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Cerco à maconha

Para evitar que agricultores plantem a erva,
o
governo solta verba no sertão pernambucano

Gisela Sekeff, de Salgueiro

 
Sérgio Dutti
Depois da ação policial, o preço dispara: "Vendi a 250 reais o quilo", diz o agricultor

Estão sendo plantadas no sertão de Pernambuco as sementes de uma nova estratégia para o combate ao cultivo da maconha. Nos últimos quatro anos, a polícia queimou no Estado 7,7 milhões de pés da planta, numa área de 20.000 quilômetros quadrados. Um efeito das catorze operações desse período foi a valorização do produto, que teve o preço duplicado depois de cada investida da polícia. Isso torna o cultivo ilegal ainda mais atrativo para uma população cuja renda familiar média não ultrapassa o salário mínimo. "É inegável que depois dessas ações o preço sobe", diz o general Gilberto Serra, da Secretaria Nacional Antidrogas, um dos coordenadores da megaoperação Mandacaru, realizada há um ano. "Naquela época, vendi minha roça a 250 reais o quilo", admite um agricultor que se identifica como João da Silva, de 28 anos. O preço regular é de 100 reais o quilo.

O carro-chefe dos projetos destinados a manter os agricultores longe da droga é o Moxotó-Pajeú, pelo qual o Banco do Nordeste concederá, nos próximos três anos, 300 milhões de reais em empréstimos na região. Até setembro, 30.000 famílias haviam sido atendidas. Entre outras operações, há também o Projeto Polígono Legal, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que está cadastrando 33.000 propriedades rurais. Nelas, se houver maconha, o ministério abrirá um processo de expropriação e troca de proprietários. No programa Bolsa-Escola, que complementa a renda de famílias cujos filhos freqüentam as aulas regularmente, serão atendidas 10.500 crianças de 7 a 14 anos.

Tudo isso é praticamente inédito para uma população de 500.000 pessoas que convivem com uma taxa de mortalidade infantil duas vezes maior que a brasileira, analfabetismo três vezes mais alto, escolaridade igual à metade da média nacional e expectativa de vida na casa dos 56 anos, onze a menos que no resto do país. Das 30.000 primeiras famílias atendidas pelo programa do Banco do Nordeste, estima-se que 10% já estiveram envolvidas com o cultivo de maconha. Os cálculos mais conservadores avaliam que há 50.000 pessoas enredadas na cadeia local de plantio e tráfico. Os roçados clandestinos cobrem uma área total de 80.000 hectares. Cada plantação tem em torno de 6 hectares, com aproximadamente 6.000 pés da planta. Antônio Maria dos Santos, de 21 anos, já tocou um roçado desses. "Queria comprar uma geladeira, um fogão, uma televisão, e essa era a forma mais rápida", lembra Santos. Pego em flagrante, ficou oito meses na cadeia e hoje engrossa o cordão de gente que espera alternativas para obter alguma renda. "Nunca mais quero mexer com o diabo."

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