O velho samurai

O grande mestre do jiu-jítsu diz que no Brasil o esporte virou briga de arruaceiros e prega o fim da violência

Raquel Almeida

"Sempre fui obcecado pela arte marcial e não queria saber muito de sexo"
Foto: Ted Soqui  

No sábado 27 de setembro, o Rio de Janeiro foi palco de uma pancadaria entre torcedores de vale-tudo aquela luta em que dois oponentes sobem no ringue e um deles sai desfigurado, de tanto murro e pontapé. A cena ocorreu no Tijuca Tênis Clube. De um lado estavam os adeptos da luta livre, que torciam por Eugênio Tadeu. De outro, a turma do jiu-jítsu, que defendia Renzo Gracie, pertencente à família que virou sinônimo de arte marcial no Brasil. Na confusão, cinco pessoas ficaram feridas. A prefeitura acabou proibindo o vale-tudo na cidade. Apontado como o maior mestre de jiu-jítsu, o brasileiro Hélio Gracie ficou triste com a baderna. Aos 84 anos, setenta deles no tatame, Gracie acha que o jiu-jítsu não é mais o mesmo, ficou truculento, e só promove a violência. No estilo do velho samurai, a agilidade é mais importante do que a força, o que torna a luta acessível a pessoas como ele: 60 quilos distribuídos em 1,75 metro de altura. Daí por que se irrita quando vê lutadores, vários da sua própria família, envolvidos em combates sangrentos. Morando boa parte do ano em Los Angeles, nos Estados Unidos, país onde vivem quatro de seus nove filhos, deu a seguinte entrevista a VEJA:

Veja Aos 84 anos, como o senhor se sente fisicamente?

Gracie Eu estou velho, mas não estou gasto. Não como carne há mais de sessenta anos. Nem lembro que gosto tem. Só como frutas, verduras e cereais. Não fumo, não bebo. Durmo de oito a dez horas por noite. Uma vez por mês, faço também um jejum completo de 24 horas. Ah, e namorei muito pouco na minha juventude. Sempre fui obcecado pelo jiu-jítsu e não queria saber muito de sexo.

Veja Sexo faz mal na hora do tatame?

Gracie Não, não é que faça mal. Mas há um consumo de energia muito grande para o ser humano. Tem camarada que faz isso toda hora. Perde uma fonte de energia. Como eu tinha a preocupação de me manter em bom estado físico, desenvolvi a força de vontade para ser comedido nessas coisas.

Veja O senhor acha que chega aos 100 anos?

Gracie Nunca tive dor de cabeça na minha vida, há quarenta anos que não tomo remédio algum e há dez anos não tenho nem resfriado. No estado em que eu me encontro, quer saber? Tenho a impressão de que passo dos 100.

Veja O senhor tem nove filhos, sete homens e todos professores ou lutadores de jiu-jítsu. As suas duas filhas mulheres não lutam?

Gracie Elas sabem o jiu-jítsu para uso pessoal, mas não são professoras porque eu sou contra mulher metida a atleta. Mulher não é atleta, mulher tem outras qualidades e características. Ser atleta é coisa para homem, fazer força é coisa de homem.

Veja Por que esse preconceito?

Gracie Não vejo a coisa assim.

Veja O senhor daria aula para um homossexual?

Gracie Eu até já tive alunos homossexuais, mas todos tipos discretos, homossexuais que não eram sem-vergonha. Isso é uma doença, uma fraqueza que eu abomino, mas não posso condenar ninguém por ser fraco ou ter um defeito. Alguns eu só descobri que eram depois. Mas os que eram não se manifestavam como tal. Se tivessem se manifestado, eu rifava.

Veja Dispensaria o aluno?

Gracie Exato.

Veja Vale-tudo é arte marcial ou briga de rua?

Gracie Essas lutas de agora começaram com o ultimate fighting inventado pelo meu filho mais velho, Rorion, nos Estados Unidos. O espetáculo não foi criado com o intuito de levar a briga de rua para o ringue, mas para propagar a nossa arte. Há 500 diferentes artes marciais espalhadas pelo mundo, e a idéia era promover um campeonato entre elas para saber qual a mais eficiente. E nosso jiu-jítsu sempre foi a mais eficiente. Tenho três filhos campeões do mundo nisso. Nunca um lutador nosso perdeu até que as regras foram modificadas e impuseram tempo para o combate acabar. Muito oponente se aproveita do tempo para fugir do lutador de jiu-jítsu. E esse não é o objetivo da nossa luta. Na nossa especialidade, você derrota o adversário sem pressa, com técnica e sem ter de empregar muita força. Meus filhos decidiram parar e eu os apoiei nisso. Agora consideram a possibilidade de voltar, desde que sejam modificadas algumas regras. Talvez recomecem já no próximo ano. Mas do jeito que a coisa está violenta, principalmente no Brasil, não estou gostando nem um pouco.

Veja No fim de semana passado, um lutador chegou a aparecer vibrando com o sangue que tinha tirado do adversário: isso é saudável?

Gracie É um absurdo. O mal é que o nosso povo está muito mal educado e as leis são muito suaves. Se você dá um tapa num sujeito nos Estados Unidos, o trabalho que você vai ter com a polícia é tão grande que você prefere não reagir. Aqui ninguém briga porque as leis são severas. No Brasil não há lei. Na competição de sábado saiu até tiro e ninguém foi preso. Aquilo foi uma vergonha. A medida tomada pelo Secretaria de Esportes, de proibir o vale-tudo no Rio, foi correta. Nossa arte não tem nada a ver com isso. Aquilo foi incompetência dos organizadores, que se preocuparam em ganhar dinheiro e fizeram um espetáculo sem a devida segurança para o público. Não pensaram nas conseqüências que um ambiente de competição, de luta pode provocar. E reuniram uma cambada de lutadores cafajestes, provocadores.

