Diplomacia
de mansões
Reformadas e bem decoradas, as embaixadas
do Brasil no circuito vip são um luxo só
Monica Weinberg
Ed Ferreira/AE

Berlim
Prédio moderno em endereço chique, por fora; poucos
móveis, decoração despojada e muito espaço,
por dentro: aluguel de 242000 reais é o mais alto pago
pelo Itamaraty |
A Piazza Navona, talvez a mais bela praça de Roma, ganhou
atração renovada na semana passada, com direito a
aglomeração de público e exclamações
de admiração. Removido o tapume chique que cobre os
prédios históricos em reforma na Itália, surgiu
em seu original esplendor, branco-azulada no meio do ocre dos prédios
vizinhos, a fachada do magnífico Palazzo Pamphili, após
um ano de obras de restauração. No alto da porta de
entrada, a bandeira brasileira o palácio é
a jóia mais preciosa do acervo de 142 endereços de
representação do Brasil mantidos pelo Itamaraty em
92 países. O vasto patrimônio da diplomacia brasileira
passeia por estilos arquitetônicos diversos, objetos luxuosos,
bons quadros, tapetes antigos e, inevitavelmente, uma pergunta recorrente.
Afinal, o país precisa ter representações diplomáticas
tão suntuosas? "A embaixada é um espaço de
dignificação do país. Não pode constranger
pela modéstia", prega o embaixador em Paris, Marcos Azambuja,
que certamente não corre semelhante risco no endereço
atual. "Ela é um espaço para expedir visto, celebrar
o dia nacional, dar um coquetel. O embaixador precisa de segurança,
conforto e só", rebate Lytton Guimarães, professor
de relações internacionais da Universidade de Brasília,
a UnB.
A pergunta ganhou novo fôlego recentemente, com a inauguração
da nova embaixada brasileira na Alemanha. Com a transferência
da capital alemã de Bonn para Berlim, os diplomatas estrangeiros
no país saíram disputando novos endereços.
Os brasileiros foram muito bem-sucedidos. Encravado numa das localizações
mais nobres da cidade, o prédio em estilo moderno impressiona
pela luminosidade e pelo tamanho. Com área construída
de 7.600 metros quadrados, abriga setenta funcionários
o que dá a generosíssima média de 108 metros
quadrados para cada um. Sem visitas, naturalmente. O mobiliário
consta de mesas, estantes e tapetes da década de 50
por uma sorte incrível, esse período está muito
na moda entre decoradores descolados , que foram resgatados
dos antigos endereços diplomáticos do Brasil na Alemanha
e misturados a peças contemporâneas. O casamento de
muito espaço e pouco móvel resulta em um ambiente
claro e despojado, com direito à luz natural que atravessa
os vidros da fachada. Aluguel: 242.000 reais mensais, o mais alto
pago pelo Itamaraty. Respondendo às críticas instantâneas
à nova embaixada, o presidente Fernando Henrique Cardoso,
que cortou a fita inaugural, recordou os salamaleques da época
de ministro das Relações Exteriores: "Estamos instalados
em uma amplitude onde cabem todos os interesses do Brasil".
Victor Sokolowicz
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Divulgação
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Roma
A fachada recém-restaurada, que removeu o tom ocre e
recuperou o branco-azulado original, e uma das agníficas
galerias do Palazzo Pamphili, palácio barroco erguido
para o papa Inocêncio X: faxina de 1,2 milhão de
dólares bancada por empresas |
Afrescos
descobertos "Para que incorrer nos erros do passado,
alugando uma estrutura como a de Berlim?", critica, anonimamente,
um diplomata de alto escalão. Em sua visão, as instalações
mais luxuosas refletem uma realidade "tipo Alice no País
das Maravilhas" e é um equívoco persistir na ostentação.
O que já existe, porém, constitui um patrimônio
nacional formado ao longo do tempo e seria tolice desfazer-se dele.
De fato, é quase impensável passar adiante imóveis
como a embaixada em Paris dois prédios separados,
um residencial, outro para a chancelaria, ambos com a inconfundível
elegância das construções destinadas à
elite francesa do século XIX. O edifício da chancelaria
atrai todo mês grupos guiados pela sociedade de arquitetura
de Paris, que se encantam com os tetos altos de relevos pincelados
de dourado e os afrescos da sala do embaixador, com ilustrações
das fábulas de La Fontaine. A 800 metros dali, a residência
oficial foi inteiramente reformada depois que Marcos Azambuja assumiu
o posto, há três anos. O decorador paulista Jorge Elias,
conhecido pelo estilo suntuoso, assumiu a obra. Ficou um espetáculo.
