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A guerra sem sentido

Último grupo terrorista da Europa,
o ETA volta à matança em Madri

Cristiano Dias

AFP
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AP
Reuters
Um carro-bomba carregado com 30 quilos de dinamite explodiu perto da Praça de Touros de Madri, matando três pessoas, incluindo o juiz José Francisco Querol (foto à dir.). O saldo do atentado: vários carros incendiados, mais de sessenta feridos e um rastro de destruição com a assinatura do ETA

Houve um tempo em que eles tinham a simpatia de boa parte da população espanhola, especialmente quando lutavam contra a ditadura do general Francisco Franco. Hoje, enquanto a Europa unificada escancara suas fronteiras e o nacionalismo soa fora de moda, o grupo separatista ETA (Euskadi Ta Azkatasuna, "Pátria Basca e Liberdade"), que luta pela independência do País Basco, segue andando na contramão e perdendo popularidade, inclusive entre os bascos. Em quatro décadas de atividade, ainda que tendo assassinado mais de 800 pessoas, o grupo está mais distante de conseguir a independência do que quando foi fundado. Os alvos continuam os mesmos – magistrados, militares, policiais, jornalistas, empresários e políticos. Na segunda-feira passada, num cruzamento movimentado de Madri, a poucos quarteirões da Praça de Touros de Las Ventas, um dos locais mais visitados da cidade, um carro-bomba, com 30 quilos de dinamite explodiu, matando o juiz militar do Supremo Tribunal José Francisco Querol, seu motorista e um guarda-costas.

O atentado danificou mais de quarenta automóveis e feriu 64 pessoas. A explosão foi tão violenta que o carro do juiz voou como uma bola de fogo por cima de um ônibus urbano que passava pelo local. Quando o ônibus começou a pegar fogo, o veículo já havia se estatelado do outro lado da calçada, em frente a um centro comunitário da prefeitura, onde 2 000 crianças haviam acabado de entrar para as salas de aula. No dia seguinte, repetiu-se a expressão de indignação pública que se vê depois de cada ataque terrorista na Espanha: multidões nas ruas de várias cidades carregando faixas de protesto pela violência do ETA. A fixação quase psicótica por matar funcionários públicos e políticos tem um único objetivo: forçar o Estado espanhol a conceder independência ao País Basco, um pedaço de terra onde a presença basca remonta à pré-história. O sonho de Euskal Herria (Grande Nação Basca) se estende ainda pela vizinha Comunidade de Navarra e por mais três províncias francesas, regiões onde hoje mal se fala o basco. Aliás, há muito tempo que, dentro do próprio País Basco, os bascos deixaram de ser maioria, e atualmente apenas 25% da população entende a língua ancestral. Em Navarra, a proporção cai para 10%. Vista de perto, essa identidade regional parece frágil. Mesmo sendo considerado um dos povos mais antigos da Europa, os bascos nunca chegaram a constituir um Estado independente e a língua basca não passa de uma recriação do final dos anos 60, quando foi sintetizada uma gramática baseada nos vários dialetos vascongados.

AFP
AP
Repúdio ao ETA: espanhóis saem às ruas para condenar o terrorismo Mortes ao lado de uma creche: tragédia poderia ter sido pior

Mesmo assim, foram as especificidades que serviram de muleta para a invenção do nacionalismo basco, no século XIX, quando a região passou a sofrer o assédio da imigração industrial e os espanhóis começaram a chegar em grande número. O Partido Nacionalista Basco – o PNV, do qual sairia o ETA – foi um movimento típico do final do século XIX, quando povos como gregos e checos criaram os próprios Estados nacionais. Os bascos chegaram a obter autonomia na República Espanhola, revogada pela ditadura fascista do generalíssimo Franco, que depois da guerra civil reprimiu com dureza os movimentos regionalistas. Em 1959, como reação à truculência franquista, surgiu o ETA, que passou a responder à violência com mais violência. Seu momento mais importante foi o assassinato do general Blanco Carrero, primeiro-ministro de Franco e seu provável sucessor. O atentado espetacular, que atingiu em cheio o regime, rendeu ao ETA seu maior grau de aprovação popular. Mas Franco se foi, o ETA não. Com a redemocratização, a Espanha se tornou um mosaico de dezessete comunidades autônomas, algumas com fortes movimentos nacionalistas e língua própria, como a Catalunha e a Galícia, mas que não se renderam à cartilha terrorista.

A Comunidade Autônoma do País Basco tem direito a arrecadar impostos, ensinar a língua basca nas escolas, eleger Parlamento e presidente próprios. Isso é mais que suficiente para a maioria de seus habitantes. Mas não para o ETA. Nas últimas pesquisas, a causa independentista teve apoio de apenas 30% da população. Em Navarra, a aprovação cai para 10%, e nos territórios franceses, para 1%. A rejeição dos bascos tem suas razões. Na última quinta-feira, o ETA reiniciou sua campanha de arrecadação de fundos por meio do recolhimento do "imposto revolucionário". Os "pedidos" são feitos por carta enviada a familiares de empresários e comerciantes exigindo o pagamento de uma quantia que varia entre 20 000 e 200 000 reais.

No passado, o ETA foi visto como uma força antifascismo. Hoje, tanto pelos métodos como pela ideologia, está cada vez mais parecido com o nazismo. Na semana passada, o presidente do PNV, Xabier Arzalluz, expôs a um jornal italiano uma extravagante tese sobre a existência de uma raça basca, identificada pelo sangue com RH negativo. Depois do acordo de paz entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, o ETA é o último movimento terrorista ativo da Europa. Bascos e irlandeses mantiveram contato por intermédio de seus braços políticos legais e seguiram caminhos semelhantes até 1998. Quando o IRA anunciou o acordo com o governo inglês, há dois anos, o ETA também aceitou uma trégua. Mas tomaram rumos opostos quando o IRA decidiu permanecer conversando e o ETA optou por retomar a matança. Os atentados recomeçaram em dezembro do ano passado e, desde então, já mataram dezenove pessoas. Com isso, o País Basco se separa cada vez mais em dois extremos. O moderno, encarnado nos grandes centros urbanos como Bilbao, cidade com os ares contemporâneos do Museu Guggenheim, e o atrasado, estampado nos vários povoados rurais e no anacronismo do ETA, o que faz tantos bascos duvidarem dos benefícios que uma independência realmente traria.

 

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