A vitrine do
PT nos Pampas
Como
gaúchos e petistas consumaram um
casamento
que se fortalece a cada eleição
João Gabriel de Lima, Maurício Lima
e Ricardo Villela
Fotos Liane Neves
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Fotos Liane Neves
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PT removeu uma favela para construir uma área de lazer (à
esq.) e as casas populares onde os favelados passaram a
morar (à dir.): a gestão petista em Porto Alegre
é aprovada por 50% da população. Em doze anos, reduziu a taxa
de mortalidade infantil, aumentou o saneamento básico e multiplicou
o contingente de crianças na escola |
Retratado
como um país, o Rio Grande do Sul estaria entre as trinta
nações com a melhor qualidade de vida do planeta,
considerando-se os padrões estabelecidos pelas Nações
Unidas. Seria algo como a Grécia ou Portugal. Quanto à
expectativa de vida, os gaúchos têm índices
iguais aos dos ingleses, e a mortalidade infantil é menor
que a de seus vizinhos argentinos e uruguaios. A economia é
quase tão potente quanto a da Hungria e a renda per capita
superior à média brasileira rivaliza
com a do México. Se fosse um país, o Rio Grande do
Sul teria sido presidido por Leonel Brizola, e não por Fernando
Collor, levando em conta o resultado no Estado do pleito de 1989.
E, em vez de Fernando Henrique Cardoso, o segundo mandato presidencial
estaria sendo exercido por Luís Inácio Lula da Silva.
Peculiar na história, na cultura e na política, o
Rio Grande do Sul consolidou-se, nesta eleição, como
o maior enclave nacional do PT. A partir de janeiro, com as 35 prefeituras
conquistadas, o partido vai governar 3,5 milhões de gaúchos,
ou 35% da população do Estado. É um colosso
sem paralelo no país.
Por
que o PT, fundado num restaurante do tipo frango-com-polenta por
iniciativa de intelectuais e operários de São Paulo,
foi conseguir sua melhor vitrine nos pampas? Por que os gaúchos,
mais que os brasileiros de qualquer outro ponto do país,
acorrem em massa para o PT? A crônica do sucesso petista no
Sul começou a ser escrita em 1988, quando a legenda ganhou
a prefeitura de Porto Alegre e nunca mais largou, numa inédita
sucessão de vitórias na capital gaúcha. Em
doze anos, a gestão petista conseguiu conjugar feitos invisíveis
com obras visíveis, mas nada monumental. Há alguns
anos, quem passava pela orla do Rio Guaíba, perto do Estádio
do Beira Rio, via um espetáculo degradante: uma favela que
não parava de crescer. Atualmente, no lugar da favela, há
uma área arborizada, que serve para lazer e caminhadas da
classe média. Os favelados foram transferidos para outro
ponto da cidade e instalados em casas populares.
Entre
as medidas que ninguém vê, mas todo mundo sente, está
a expansão da rede de saneamento básico, que chegava
a 53% das casas de Porto Alegre e agora atinge 85%. O tratamento
de esgoto aumentou de apenas 2% para 27%. O número de crianças
na escola saltou de 17.000 para 51.000
e a taxa de mortalidade infantil caiu 40%. E, contrariando o mito
segundo o qual as esquerdas não gostam de ajuste fiscal,
as finanças foram saneadas. Em 1989, só a folha salarial
comia 102% do orçamento da prefeitura de Porto Alegre. Hoje,
caiu para 63%. Com isso, sobram 56 milhões de reais por ano
para investimento. E o destino do dinheiro é definido pelo
Orçamento Participativo, as assembléias nas quais
a população define as prioridades de investimento.
"Se eu tivesse de escolher uma marca para nossas administrações,
diria que é o Orçamento Participativo", afirma o prefeito
eleito, Tarso Genro, que teve a vitória mais folgada de todas
as capitais no segundo turno 63,5% contra 36,5% do adversário.
Velocidade
de cruzeiro O petismo em Porto Alegre foi ajudado pela
Constituição de 1988, que aumentou sensivelmente a
arrecadação dos municípios. De lá para
cá, o orçamento da capital gaúcha quadruplicou,
passando de 300 milhões de reais para 1,2 bilhão.
Mas isso aconteceu em todas as cidades do país. A diferença
é que, em Porto Alegre, o PT soube usar a fartura com competência
e sua gestão na capital virou um pólo irradiador de
influência. O partido já é majoritário
nas cidades da região metropolitana de Porto Alegre e, agora,
fez o prefeito em seis dos dez maiores colégios eleitorais
do Estado incluindo Pelotas, Santa Maria e Caxias do Sul,
cidade em que o PT vai para o segundo mandato. Em 1998, a boa gestão
na capital também foi decisiva para eleger o governador do
Estado, Olívio Dutra. Mas, se no campo municipal o PT é
bem-visto, na administração do Estado as coisas ainda
não engrenaram. Na segurança, uma área sensível
em qualquer grande cidade brasileira, há boas notícias.
A polícia passou por uma reforma e tem aulas até de
direitos humanos, e a taxa de homicídios caiu bastante, de
25 para 16 por 100.000 habitantes.
Mesmo
assim, reclama-se de que, até agora, apenas 30% das promessas
de campanha foram cumpridas segundo a oposição.
O aumento salarial de 220% para os policiais não saiu, e
os professores estaduais tiveram só 14% de reajuste, quando
a promessa era de 190%. A concessão de seguro-agrícola
aos pequenos produtores, tão propagandeada por Olívio
Dutra na campanha, deveria distribuir 8 milhões de reais,
porém, até o momento, ninguém viu um tostão.
A diferença entre a gestão na prefeitura da capital
e no governo do Estado é clara nas pesquisas. O último
levantamento, feito por um instituto local, o Meta, mostra que 50%
julgam que a administração municipal é ótima
ou boa. No Estado, o porcentual é de 35,5%. "A prefeitura
é um avião em velocidade de cruzeiro a 10.000
pés de altura, mas no governo do Estado nós mal levantamos
vôo", pondera Flávio Koutzii, chefe do Gabinete Civil.
É verdade, mas duas características do PT tão
bem-vistas pelo eleitorado gaúcho já sofreram arranhões
no governo estadual.
Uma
é a honestidade com a coisa pública. Pesquisa da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul aponta que 98% isso mesmo, 98%
dos porto-alegrenses acham que o governo municipal do PT
é honesto. No entanto, na gestão estadual de Olívio
Dutra já apareceram suspeitas de corrupção.
O governo é acusado de ter beneficiado uma empresa, a Adubos
Trevo, cujo dono foi um dos maiores doadores para as campanhas do
PT. O secretário de Comunicação, Guaracy Cunha,
é suspeito de contratar, por 28.000
reais mensais, a assessoria de uma empresa da qual era presidente
antes de virar secretário. Também é acusado
de cortar verbas de publicidade para órgãos de imprensa
que criticam o governo do Estado. Outro problema: no governo, as
correntes políticas que se abrigam no partido entraram em
choque. Na semana passada, o secretário de Administração,
Jorge Buchabqui, deixou o cargo por não concordar com o grupo
de Olívio Dutra, que pertence a uma ala mais radical. Disse
que saía porque Olívio não tinha um projeto
de desenvolvimento. Jorge Buchabqui é sócio do moderado
Tarso Genro num escritório de advocacia.
Essas
falhas são motivo, como tudo no PT, de muita discussão
interna. O gosto pelo debate e pela polêmica, tão característico
da legenda, fez um casamento harmônico com o modo de ser do
gaúcho. Nos pampas, tudo pode virar motivo de debate. Há
três anos, quando a Rede Globo resolveu encurtar os programas
infantis da manhã, para ampliar o espaço dos telejornais
do meio-dia, estava inspirada na TV gaúcha. Há 28
anos, a televisão local exibe o programa Jornal do Almoço,
cheio de notícias, entrevistas e, é claro, debates.
