Tecnologia
cansa
Especialista americano diz que a maneira
como nos relacionamos com os
avanços
modernos é
prejudicial à saúde
Rachel Verano
 |
"Dependemos
cada vez mais da tecnologia. Acontece que ela falha às vezes.
E então nos tornamos vítimas" |
O
psicólogo americano Larry Rosen, 50 anos, é uma
das maiores autoridades mundiais quando o assunto é a relação
entre o homem e a tecnologia. Há vinte anos ele pesquisa
os efeitos dos avanços tecnológicos no dia-a-dia
das pessoas. Seu diagnóstico é alarmante: todos
nós, sem exceção, somos vítimas de
uma nova modalidade de stress, provocada pela dependência
cada vez maior da tecnologia. "Ficamos irritados quando algo não
funciona bem. Pode ser tanto o telefone celular quanto a máquina
de fazer café", diz. Ele estuda, sobretudo, o comportamento
dos habitantes dos países ricos, com farta disponibilidade
de recursos tecnológicos. Mas garante que o stress é
equivalente em países menos desenvolvidos, como o Brasil.
Consultor e professor de psicologia da Universidade da Califórnia,
nos Estados Unidos, há três anos Rosen lançou,
junto com sua mulher, a também psicóloga Michelle
Weil, o livro TecnoStress Coping with Technology @Work,
@Home, @Play (algo como Tecnostress convivendo com
a tecnologia no trabalho, em casa e no lazer), ainda sem versão
em português, no qual dá dicas sobre como conviver
pacificamente com a tecnologia. Ele concedeu a seguinte entrevista
a VEJA.
Veja
Bipes, celulares, secretárias eletrônicas,
internet, e-mails... A tecnologia foi feita para facilitar a vida
das pessoas, não?
Rosen
A tecnologia é fascinante. As máquinas são
rápidas e nos permitem fazer uma série de coisas
até há bem pouco tempo inimagináveis. O mundo
todo está a um clique no mouse do computador. Enviamos
e recebemos mensagens eletrônicas de um lugar para qualquer
outro. Nós nos comunicamos das mais variadas formas com
as pessoas. Mas há um lado negro. Temos a impressão
de que não podemos funcionar sem ela. Fazemos cada vez
mais e mais coisas, estamos mais irritados do que nunca e, por
incrível que pareça, nosso tempo é cada vez
mais curto. Todas essas reações à tecnologia
nos estressam. Chamamos essa tensão de tecnostress. É
o mal da modernidade. Todas as pessoas do mundo da criança
ao velho, do executivo ao empregado sofrem com isso, de
uma maneira ou de outra.
Veja O que define essa nova modalidade de stress?
Rosen
Ela é o resultado da convivência cada vez maior das
pessoas com a tecnologia. É a irritação que
sentimos por não conseguir operar o videocassete novo ou
quando ligamos para alguém insistentemente e ouvimos que
o telefone celular está fora de área. Veja o caso
da internet. Nunca as pessoas tiveram acesso a tanta informação.
Mas, em muitos casos, o efeito pode ser inverso. Ao invés
de ajudar, atrapalha. Estatísticas mostram que o volume
de informações disponível dobra a cada 72
dias. As pessoas correm o risco de se perder diante de tanta coisa.
A conseqüência imediata? Stress.
Veja De que maneira a tecnologia afeta o comportamento
das pessoas?
Rosen
A velocidade da tecnologia está alterando nosso relógio
biológico. As pessoas querem fazer tudo na velocidade do
computador, querem que tudo se resolva num piscar de olhos. A
conseqüência é que elas estão se programando
para correr cada vez mais. Estão vivendo um constante estado
de alerta. E isso gera nervosismo, ansiedade. O elevador demora
e as pessoas já se irritam. A tecnologia está invadindo
nossos limites por todos os lados. As pessoas estão mais
impacientes do que nunca. Você começa a ver isso
nas crianças.
Veja Como assim?
Rosen
Pesquisas feitas com essa geração de crianças
criadas com o computador mostram que o limite de paciência
delas é muito baixo. Elas não suportam nada que
não se resolva imediatamente. O resultado é que
estão apresentando cada vez mais problemas na escola, que
definitivamente não é um universo multimídia.
Pela sua própria natureza, a escola vira um tédio
para essas crianças. Elas não conseguem prestar
atenção às aulas, participar de reuniões,
e se irritam com qualquer atividade demorada. A tecnologia está
mudando nossa percepção de tempo. E ela nunca ocupou
tanto espaço em nossas vidas. A questão é
que ainda não aprendemos a usá-la de maneira adequada.
Veja o grande paradoxo: os avanços que teoricamente vieram
para agilizar as nossas tarefas e nos proporcionar mais tempo
livre acabaram nos ocupando cada vez mais.
