Geral Polícia

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
As luxuosas embaixadas do Brasil
Gil de Ferran é campeão na Fórmula Indy
O projeto alemão do substituto do Gol
Montadoras trazem para o Brasil carros blindados de fábrica
Raimundão, o rei da favela
Verba para evitar o plantio de maconha no sertão
Jorge Lemann compra o helicóptero mais sofisticado do mundo
Cresce o número de menores envolvidos em delitos violentos
O aparelho portátil que pode salvar vítimas de parada cardíaca
Relógios pink e azul-turquesa
Os latinos nos Estados Unidos
A operação de Mário Covas
O avanço das mulheres na sociedade

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

O dono do pedaço

Raimundão, patrono de favela em
Salvador, vive entre os gestos de
benemerência e a mira da Justiça

 

Edson Ruiz

Raimundo com as crianças de sua creche: "O pessoal me procura quando tem confusão"

A favela Alto do São Gonçalo, em Salvador, tem um anjo da guarda. Ele tem 47 anos e se chama Raimundo Alves de Souza, o Raimundão. Na comunidade de 16.000 habitantes foi ele que construiu o posto de saúde, fez a creche, deu verba para o sustento do time de futebol, incentivou o nascimento de grupos musicais, apoiou a rádio comunitária, criou cursos profissionalizantes, reformou o posto policial e inventou até uma ronda noturna com dois guardas patrulhando a área. Na favela, é Deus no céu e Raimundão na terra. Como acontece em muitas favelas de outras capitais, o grande protetor dos humildes tem alguns probleminhas com a polícia. Em 1990, esteve preso porque foram encontrados 13 quilos de maconha em sua casa. Logo após, foi denunciado várias vezes pelo Ministério Público Estadual por tráfico e esteve na Polícia Federal em algumas ocasiões para explicar por que alguns traficantes ao serem detidos o apontavam como o dono da mercadoria. "Se eu disser que sou, serei réu confesso. E, se você sabe, por que está perguntando?", argumenta o benemérito da favela diante de questões sobre o tráfico, mais interessado em discorrer sobre suas atividades cívicas. "Temos índice de criminalidade zero por aqui", afirma orgulhoso.

Na prática, o clima de tranqüilidade acaba beneficiando seus próprios negócios, que ele administra numa saleta sem janelas, com pouco mais de 5 metros quadrados, localizada no térreo do sobrado onde mora. Após ter sido preso pela primeira vez, Raimundão tratou de garantir uma ocupação para justificar sua renda, pelo menos do ponto de vista burocrático. Em 1990, pagava carnê-leão de uma borracharia que não existia. Depois teve um bar. E há um ano inaugurou uma casa de shows que pode receber até 7.000 pessoas e lhe dá hoje, segundo diz, os lucros com os quais mantém o Centro de Cultura e Lazer Reluz, onde funcionam a creche para 154 crianças de 3 a 6 anos, um consultório dentário e o posto de saúde.

Na porta da casa de Raimundão sempre há fila de gente levando problemas para ele resolver. Um precisa de gás, outro não tem dinheiro para comprar remédio e há muitos que só tratam de seus assuntos em conversas particulares com o benfeitor. A fila fica numa posição geográfica meio ruim, porque bem ao lado da casa de Raimundão se localiza o Campo do Águia, local conhecido como o principal ponto-de-venda de drogas de Salvador, ao qual só se tem acesso por uma entrada constantemente vigiada por olheiros do tráfico. Certa vez, o então agente da Delegacia de Tóxicos José Jorge Barbosa, o Barbosinha, dava uma entrevista para a televisão na frente desse lugar e cortou a conversa apontando para as câmaras uma viatura da Polícia Civil que parava diante da casa de Raimundão. "Olha lá os meus colegas vindo buscar dinheiro", disse o policial naquela ocasião. Foi ele que prendeu Raimundão em 1995.

Raimundão foi condenado em primeira instância num processo por tráfico – e aguarda em liberdade o julgamento de um recurso. Coisas do passado. Hoje, cuida-se melhor. "Raimundo é um dos bandidos mais inteligentes que conheço, dono de um grande esquema de distribuição de drogas no qual ele mesmo nem põe a mão na mercadoria", diz o delegado-chefe da Superintendência da Polícia Federal na Bahia, César Nunes. "Quando estive na cadeia, meu maior medo era que tudo isso que faço acabasse de uma hora para outra", afirma pensativo Raimundão, antes de anunciar mais uma novidade no morro. "Vou mandar comprar uma manilha para consertar o vazamento de esgoto na rua da creche", informa. "Esgoto sempre traz risco de leptospirose."

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco