Pasolini
e o cinema novo
Ilustração Pepe Casals
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Na semana retrasada, a TV italiana exibiu Como Era Gostoso
o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos. É
um dos clássicos do cinema novo, de 1971. Eu nunca tinha
visto o filme. Com toda a boa vontade, peguei um prato de tremoços
e acomodei-me no sofá. Meia hora mais tarde, já
estava querendo jogar a TV pela janela. Certos movimentos artísticos
envelheceram mal. O cinema novo foi um deles. Talvez fizesse algum
sentido em sua época. Depois morreu. Entrou para a história.
Não para a história do cinema, como Eisenstein ou
Griffith, que todo mundo, por mais ignorante que seja, é
obrigado a ver, mas para a bem mais modesta história do
cinema nacional. Como Era Gostoso o Meu Francês, Macunaíma
e Terra em Transe merecem um lugar ao lado dos filmes de
Oscarito e Mazzaropi: fazem parte da nossa cultura, só
que não dá para revê-los. O cinema novo corresponde,
em literatura, ao parnasianismo ou ao simbolismo. Tiveram importância
por um curto espaço de tempo, depois desapareceram. Quem
ainda consegue ler um Alphonsus de Guimarães, por exemplo?
Na melhor das hipóteses, virou uma armadilha para vestibulandos.
Pensei que a mesma coisa pudesse ter acontecido com o italiano
Pier Paolo Pasolini. Ou seja: que, ao rever seus filmes, eu sentisse
vontade de jogar a TV pela janela. No dia 2 de novembro, comemorou-se
o 25° aniversário de seu assassinato. Aproveitei para
assistir a mais ou menos uma dúzia de seus filmes. Uma
verdadeira ressaca de Pasolini. O resultado foi o seguinte: ovações
para Anotações para um Filme sobre a Índia
(1967) e A Muralha de Sanaã (1970). Aplausos sinceros
para La Ricotta (1963) e Decameron (1971). Aplausos
um pouquinho menos sinceros para Medéia, a Feiticeira
do Amor (1969) e Teorema (1968). O resto foi mais difícil
de engolir. Em certos casos, quase tão difícil quanto
o cinema novo. Pasolini não é um Buñuel,
um Bergman, um Fellini, que a gente vê quarenta vezes seguidas
sem enjoar. Pasolini enjoa. Enjoei, sobretudo, dos filmes que
mais me entusiasmaram na adolescência: Gaviões
e Passarinhos (1965) e Salò (1975). Passado
o enjôo, porém, o que sobrou foi um tremendo espanto
por sua coragem. Dê uma olhada no site guest.clarence.com/pasolini.
É impressionante o número de cortes, censuras e
processos que seus filmes sofreram, acusados de pornografia, difamação
e vilipêndio à religião.
O cinema novo teve uma história menos límpida. Alguns
de seus protagonistas foram obrigados a se exilar por causa da
ditadura, e seus filmes continuaram a propagar a retórica
esquerdista e guerrilheira, mas o que se viu, no final das contas,
foi uma acomodação geral. De um lado, os colaboracionistas
do cinema novo assumiram o comando da Embrafilme. De outro, assistimos
constrangidos aos contorcionismos dialéticos de Glauber
Rocha para adular os militares. No Brasil, tudo é compromisso.
Anticonformismo, entre nós, nunca existiu, nem quando era
fundamental. Por isso, não dá para jogar Pasolini
pela janela: ele fica recordando quão ambíguo é
o nosso caráter.