business americano e uma onda de música latina, mais
vertiginosa que as curvas da atriz Jennifer Lopez, varre o país.
AP
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| Filho
de mexicana, sobrinho ajuda na campanha de Bush |
Os americanos os chamam genericamente "hispânicos" ou, mais
ao gosto do show biz, de "latinos". Trata-se, na verdade, de uma
imigração heterogênea, originária de
22 países, das ilhas caribenhas à Argentina. Algumas
famílias estão no país há centenas de
anos, vivendo em territórios que os Estados Unidos tomaram
à força do México, como o Texas. São
brancos, negros, índios e, evidentemente, de todas as combinações
possíveis entre as três etnias citadas no início
da frase. Os brasileiros formam um contingente de cerca de 1 milhão
de pessoas, mas nas estatísticas não são computados
como hispânicos, mas agrupados na vala comum da rubrica "outros".
Aos poucos, os latinos estão imprimindo sua marca no "american
way of life". Hoje, os 199 milhões de americanos de ascendência
européia (72% da população total que costuma
referir-se a si própria como "branca" em oposição
às minorias negra e hispânica) almoçam tacos
e nachos mexicanos em fast foods da cadeia Taco Bell, cantarolam
as músicas do porto-riquenho Ricky Martin e reverenciam o
venezuelano Luis Sojo, astro do time de beisebol Yankees, de Nova
York, campeão nacional deste ano, como um herói do
esporte nos Estados Unidos.
Nada
menos que um quarto dos jogadores de beisebol da primeira divisão
americana é recrutado por olheiros em países latino-americanos,
como é o caso de Sojo. Se bem-sucedidos, eles podem ganhar
milhões de dólares por ano. Foi o que aconteceu com
o cubano Orlando "El Duque" Hernández. Filho pobre da ilha
de Fidel, ganhava o equivalente a 8 dólares por mês
lavando banheiros na terra natal. Conseguiu escapar para os Estados
Unidos e assinou um contrato de quase 7 milhões de dólares
com o Yankees. Histórias desse tipo são reveladoras
do estágio de integração dos latinos nos Estados
Unidos. Como ocorreu com levas migratórias mais antigas,
eles começam a ascensão social por setores em que
o talento individual é mais importante que a educação.
Uma dúzia de empresários latinos já aparece
em boa colocação na lista preparada pela revista Fortune
das 1.000 maiores empresas do país.
Mas a maioria prospera com pequenos negócios, como oficinas
mecânicas, mercearias e restaurantes. Ainda assim, como grupo
étnico estão entre os mais pobres. A renda per capita
de latinos é de apenas 11.000
dólares anuais, 2.000 dólares
abaixo da dos negros e menos da metade da dos brancos não
hispânicos. Sessenta e seis por cento dos latinos não
foram à universidade, contra uma média geral de 41%.
Como
qualquer outro tipo de imigrante disposto a se adaptar à
ética protestante do trabalho e à alta competitividade
do país, os latinos encontram condições únicas
para prosperar nos Estados Unidos. As regras econômicas são
estáveis, e o sistema de saúde e a Justiça
estão entre os melhores do mundo. Como a economia americana
cresce em ritmo acelerado há quase uma década, o que
não falta é trabalho. Alguns economistas até
atribuem à presença de tantos imigrantes clandestinos
a manutenção de um índice inflacionário
estável. Isso porque seus salários miseráveis
(ainda que excelentes se comparados aos da terra natal) ajudam a
manter os preços baixos nos Estados Unidos. Com o passar
dos anos, quem consegue permanecer no país e tem condições
de legalizar sua situação dispõe de maiores
oportunidades para conquistar o sonho da casa própria, do
carro e de uma poupança em dólares. Essa é
a história do dominicano Bernardo Rodríguez, de 48
anos, que desembarcou com um visto de turista em Nova York, em 1982.
Depois de viver de biscates, Rodríguez conseguiu formar-se
em contabilidade. Hoje, casado, pai de dois filhos adolescentes,
é gerente de uma filial da empresa de remessa de valores
Dinero, situada na região do Harlem, em Nova York. "Não
posso reclamar da América", diz. "Além de formar minha
própria família, ainda mando dinheiro para meus pais."