E
os debates sempre ocorrem sob o calor de um traço típico:
a bipolaridade. Para o gaúcho, tudo é preto ou branco,
esquerda ou direita, Grêmio ou Internacional. Há historiadores
que atribuem essa característica ao período do governo
controlado por Borges de Medeiros do final do século XIX
até perto da Revolução de 30. Como se tratava,
na prática, de uma ditadura, ou se era situação
ou se era oposição, ou se era "maragato" ou se era
"chimango" os partidos da época , sem espaço
para meios-termos. "Isso existe até hoje", avalia Moacyr
Scliar, o mais respeitado escritor gaúcho da atualidade.
"Agora, ou se é PT ou se é anti-PT", completa ele.
É uma característica cultural que também contribuiu
para a longevidade do PT na prefeitura da capital. Uma vez maragato,
sempre maragato. No Rio Grande do Sul é quase crime mudar
de partido ou de time. Daí por que o eleitor, ou torcedor,
costuma ser mais fiel que no resto do país. É por
isso que o senador Pedro Simon, uma das estrelas da bancada gaúcha
em Brasília, ainda hoje é um político do PMDB,
embora às vezes seu figurino destoe da legenda. É
por isso que Antônio Britto, o antecessor de Olívio
Dutra no governo, é o peemedebista mais tucano do Brasil.
Mitologia
O petismo no Rio Grande do Sul também se perfilou
ao lado de uma fortíssima marca local o culto ao gauchismo
, que nasceu há muito tempo. Consolidou-se no século
XIX graças à obra do escritor pelotense Simões
Lopes Neto e de um grupo de autores autodenominado Partenon Literário,
que floresceu paralelamente à Escola Romântica no Rio,
São Paulo e Recife. Neste século, a mitologia continuou
a ser cultivada por causa dos Centros de Tradições
Gaúchas (CTGs), espécie de clubes onde se exaltam
valores tradicionais enquanto se come churrasco e se toma chimarrão.
Existem centenas deles espalhados pelo Brasil e subsedes fundadas
nos Estados Unidos, no Japão, até na Malásia.
A leitura dos Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto,
faz parte de vários currículos e até hoje é
recomendada no programa de vestibular de algumas universidades.
A esquerda, por muito tempo, renegou essas tradições
por considerá-las alienantes e reacionárias, mas aderiu
ao gauchismo. Não é à toa que Olívio
Dutra usa bombachas no dia 20 de setembro, a "data nacional" gaúcha,
e exibe seu sotaque pampeiro.
Com
o culto às tradições, antes quase monopólio
da direita, a esquerda está se incorporando à mitologia
gaúcha. Isso pode ter pouca importância na maior parte
do Brasil mas é fundamental no Rio Grande do Sul,
o único Estado do país a ter sido cantado num épico
literário da estatura de O Tempo e o Vento, de Érico
Veríssimo. Foi através dos livros que se consolidou
aquilo que o gaúcho se orgulha de ter em maior medida que
qualquer outro Estado brasileiro: uma mitologia. Na semana passada,
durante a Feira do Livro de Porto Alegre, a historiadora Sandra
Jatahy Pesavento deu uma palestra intitulada "Ah, eu sou gaúcho".
Arrancou aplausos da platéia ao esmiuçar a gênese
da mitologia. Segundo ela, tudo começou com a transformação
de valores negativos em positivos. Em 1817, Nicolau Dreys, um escritor-viajante
provavelmente nascido em Flandres, visitou a Região Sul.
