Ataque às crianças

Depois de ensinar como ficar rico, os gurus
da auto-ajuda querem educar seu filho

Daniel Nunes Gonçalves

Foto: Egberto Nogueira Foto: Raul Junior Divulgação
Shinyashiki:
290.000 livros
Ribeiro: versão
infanto-juvenil
Weiss: empurrando
outras vidas

Pais e mães de todo o Brasil, muito cuidado: a turma dos livros de auto-ajuda está de olho em seus filhos. Depois de querer ensinar a vocês como ganhar dinheiro, fazer amigos, ficar magro, segurar o casamento, os escritores do gênero resolveram dar lições sobre como educar a criançada. Os lançamentos surgem a todo instante, e estão fazendo um sucesso danado. O mais recente livro do ramo é Crianças e Suas Vidas Passadas, da americana Carol Bowman, com prefácio de Brian Weiss, o autor de Muitas Vidas, Muitos Mestres. Vendeu 20.000 exemplares em quinze dias, um estouro para os padrões nacionais. Aguardam-se para os próximos meses as primeiras incursões pedagógicas de dois outros autores do ramo de negócios. O primeiro é As Sete Leis Espirituais dos Pais, do guru indiano Deepak Chopra, autor de As Sete Leis Espirituais do Sucesso. E o segundo é Os Sete Hábitos das Famílias Muito Eficazes, do mórmon Stephen Covey, autor de Os Sete Hábitos das Pessoas Muito Eficazes.

Alguns autores, mais abusados, acharam por bem atacar a molecada diretamente, sem a intermediação dos pais. O primeiro foi Lair Ribeiro, um campeão no setor, que lançou Pés no Chão, Cabeça nas Estrelas, versão infanto-juvenil do best-seller O Sucesso Não Ocorre por Acaso. William J. Bennett, que escreveu O Livro das Virtudes, também jogou nas livrarias uma versão júnior, O Livro das Virtudes para Crianças, que contém histórias com lição de moral. "O segmento clássico de auto-ajuda está saturado. Os novos filões também são uma forma de perseguir outros leitores", explica Ibsen Petrópolis, diretor da editora Best-Seller, que detém os direitos sobre o livro de Covey.

Auto-ajuda familiar: engordando o segmento que vende um de cada 5 livros

Bibliografia ensinando pais de primeira viagem a cuidar de seus filhos é um item tradicional nas livrarias. Existem nos catálogos das editoras 600 títulos com as palavras "pais", "filhos" e "família", incluindo clássicos como A Vida do Bebê, do pediatra Rinaldo De Lamare, e Meu Filho, Meu Tesouro, do pediatra americano Benjamin Spock. O que vem pipocando nas prateleiras como milho no microondas são os livros da psicologia de botequim. Algumas obras dizem a que vieram já no título. É o caso de O que Você Realmente Quer para Seus Filhos? ou O que Toda Criança Gostaria que Seus Pais Soubessem. Outros livros, para não dar tão na cara, foram batizados com nomes mais poéticos, como Amar uma Criança e Pais e Filhos, Companheiros de Viagem. Bonito, não?

Gato enforcado Uma vez iniciada a leitura, os livros tornam-se muito parecidos. "Fale sempre gentilmente com seu filho", diz uma das 65 profundas dicas sugeridas por Judy Ford em Amar uma Criança. Ela justifica sua instrução informando que "gritar cria más vibrações na casa e poluição sonora". A autora nada fala sobre o que devem fazer os pais quando são acordados às 4 da manhã com os gritos do gato que o endemoninhado do moleque decidiu enforcar na cortina. Carol Bowman, de Crianças e Suas Vidas Passadas, vai mais longe. Diz que não se pode contrariar nenhum chilique da criança antes de checar se seu comportamento estranho não teria origem "em outra vida". Exemplo? Seu filho Chase demonstrava horror ao ouvir rojões porque "havia morrido durante a guerra civil americana, no século passado". Carol dá conselhos sobre como agir. "O que você faria se, um dia, o seu filho tivesse uma lembrança de vida passada? Primeiro, não bata o carro! Não é piada. As lembranças surgem muito freqüentemente quando se está dirigindo, e são extremamente mobilizadoras. Se ficar nervosa ou perturbada, pare o carro e volte toda sua atenção para a criança." Levar o conselho a sério pode ser mais perigoso do que andar sem cinto de segurança.

Essas obras vendem feito pão quente porque, em geral, são escritas de olho num alvo fácil: a insegurança dos pais, que já não sabem mais o que fazer pelos filhos. Como eles trabalham fora, ficam pouco tempo em casa, carregam consigo um tremendo sentimento de culpa. Alguns tentam compensar a ausência entupindo os filhos de atividades, como natação, judô e aula de inglês. Outros buscam apoio na terapia, que custa dois ou três livros de auto-ajuda por semana e tem resultados demorados. Uma terceira leva cai na auto-ajuda. "Os pais dessa geração estão perdidos", explica Içami Tiba, psicólogo infantil e autor de vários livros sérios sobre educação. "Ainda não conseguiram chegar a um consenso entre a educação repressora, que receberam dos pais, e a educação liberal. Acabam tentando buscar as respostas nessas obras." Ler um livro desses não faz mal algum a quem compra. Assim como não faz mal algum ler bula de remédio ou edital de licitação pública. O problema é aquela desagradável sensação de perda de tempo que fica após a leitura.