Só
na filial em que Rodríguez trabalha, a cada mês cerca
de 1.000 imigrantes latino-americanos
enviam, em média, 250 dólares aos parentes. Esfalfando-se
e poupando mais que os americanos já estabelecidos, os latinos
hoje têm um poder aquisitivo assombroso. Gastaram 458 bilhões
de dólares no ano passado. Só recentemente esse mercado
colossal começou a atrair o interesse dos produtores de Hollywood,
da TV, da indústria de discos e até da internet. Hoje,
nada menos que 13,6 milhões de latinos, um contingente maior
que o dos negros, estão plugados na rede mundial de computadores,
que lhes oferece serviços especializados em espanhol, como
agências de namoro, sites de comércio eletrônico
e busca de empregos qualificados. Há cerca de dez anos, a
indústria fonográfica foi a primeira a farejar o potencial
do ritmo latino para o mercado americano. "Nos anos 80, os artistas
de língua espanhola não recebiam o mesmo tipo de tratamento
que os americanos", diz Sergio Lopes, vice-presidente de marketing
da Sony Music para a América Latina. Na época, a música
latina era vista como um ritmo exótico demais para o gosto
local. Além disso, os cantores latinos vestiam-se mal, não
ligavam para o guarda-roupa ou a aparência física.
Fotos AP
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Fotos AP
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| Cubanos
produzem charutos em Nova Jersey, mural latino em Los Angeles,
o cantor Ricky Martin e a estilista Carolina Herrera: influência
do ritmo e da cultura latino-americana |
Foi
então que, no começo dos anos 90, a Sony resolveu
investir para valer no espanhol Julio Iglesias e na cubana Gloria
Estefan, garantindo-lhes uma produção musical
de arranjos a mixagem com o mesmo padrão de um Michael
Jackson ou de uma Madonna. O sucesso de Julio e de Gloria (mais
de 60 milhões de discos vendidos) no mercado americano abriu
o caminho para a mais nova safra de artistas bilíngües,
como Ricky Martin, Jennifer Lopez, Christina Aguilera e Mark Anthony.
Todos eles cantam para americanos em geral. Todos sabem misturar
o suingue latino com a sonoridade pop e a tecnologia americanas.
Somem-se a isso um guarda-roupa de grifes como Versace e Armani
e uma disposição inabalável para cultivar a
forma física. Lançado no ano passado, o CD Livin'
la Vida Loca, de Ricky Martin, vendeu 16 milhões de cópias.
Seu próximo disco, a ser lançado neste mês,
deverá sair da fábrica com tiragem inicial de 5 milhões
de cópias. Numa tacada engenhosa de marketing, as músicas
de todos esses cantores costumam ser tocadas nas rádios americanas
em espanglish, uma versão mista que junta versos em
inglês e espanhol. A sonoridade da língua espanhola
é justamente o que a Sony pretende vender no álbum
Divas en Español, no qual Madonna, Celine Dion e Janet
Jackson, entre outras, vão cantar suas músicas em
castelhano.
Mas
a grande cartada feminina da onda hispânica chama-se mesmo
Jennifer Lopez. Nascida no Bronx, filha de pais porto-riquenhos,
esta morena de olhos amendoados representa o ideal de sensualidade
e malícia creditado às moças nascidas nos trópicos.
Com um belo rosto, corpo em forma de violão, algum talento
dramático, voz limitada, mas muita disposição
para provocar os fotógrafos com seus decotes descomunais,
Jennifer canta e atua em filmes. Seu primeiro disco, lançado
no ano passado, vendeu 6 milhões de cópias. A predileção
pela moça não é apenas musical. Recente pesquisa
deu a ela o título de mulher mais sexy do mundo, com 28%
das preferências do público americano, bem à
frente de musas genuinamente locais, como Cindy Crawford (9%) e
Demi Moore (7%). O gosto americano está mesmo mudando e até
a moda vem sofrendo influência latina. Uma das mais respeitadas
estilistas da atualidade, Carolina Herrera, nasceu na Venezuela,
mora em Nova York e há anos vem incrementando a elegância
de homens e mulheres nos Estados Unidos. Já há até
uma associação de estilistas latinos, tamanho o sucesso
que fazem com seus modelitos. É la vida loca da imigração.
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