O
dono do pedaço
Raimundão, patrono de favela em
Salvador, vive entre os gestos de
benemerência e a mira da Justiça
Edson Ruiz

Raimundo
com as crianças de sua creche: "O pessoal me procura
quando
tem confusão" |
A
favela Alto do São Gonçalo, em Salvador, tem um anjo
da guarda. Ele tem 47 anos e se chama Raimundo Alves de Souza, o
Raimundão. Na comunidade de 16.000 habitantes foi ele que
construiu o posto de saúde, fez a creche, deu verba para
o sustento do time de futebol, incentivou o nascimento de grupos
musicais, apoiou a rádio comunitária, criou cursos
profissionalizantes, reformou o posto policial e inventou até
uma ronda noturna com dois guardas patrulhando a área. Na
favela, é Deus no céu e Raimundão na terra.
Como acontece em muitas favelas de outras capitais, o grande protetor
dos humildes tem alguns probleminhas com a polícia. Em 1990,
esteve preso porque foram encontrados 13 quilos de maconha em sua
casa. Logo após, foi denunciado várias vezes pelo
Ministério Público Estadual por tráfico e esteve
na Polícia Federal em algumas ocasiões para explicar
por que alguns traficantes ao serem detidos o apontavam como o dono
da mercadoria. "Se eu disser que sou, serei réu confesso.
E, se você sabe, por que está perguntando?", argumenta
o benemérito da favela diante de questões sobre o
tráfico, mais interessado em discorrer sobre suas atividades
cívicas. "Temos índice de criminalidade zero por aqui",
afirma orgulhoso.
Na prática, o clima de tranqüilidade acaba beneficiando
seus próprios negócios, que ele administra numa saleta
sem janelas, com pouco mais de 5 metros quadrados, localizada no
térreo do sobrado onde mora. Após ter sido preso pela
primeira vez, Raimundão tratou de garantir uma ocupação
para justificar sua renda, pelo menos do ponto de vista burocrático.
Em 1990, pagava carnê-leão de uma borracharia que não
existia. Depois teve um bar. E há um ano inaugurou uma casa
de shows que pode receber até 7.000 pessoas e lhe dá
hoje, segundo diz, os lucros com os quais mantém o Centro
de Cultura e Lazer Reluz, onde funcionam a creche para 154 crianças
de 3 a 6 anos, um consultório dentário e o posto de
saúde.
Na porta da casa de Raimundão sempre há fila de gente
levando problemas para ele resolver. Um precisa de gás, outro
não tem dinheiro para comprar remédio e há
muitos que só tratam de seus assuntos em conversas particulares
com o benfeitor. A fila fica numa posição geográfica
meio ruim, porque bem ao lado da casa de Raimundão se localiza
o Campo do Águia, local conhecido como o principal ponto-de-venda
de drogas de Salvador, ao qual só se tem acesso por uma entrada
constantemente vigiada por olheiros do tráfico. Certa vez,
o então agente da Delegacia de Tóxicos José
Jorge Barbosa, o Barbosinha, dava uma entrevista para a televisão
na frente desse lugar e cortou a conversa apontando para as câmaras
uma viatura da Polícia Civil que parava diante da casa de
Raimundão. "Olha lá os meus colegas vindo buscar dinheiro",
disse o policial naquela ocasião. Foi ele que prendeu Raimundão
em 1995.
Raimundão foi condenado em primeira instância num processo
por tráfico e aguarda em liberdade o julgamento de
um recurso. Coisas do passado. Hoje, cuida-se melhor. "Raimundo
é um dos bandidos mais inteligentes que conheço, dono
de um grande esquema de distribuição de drogas no
qual ele mesmo nem põe a mão na mercadoria", diz o
delegado-chefe da Superintendência da Polícia Federal
na Bahia, César Nunes. "Quando estive na cadeia, meu maior
medo era que tudo isso que faço acabasse de uma hora para
outra", afirma pensativo Raimundão, antes de anunciar mais
uma novidade no morro. "Vou mandar comprar uma manilha para consertar
o vazamento de esgoto na rua da creche", informa. "Esgoto sempre
traz risco de leptospirose."
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