É que esses livros pouco fazem além de listar algumas obviedades apresentadas com ar de novidade, além de um incontável número de bobagens supremas. "O diálogo é uma forma de conhecer o outro, de abertura, aprendizado e compromisso", vaticina Roberto Shinyashiki, em Pais e Filhos, Companheiros de Viagem. "Quando a família se diverte unida, ela se fortalece e o relacionamento entre seus membros flui com mais facilidade", pontifica Judy Ford, em Amar uma Criança. O cúmulo é um livreto intitulado Pais & Filhos, de um certo H. Jackson Brown Jr., que mais parece um panfleto. Mede 12 centímetros por 10 centímetros, tem só 96 páginas, é vendido por 5,50 reais e, em letras garrafais, dá uma ou duas dicas por página. Uma delas: "Saia de férias com a família e tire muitas fotos".

Um problema crucial desses títulos é que eles aconselham o leitor a comportar-se 24 horas por dia como um vendedor da Amway. Pode ser uma atitude eficiente no escritório, e pode até ajudar o candidato a galã em algumas conquistas amorosas durante a happy hour. Mas tem pouco a ver com a postura de um pai ou de uma mãe. Claro que o mercado editorial não está preocupado com isso. Tanto que, de cada cinco lançamentos que faz, um é de auto-ajuda. Como perceberam que tudo que diz respeito à criança vende, não querem perder tempo.

Produção importada No Brasil, foi o psiquiatra Roberto Shinyashiki, autor de Carícia Essencial, quem identificou o filão de ouro dos pais que se angustiam entre uma e outra troca de fralda. Há cinco anos ele lançou Pais e Filhos, Companheiros de Viagem, que vendeu 290.000 exemplares o equivalente aos sucessos de Paulo Coelho. O livro já está na 29ª edição, vende 2.200 exemplares por mês e abriu caminho para que seu autor fosse convidado para dezenas de palestras, a 6.000 reais cada uma. Mas o grosso da produção ainda é importado. O americano Daniel Goleman, guru da inteligência emocional, assinou o prefácio e referendou Inteligência Emocional e a Arte de Educar Nossos Filhos, escrito pelos discípulos John Gottman e Joan DeClaire. Vendeu 101.000 exemplares em dez meses.

Se o tilintar do caixa faz com que os livros do gênero animem escritores e editoras, psicólogos e pedagogos mais sérios se arrepiam só de ouvir falar neles. "Nenhum livro pode impor regras de sucesso na educação, pois a realidade de uma família é totalmente diferente da de outra", adverte a pedagoga Maria Angela de Azevedo Antunes, coordenadora do departamento de educação do Colégio Bandeirantes, de São Paulo. "É preciso ler essas obras com espírito crítico", adverte. Melhor: por que não investir o tempo gasto com alguns desses livros fazendo coisas mais úteis? Por exemplo, brincando com as crianças.

Pérolas da psicologia de botequim

"Construa cabanas de cobertores. Você sabia que as crianças gostam de brincar e de dormir em lugares aconchegantes? Dizem que é um instinto natural."
Judy Ford, em Amar uma Criança

"Para descobrir quanto de seu tempo é dedicado a dar atenção a seus filhos, pode ser proveitoso elaborar um gráfico semanal. Ao final de cada dia, registre o número de vezes que você interrompeu uma conversa com seu filho para dedicar-se a uma outra atividade. Esse gráfico irá mostrar-lhe ainda se algum dos filhos está recebendo mais atenção que outro."
Earl A. Grollman e Gerri L. Sweder, em Pais que Trabalham Fora

"Só monte o berço do bebê no quarto onde ele será usado. Caso contrário, você acabará descobrindo que é grande demais e não passa na porta."
"Ao atravessar a rua, segure a mão de seu filho."

H. Jackson Brown Jr., em Pais & Filhos

"Alguns pais, ao ver seu filho chorar por muito tempo, começam a ficar com raiva, como se o choro do bebê fosse uma acusação de sua incompetência, ou uma rejeição de seus cuidados. Às vezes é somente vontade de chorar. (...) Deixem o bebê um pouco em seu berço, coloquem uma música relaxante e preparem um chá para que vocês dois se tranqüilizem. Contem uma boa anedota de pais que não sabem desligar o botão do choro e esperem, porque depois de algum tempo o choro passa."
Roberto Shinyashiki, em Pais e Filhos, Companheiros de Viagem

"Uma das primeiras experiências que seu filho tem que possa provocar alguma sensação de excitação sexual, ou que possa mais tarde ter um significado sexual, é deitar em sua cama. (...) Se seu filho for para a sua cama, você deve evitar qualquer possibilidade de estímulos sexuais diretos e deve interrompê-lo se ele começar com isso."
Lee Salk, em O que Toda Criança Gostaria que Seus Pais Soubessem

"Incentive as crianças a acreditar que possuem controle sobre seus próprios corpos, particularmente sobre suas doenças. Educando os filhos a pensarem em si mesmos como capazes de curar, você os ensinará a evitar a hipocondria."
Wayne W. Dyer, O que Você Realmente Quer para Seus Filhos?




Copyright © 1997, Abril S.A.

Abril Online