O
azarado chegou lá
Gil
de Ferran espanta a
má sorte
e vence na
Indy, a categoria
dominada por brasileiros

Sérgio
Ruiz Luz
Reed Saxon/AP

Gil
de Ferran: "Esperei muito por isso" |
Até a semana passada, Gil de Ferran, 32 anos, o brasileiro
que na segunda-feira ganhou o campeonato de Fórmula Indy,
carregava duas famas bastante justas. A primeira era a de ser um
dos pilotos nacionais mais azarados de todos os tempos. Ele começou
a se tornar conhecido no circuito em 1992, ao vencer o campeonato
da Fórmula 3 inglesa, a mais tradicional competição
para os iniciantes das pistas. Mesmo depois dessa façanha,
Ferran só comeu poeira. Recebeu alguns convites para guiar
um Fórmula 1, mas tudo deu errado. No dia em que estava com
um teste agendado na poderosa escuderia da Williams, desabou uma
chuva sobre o autódromo. Tempos depois, tentou outra vaga
numa equipe menor. Dessa vez, antes de sentar-se ao volante, bateu
a cabeça na porta de um caminhão e precisou de cinco
pontos para fechar o ferimento. Sem outras oportunidades, foi tentar
a sorte na Fórmula Indy em 1995. Logo na primeira temporada,
ganhou o título de estreante do ano e deixou a impressão
de que a maré de vitórias havia finalmente chegado.
Só que, ao contrário de todas as expectativas, ficou
muito tempo patinando nas posições intermediárias.
Na atual temporada, a bordo de um Penske, a Ferrari da categoria,
voltou a andar na frente. Estava na liderança do campeonato
e poderia ganhar o título antecipado na penúltima
prova. Acabou batendo num colombiano e quase pôs tudo a perder
novamente.
AFP
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Na
decisão ocorrida na segunda-feira passada, Gil de Ferran
finalmente espantou o azar e confirmou a outra fama que cultiva
desde os tempos em que acelerava um kart: a de ser um piloto muito
talentoso. Chegou em terceiro lugar nas 500 Milhas de Fontana, na
Califórnia, o suficiente para lhe garantir o campeonato.
"Esperei a vida inteira por isso", dizia no pódio. O único
piloto nacional a levantar um título na Indy foi Emerson
Fittipaldi, há onze anos. Ele foi um desbravador da categoria.
No vácuo de seu sucesso, uma série de compatriotas
tentou o mesmo caminho. A coisa chegou a tal ponto que a atual temporada
bateu o recorde de participação de brasileiros. O
grid de largada chegou a ter dez deles alinhados o equivalente
a um terço do número de competidores. Surpreendentemente,
os donos da casa viram-se em minoria. Eram apenas cinco corredores
americanos na disputa. Ou seja, um a cada dois brasileiros. Gil
de Ferran foi quem soube aproveitar melhor essa onda. Sua vitória
reacendeu o interesse dos torcedores pela categoria. Um dia depois
da conquista, a Rede Record anunciou que vai transmitir ao vivo
para o Brasil todas as provas da próxima temporada. O SBT,
que detinha os direitos do espetáculo, limitava-se a passar
durante a madrugada um compacto com os melhores momentos de cada
etapa.
Caminhoneiros
e aristocratas A enxurrada de corredores nacionais na
Indy segue um circuito lógico. Quando largam no kart e despontam
como talentos, os pilotos brasileiros não têm como
prosseguir a carreira no país, por falta de competições
profissionais. Acabam indo para a Europa, onde amadurecem em categorias
como a Fórmula 3. Depois desse ponto, só alguns conseguem
passar pelo funil estreito da Fórmula 1. Os que ficam de
fora vão bater nas portas da Indy. As duas competições
são muito diferentes (veja quadro). A Indy começou
como uma farra de mecânicos americanos e até hoje mantém
esse tom popular. Boa parte do circuito ocorre no interior dos Estados
Unidos. É o programa preferido dos caminhoneiros, que lotam
as arquibancadas turbinados por algumas latas de cerveja. A Fórmula
1, que deve sua origem à aristocracia européia, preserva
até hoje um ar glamouroso. Orgulha-se também de funcionar
como um laboratório de inovações tecnológicas.
Muitas delas, depois de testadas nas pistas, vão parar na
linha de produção dos carros de passeio. A Fórmula
Indy tem apenas a pretensão de divertir. Suas regras obrigam
as equipes a utilizar chassis e motores semelhantes. Tudo para equilibrar
a disputa e facilitar as ultrapassagens nos circuitos ovais, onde
é disputada a maior parte das provas. "Como não tem
o custo de desenvolvimento de projetos de engenharia e motores,
a Indy acaba tendo um orçamento muito mais acessível
para as equipes", afirma o ex-piloto André Ribeiro, que atuou
nesse circuito entre 1994 e 1999.
Marco de Bari

O
pioneiro Emerson: último título foi conquistado
em 1989 |
Outro fator que atrai os pilotos brasileiros a essa competição
americana é o dinheiro. A cada etapa, a Indy distribui ao
vencedor um cheque de 100.000 dólares. Até o corredor
que chega em 20º lugar leva algum no caso, cerca de
11.000 dólares. Por incrível que pareça, é
o mesmo valor que recebe o vencedor de uma corrida de Fórmula
1. Embora pague salários fabulosos a estrelas como o tricampeão
Michael Schumacher, a Fórmula 1 é muito menos generosa
quando se trata da remuneração dos pilotos médios.
Muitos deles chegam a pagar para conseguir um lugar no cockpit.
Na Indy não tem nada disso. Todos embolsam o seu. O atual
campeão, Gil de Ferran, já havia ganho cerca de 4
milhões de dólares em cinco anos de carreira nos Estados
Unidos. Com o título conquistado em Fontana, somou mais 1
milhão de dólares a seu patrimônio. Filho de
um engenheiro francês, o piloto nasceu em Paris, mas passou
toda a infância em São Paulo. Antes de investir pesado
no automobilismo, cursou uma faculdade de engenharia mecânica.
No começo da carreira nas pistas européias, conheceu
a inglesa Angela. Estão juntos há sete anos. O casal
tem dois filhos e mora numa casa confortável em Fort Lauderdale,
na Flórida. Depois das desastradas tentativas de ingressar
na Fórmula 1, o piloto campeão parece feliz em seguir
nas pistas americanas.
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