Veja Como isso se aplica a um país menos desenvolvido,
como o Brasil, no qual só uma minoria tem acesso à
tecnologia de ponta?
Rosen
Nos últimos vinte anos coordenamos pesquisas em mais de
vinte países no mundo todo, de desenvolvidos a subdesenvolvidos.
Isso nos permite dizer que o tecnostress afeta todas as pessoas,
sem exceção. É importante enfatizar que o
tecnostress não resulta apenas do contato das pessoas com
o computador, mas com qualquer forma de tecnologia, dos eletrodomésticos
aos telefones celulares. A maior evidência disso veio com
as ameaças do bug do milênio. Um tecnostress enorme
foi compartilhado por toda a população mundial.
À medida que a tecnologia quebra as barreiras, diminui
as distâncias e une as pessoas e países, nós
todos experimentamos seus benefícios, vantagens e, certamente,
todo o stress proveniente dessa relação.
Veja A sensação de não termos
mais tempo para nada é real?
Rosen
E como! Se tem uma coisa que a tecnologia fez foi certamente esticar
o nosso dia de trabalho e comprometer a nossa qualidade de vida.
Há pouco tempo, era raro ultrapassarmos as oito horas diárias
de serviço. Hoje, depois que vamos para casa, é
comum ouvirmos as mensagens da secretária eletrônica,
atendermos às ligações no celular, checarmos
nosso e-mail... Enquanto vemos as mensagens, aproveitamos para
respondê-las, lemos o material que alguém nos enviou,
entramos num site para saber mais sobre o assunto e, quando nos
damos conta, já trabalhamos duas, três, quatro horas
além do horário normal.
Veja O senhor quer dizer que em lugar de permitir
maior tempo de lazer, a tecnologia aumentou a carga de trabalho?
Rosen
Significativamente. Antes, você trabalhava apenas enquanto
estava no escritório. Agora, você trabalha onde quer
que as pessoas possam encontrá-lo. E como geralmente estamos
conectados o tempo todo...
Veja E como fica o lazer?
Rosen
Os limites entre trabalho e lazer hoje em dia não estão
muito claros. E a culpa é toda da tecnologia. Muitas pessoas
nem cogitam a possibilidade de ficar desconectadas nos finais
de semana ou durante as férias. Viajar com laptops e celulares
é cada vez mais comum. E basta estar conectado para estar
trabalhando. É um pulo. E as pessoas ainda dizem que não
sabem por que estão estressadas...
Veja A tecnologia vicia?
Rosen
Vejo cada vez mais pessoas depender dos produtos tecnológicos.
É o que nós chamamos de tecnose. Elas simplesmente
não conseguem imaginar a vida sem tecnologia.
Veja Quais são os sintomas da tecnose?
Rosen
A dependência da tecnologia significa que você não
pode viver sem ela. Uma pessoa que fica nervosa porque não
tem acesso à tecnologia, ou que não se lembra de
como fazia suas atividades antigamente, certamente sofre de tecnose.
Não podemos esquecer que a tecnologia falha, às
vezes. Aí você começa a ver pessoas entrando
em crise porque o microondas estragou ou o computador pifou. Eu
conheço pessoas que se viciaram tanto em tecnologia que
passaram a levar uma vida fora do normal. Elas não sabem
o que é relaxar, sair em férias, tirar um dia de
folga. Ficam totalmente perdidas. E, acredite, isso está
se tornando cada vez mais comum. As máquinas estão
ditando as regras. Guardadas as devidas proporções,
é como nos filmes de ficção científica:
elas estão nos controlando!
Veja Por que a tecnologia vicia?
Rosen
As pessoas não estão sendo capazes de controlar
o uso da tecnologia. Por dois motivos. Primeiro, porque a tecnologia
é muito atraente. Pense num computador, por exemplo. Ele
trabalha rápido, é interessante, mostra fotos bonitas
e coloridas, toca música, ou seja, faz praticamente tudo
o que você quiser. O segundo motivo é que ainda não
aprendemos a dizer chega. Sabemos que o computador é capaz
de executar diversas tarefas ao mesmo tempo. Por isso, concluímos
que também somos. E começamos a fazer tudo ao mesmo
tempo. Temos a ilusão de que conseguimos fazer muito mais
coisas. É um passo para desenvolver o transtorno das múltiplas
tarefas, uma das facetas do tecnostress.
Veja O que é isso?
Rosen
Quando
executamos diversas atividades complexas ao mesmo tempo, nossa
atenção se divide entre todas elas e não
conseguimos nos concentrar numa só. Acabamos exigindo demais
de nós mesmos, expondo nosso cérebro a constantes
situações-limite e não demora muito para
começarmos a sentir os efeitos disso. Quando passamos o
dia fazendo várias coisas ao mesmo tempo, ao dormir é
que nosso cérebro ganha tempo para processar todas as informações.