E o melhor de tudo é que o custo, estimado em 150.000 dólares,
foi bancado por amigos de Azambuja. Só o serviço de
Elias, que incluiu três viagens a Paris, sairia por 50.000
dólares, segundo seus cálculos. "Um embaixador que
é bem relacionado recebe favores e agrados e pode fazer uma
boa reforma", define o decorador, que fez o projeto de graça,
orientou a recuperação de móveis franceses
em estilo Luís XV e XVI encostados em um depósito
e ensinou até a técnica de pintura em pátina
das paredes. Outros proprietários de lojas de decoração
deram tinta e tecidos para estofados e cortinas.
A generosidade dos amigos de Azambuja empalidece diante da operação
que custeou as obras da embaixada em Roma, no valor de 1,2 milhão
de dólares. Dos cofres do Itamaraty, saiu apenas uma parcela:
50.000 dólares, liberados com orgulho. "Entre consertar uma
piscina qualquer e recuperar os afrescos de um palácio como
o de Roma, ficamos com os últimos", diz o embaixador Almir
Barbuda, responsável pelo setor de administração
dos postos estrangeiros. O grosso do dinheiro para a reforma do
palacete romano, ocupado atualmente pelo embaixador Paulo Tarso
Flecha de Lima, veio de contribuições permitidas pela
Lei de Incentivo à Cultura, canalizadas através da
Fundação Armando Álvares Penteado. Como é
praxe, a Petrobras fez as doações mais polpudas.
Azulejos quebrados O espetacular palácio barroco,
originalmente encomendado no século XVII pelo papa Inocêncio
X, é patrimônio brasileiro desde 1961. Numa Itália
ainda com preços deprimidos pela ressaca da II Guerra, custou
uma pechincha: 2,3 milhões de dólares, saldados com
café e uma ampla vaquinha coordenada pela iniciativa privada.
Tem quatro andares e afrescos deslumbrantes, sendo que três
deles, do século XVII, foram revelados durante a recém-concluída
restauração. O ambiente mais impressionante é
a galeria Cortona, imenso corredor com teto em arco pintado por
Pietro da Cortona, obra-prima do barroco. A embaixatriz Lúcia
Flecha de Lima, entusiasta das mudanças, colocou seu dedo,
seus móveis, suas tapeçarias e suas obras de arte
na reforma da nova residência, repetindo o que havia feito
em passagens anteriores pelas embaixadas de Londres e Washington.
Ocupada agora pela embaixatriz Maria Ignez Barbosa, a residência
diplomática em Washington, projetada no começo do
século XX pelo festejado arquiteto americano John Russel
Pope, já passou por uma nova intervenção. "É
raríssimo ter um tostão para essas coisas. Então
a solução é fazer uma maquiagem aqui, outra
ali", diz Maria Ignez, que é decoradora. Sob sua batuta,
os móveis em estilo império deixaram o depósito
e migraram para o aposento batizado de Sala dos Índios. O
nome não se refere absolutamente aos proprietários
atuais da mansão, mas ao originalíssimo papel de parede
"Paisagens do Brasil", do início do século XIX, quando
se tornaram moda as expedições européias ao
país. Uma pequena galeria concentra a boa pinacoteca da casa,
onde brilham um Di Cavalcanti, dois Visconti e um Portinari. Lúcia
Flecha de Lima visitou o prédio depois da reforma e aprovou
as mudanças de Maria Ignez. Esta, por sua vez, também
já foi conhecer as novidades de sua pousada anterior, a Embaixada
de Londres (por onde igualmente passou Lúcia). Ornamentada
pelo atual embaixador Sérgio Amaral e sua mulher, Rosário,
com móveis modernos feitos de madeiras brasileiras pelo designer
Maurício Azeredo, de Goiás, a decoração
atual da mansão do século XIX não provocou
grande entusiasmo. "Os móveis que eles levaram para lá
são bonitos, mas meu hall era mais leve e clarinho", diz
Maria Ignez.
O Itamaraty, que neste ano vai gastar 400 milhões de reais,
de um orçamento de 700 milhões, em aluguéis,
manutenção e obras nas embaixadas, assume o custo.
"Quando a casa não está bem cuidada, ela vira o contra-senso
da representação", diz o embaixador Almir Barbuda.
Longe dos postos mais cobiçados, às vezes impera o
improviso. Em Praia, a modestíssima capital de Cabo Verde,
as infiltrações na representação brasileira
provocaram bolhas nas paredes, que precisam ser camufladas com quadros,
e a piscina, com azulejos quebrados, não vê água
há anos. A embaixada brasileira em Oslo, Noruega, passou
quarenta anos suplicando até conseguir uma nova pintura.
Em contrapartida, as duas não correm o risco de ouvir a piada
que circulou quando o governo brasileiro comprou o Palazzo Pamphili,
em Roma. "Agora", diziam as más línguas, "só
falta ter o país para tanta embaixada."
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