Descreveu-a numa obra em que dizia considerar o pampa uma "anomalia"
em relação ao resto do país. Definiu o povo
da região como uma gente "abarbarada" que "puxa o facão
por qualquer coisa". Notou também que os habitantes do lugar
andavam muito a cavalo, "a ponto de se confundirem com ele", para
concluir: "O gaúcho é quase um animal".
Pois
bem. Com o tempo, o que eram valores ruins foram sendo retrabalhados
de forma a virarem marcas elogiosas. Eram os gaúchos indomáveis
e abarbarados? Não, eram amantes da liberdade. Gostavam de
afiar o facão na garganta alheia? Não, eram valentes.
A imagem do homem que quase se confundia com o cavalo gerou o apelido
pelo qual os gaúchos gostam de ser conhecidos, "centauros
dos pampas". Essa transformação não é
um ineditismo. É o que acontece em qualquer lugar do mundo
onde os povos constroem uma identidade forte. "Mas é um processo
de construção de imagem que não tem paralelo
no Brasil", avalia Sandra Pesavento. "Até os imigrantes alemães
e italianos, que chegaram depois, renegaram num primeiro momento
suas tradições e passaram a cultuar os valores gaúchos."
A exaltação desses valores pelos gaúchos talvez
só tenha paralelo na Bahia. A diferença é que
os baianos preferem louvar a si próprios por meio da música.
Os gaúchos, da literatura. O Rio Grande do Sul tem o maior
índice de leitura de livros por habitante: são dois
por ano. Ainda é ridículo em relação
aos países do Primeiro Mundo, mas é o dobro da média
nacional.
Nesse
culto, o linguajar ocupa lugar de destaque. Se, recentemente, o
lançamento na Bahia de um Dicionário de Baianês
foi um sucesso, na semana passada uma das obras mais vendidas na
Feira do Livro em Porto Alegre era o Dicionário de Porto-Alegrês,
escrito pelo professor universitário Luís Augusto
Fischer. "É uma maneira de o jovem gaúcho cultivar
a própria identidade sem precisar recorrer aos CTGs, considerados
meio caretas hoje em dia", diz Luís Fernando Araújo,
dono da editora Artes & Ofícios, responsável pelo
lançamento do dicionário. E gaúcho que se preza
diz tu foi, tu quis, e achará uma afetação
se alguém disser tu foste, tu quiseste. Na semana passada,
teve lugar na capital gaúcha a pré-estréia
do filme Tolerância, maior produção local
do gênero nos últimos tempos. A fita, dirigida por
Carlos Gerbase (que, como bom gaúcho, é também
escritor e acaba de lançar um novo livro), é modernérrima.
Tem troca de casais, namoro por computador, banda de rock pauleira
formada por mulheres. Poderia ser filmada em qualquer metrópole
brasileira, exceto por alguns detalhes. Todos os personagens se
tratam por tu. Até Maitê Proença, que é
paulista, aprendeu a chamar policial de brigadiano. E o personagem
principal, interpretado por Roberto Bontempo, trabalha com computação
gráfica e, a certa altura, aparece encarando um chimarrão.
Os gaúchos de hoje são assim. Moram numa Grécia,
vivem tanto quanto os ingleses, são cosmopolitas, modernos,
informatizados e, traço novo, cada vez mais petistas.
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70%
dos jovens gaúchos se identificam mais com Uruguai
e Argentina do que com Rio e São Paulo.
O
Rio Grande do Sul tem o maior índice de leitura do
Brasil: dois livros por habitante ao ano. E Porto Alegre tem
o maior índice de leitura de jornais do país:
76% lêem pelo menos um jornal por semana.
Os
gaúchos são tão conservadores nos hábitos
de consumo que nenhum novo produto é testado no Estado.
Os gaúchos não compram.
O
culto às tradições e ao mito gaúcho
é tão forte que o Estado tem um número
expressivo de historiadores. Na Feira do Livro de Porto Alegre,
todos os principais lançamentos assim como as
obras mais vendidas são títulos sobre
a "gauchidade".
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