É por isso que às vezes acordamos no meio da noite
com a resposta para aquela pergunta que tanto nos incomodou durante
o dia ou lembrando de um recado que não podemos esquecer
de dar. Tudo isso junto nos faz perder a memória com freqüência
e altera nosso humor.
Veja O que podemos fazer para evitar essas situações?
Rosen
Eu sempre sugiro que a pessoa durma com um bloco de anotações
ao lado da cama para poder escrever as coisas importantes que
lembrar no meio da noite. Pode parecer estranho, mas, uma vez
que você tira a idéia da cabeça, acaba relaxando.
Ao saber que não vai precisar se lembrar daquilo mais tarde,
então se despreocupa. Há ainda um verdadeiro ritual
que pode aliviar as conseqüências do transtorno das
múltiplas tarefas. Antes de dormir, tente fazer algo que
acalme sua memória e o faça focar um só assunto.
Leia um livro, converse com a família, assista à
televisão. E, antes de se deitar, faça uma lista
de afazeres. Assim você não vai acordar no meio da
noite com receio de esquecer algo importante.
Veja A tecnologia tem cumprido seu papel de aumentar
a produtividade e a eficiência no trabalho?
Rosen
Mesmo com todo o dinheiro que se investe em tecnologia, a produtividade
não tem aumentado da maneira que se supunha. É uma
questão de expectativa. Os empresários esperam que
as pessoas sejam capazes de usar de maneira eficiente uma determinada
tecnologia tão logo ela saia da caixa. E se esquecem de
que, na prática, nem todo mundo adora as novidades da tecnologia
e de que existem períodos de adaptação e
treinamento. Infelizmente, as empresas não levam isso em
conta e acabam pagando o preço. Se não visassem
apenas resultados imediatos, notariam que eles viriam em forma
de produtividade no futuro. É preciso respeitar o fato
de que as pessoas reagem de maneira diferente à tecnologia.
Veja Quais são as possibilidades de reação
à tecnologia?
Rosen
Eu costumo dividir a população mundial em três
tipos de pessoas: os amantes da tecnologia, os hesitantes e os
resistentes. O primeiro grupo representa entre 10% e 15% da população.
São os primeiros a comprar qualquer novidade, estão
sempre por dentro de tudo e curtem os produtos da tecnologia.
Os hesitantes formam o maior grupo: de 50% a 60% da população.
Eles preferem esperar que se provem as vantagens de determinado
produto antes de começar a usá-lo. E os resistentes,
que são de 30% a 40% da população, simplesmente
evitam a tecnologia e têm uma série de dificuldades
para lidar com qualquer novidade.
Veja O senhor sofre de tecnostress?
Rosen
Muito! Eu acho que nunca vou ter tempo de aprender tudo o que
quero. Não consigo relaxar. Um dos maiores motivos de meu
stress são os celulares tocando em restaurantes, cinemas,
teatros... Parece que as pessoas perderam o senso de urgência.
Só porque elas podem encontrar alguém 24 horas por
dia, simplesmente o fazem! Outra coisa que me incomoda é
que eu tenho pavor de sair em férias, porque temo o que
possa acontecer. Vou voltar para casa e encontrar meu e-mail abarrotado
de mensagens, que é o que sempre acontece, e levar horas
e horas só para lidar com isso.
Veja O senhor é especialista em combater o
tecnostress e não consegue superá-lo?
Rosen
Mas
eu estou melhorando... Aprendi, por exemplo, a não responder
imediatamente aos e-mails. Somente minha família tem o
número de meu celular. Eu tento me ensinar como sofrer
menos de tecnostress, mas, mesmo como pesquisador do assunto,
continuo tendo uma série de problemas. Não é
nada fácil.
Veja É possível conviver com a tecnologia
sem se estressar, ou a solução é evitá-la?
Rosen
Toda nova tecnologia tem de ser aceita de uma maneira ou de outra.
Evitá-la vai deixar as pessoas ainda mais estressadas,
porque desse modo elas vão ficar de fora. Pense num executivo
que não tem e-mail hoje em dia. Ele está numa clara
posição de desvantagem no mercado. O mesmo vale
para uma empresa que ainda não tem site na internet. É
preciso encarar a tecnologia. Porque a tendência é
que ela faça cada vez mais parte de nossa vida.
Veja E onde vamos parar?
Rosen
Eu gostaria muito de ter uma bola de cristal. Acho que vamos continuar
a sentir os efeitos do tecnostress cada vez mais, a menos que
tenhamos sucesso em estabelecer onde estão as fronteiras
saudáveis. Temos de parar e avaliar nossas vidas, porque
somos nós que estamos causando os problemas, não
a tecnologia. Afinal de contas, quem aperta os botões?