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Barbeiragem fatal

Piloto da melhor empresa aérea
do mundo pega
a pista errada
em Taiwan. Resultado: 81 mortos

 
AP
Reuters
Destroços do Boeing da Singapore Airlines no aeroporto de Taipé: avião colidiu com máquinas e blocos de cimento que estavam na pista em reforma

A Singapore Airlines é um símbolo de luxo e segurança, a ponto de ser considerada a melhor companhia aérea do mundo. Seus aviões estalam de novos e em 28 anos de existência nunca tinham protagonizado um só acidente grave. Isso até a noite de terça-feira passada, quando um Jumbo da empresa, que faria a rota de Taiwan para Los Angeles, nos Estados Unidos, se transformou numa imensa fogueira na pista do Aeroporto Chiang Kai-shek, em Taipé. Morreram 81 das 179 pessoas a bordo. Impressiona a causa do desastre: por engano, o piloto Chee Kong Foong tentou levantar vôo a partir de uma pista em obras. O gigantesco Boeing 747-400 colidiu com máquinas e blocos de concreto que estavam na pista. No momento do acidente, chovia forte em Taipé, uma tempestade com ventos de quase 50 quilômetros por hora. Uma equipe internacional formada por técnicos dos Estados Unidos, de Cingapura e de Taiwan ainda investigava, na sexta-feira, os motivos que levaram Foong, um dos sobreviventes da tragédia, a cometer a barbeiragem. Mesmo com a Singapore tendo assumido a responsabilidade pelo acidente, os técnicos querem saber se o piloto não enxergou a sinalização ou se ela não era suficientemente clara. A visibilidade no aeroporto era ruim, mas estava dentro do limite exigido pelos padrões internacionais.

AP

Corpos aguardam o reconhecimento pelos familiares: necrotério improvisado no hangar


O diálogo entre o piloto e a torre gravado na caixa-preta do avião segundos antes do choque mostra que tanto ele quanto os controladores de vôo acreditavam que a aeronave estava na pista certa. O aeroporto não tem radar terrestre e, com o temporal, os controladores monitoravam o taxiamento do Boeing apenas pelas coordenadas enviadas da cabine por Foong e sua equipe. Ao receber a orientação para decolar da pista 5L, o piloto respondeu: "O.k. Nós a vemos. Até que ela não está tão ruim". Na verdade, o avião da Singapore estava na pista 5R, paralela à que devia utilizar. A pista não tinha bloqueio nenhum e suspeita-se que estivesse com as luzes de orientação para decolagem acesas. A administração do aeroporto diz que a única iluminação na pista eram as luzes de taxiamento de aeronaves. Menos de um minuto depois de começar a decolagem, Foong gritou que tinha alguma coisa na pista. Numa manobra desesperada, embicou o avião e tentou subir. Estava a 233 quilômetros por hora e não tinha como abortar a decolagem. O choque foi inevitável. A aeronave escorregou pela pista até bater contra os obstáculos.

Com o impacto, o Boeing partiu-se em três pedaços e incendiou-se. Como os dois tanques estavam cheios, com 216.000 litros de querosene, o avião transformou-se numa imensa fogueira. "Um passageiro que estava bem perto de mim deve ter ficado encharcado de combustível, porque em questão de segundos ele virou uma tocha humana", disse o americano John Diaz, um dos sobreviventes. Ele conseguiu alcançar uma das portas de emergência e fugiu para a pista, enquanto dezenas de pessoas ainda tentavam livrar-se do cinto de segurança que as prendia às poltronas. Dos 98 sobreviventes, dezesseis saíram do avião sem ferimento algum.

O acidente de Taiwan se assemelha bastante ao ocorrido com o Concorde da Air France em Gonesse, uma cidadezinha nos arredores de Paris, há quatro meses. Ambos os aviões tinham manutenção impecável e pertenciam a companhias respeitáveis. Da mesma forma, seus passageiros eram endinheirados que preferiram pagar mais para viajar com maior conforto e segurança. Tudo estava aparentemente perfeito, à exceção daquilo que foge à observação direta do pessoal encarregado da manutenção do aparelho. Na França, uma peça de metal, que caiu de um avião velho de outra empresa aérea na pista do Aeroporto Charles de Gaulle, estourou um pneu do supersônico durante a decolagem. Os restos de borracha foram sugados por uma das turbinas e provocaram um incêndio que derrubou a aeronave minutos depois. A reação dos franceses foi a criação de um rigoroso sistema de controle nas pistas de seus aeroportos. Em Taiwan, ninguém imaginava que uma pista em reforma desde agosto pudesse oferecer riscos a pilotos tarimbados de uma companhia aérea de primeira categoria. Foi o que causou a tragédia.

 

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