Veja A que o senhor atribui essa febre de luta?

Gracie O ser humano sempre teve fixação pelo poder físico. Todo mundo quer ser forte, porque isso é sinônimo de superioridade e segurança. É daí que vem essa febre de lutas marciais que até nos levou a fazer um campeonato para ver qual delas era a mais eficaz. Há muitas lutas boas, mas não sei dizer qual é a melhor delas nem se há enganação. O único conselho que posso dar a quem queira escolher uma arte marcial é procurar uma academia renomada, com professores de gabarito.

Veja Há muitas academias de segunda linha?

Gracie Infelizmente, há um número gigantesco de professores que se intitulam mestres do nosso jiu-jítsu e nenhum deles é diplomado por mim. Os diplomados por mim são só dez no Brasil. O resto mente. Há milhares desses que se dizem professores que aprenderam um pouco da luta, colocaram uma faixa preta na cintura e saem por aí se dizendo campeões. É por isso que eu estou nos Estados Unidos hoje e dou poucas aulas no Brasil. Muitas academias acabaram sendo tomadas por provocadores, brigões, gente que não presta. Estou desgostoso com a falta de controle, o mundo do jiu-jítsu sabe disso e faço questão de protestar contra o que está acontecendo sempre que viajo para o Brasil.

Veja Como é o seu protesto?

Gracie Pelo meu estágio no jiu-jítsu, tenho direito de usar a faixa mais graduada que existe, a vermelha. É com ela que apareço na academia dos meus filhos em Los Angeles. Já no Rio só uso a faixa de principiante, de cor azul. Fantasiaram tanta gente de faixa vermelha que eu faço isso de protesto. Resolvi voltar aos primórdios, já que não tem ninguém para controlar essa proliferação e distorção do jiu-jítsu. Não se deve ver o jiu-jítsu apenas pelo lado da competição, mas também do relaxamento, do exercício.

Veja A arte marcial é um exercício melhor que os outros?

Gracie Como eu era fraco, nunca consegui levantar mais de 40 quilos, jamais fiz ginástica. Só jiu-jítsu. Mas não diria que a arte marcial é melhor do que outros exercícios. A natação, por exemplo, é um dos melhores exercícios do mundo. Não exige força e é muito harmoniosa.

Veja Os filmes de pancadaria, estilo Jean-Claude van Damme, colaboram para o excesso de violência?

Gracie Não acredito. Esses filmes não apresentam luta séria e os atores não são lutadores de fato. Alguns até buscam orientação, como Chuck Norris e Steven Seagal, que já foram alunos de meus filhos. Mas eles são artistas de cinema. A atividade deles é fazer show usando movimentos extremamente plásticos. Ora, nem todos os golpes de uma luta são belos e artísticos. Quando dois lutadores vão ao chão, ficam ali agarrados, esperando o erro do adversário. Levar uma luta de verdade para o cinema poderia ser um tédio.

Veja Por que os Gracie têm fama de arruaceiros e provocadores?

Gracie O que acontece é que meu irmão Carlos teve 21 filhos. Sou tio-avô e bisavô de quase 100 Gracie, sem contar meus filhos. Muitos deles não seguem a minha orientação e extrapolam. Eu só assino embaixo do nome dos meus filhos. Desafio qualquer um a encontrar algum processo de agressão contra um deles. Os outros Gracie fazem o que querem. Essa família não tem mais controle. Cada um tem a sua cabeça, são todos maiores de idade e vacinados, mas o justo paga pelo pecador.

Veja O senhor não é de briga?

Gracie Quando jovem eu era brigão. Depois que aprendi jiu-jítsu deixei de ser, porque a autoconfiança faz você até perder a vontade de arrumar confusão. Na última grande encrenca em que me envolvi, há 66 anos, tinha 18 anos e bati num lutador famoso no Brasil, Manoel Rufino dos Santos, que era campeão de luta livre. Acabei quebrando a clavícula dele. Mas só respondi a uma provocação. Ele disse que ia provar que nós não éramos bons lutadores. E como ele já tinha antecipado que não ia lutar comigo, resolvi responder violentamente. Dei uma surra nele fora do ringue. Hoje me arrependo disso, foi uma criancice. Com a minha idade aprendi que foi uma tolice. Acho que só me envolveria numa nova confusão se fosse atacado na rua por um bandido.

Veja Com os conhecimentos que adquiriu, o senhor reagiria a um assalto?

Gracie Depende. Se tivesse condição de pegar o camarada, eu o pegaria, para lhe aplicar uma lição. Caso contrário, entregaria tudo o que tivesse. Reagir para morrer não é valentia, é burrice.

Veja Quem anda armado está mais seguro nas grandes cidades?

Gracie Eu já achei que sim, tanto que andei armado quando tinha meus 20 anos e viajava pelo interior do país. Levava a arma por precaução e graças a Deus nunca precisei usá-la. Mas hoje não ando mais armado. Atualmente o indivíduo que anda armado corre um risco muito grande. Primeiro, porque um bandido quando vai assaltar nunca está sozinho. Depois, o fator-surpresa está com ele, não com o cidadão de bem. Como se não bastasse, atirar, para o bandido, faz parte do ofício. Se vejo uma arma fico manso. Valente morto não leva vantagem nenhuma.

Veja Como o jiu-jítsu virou sinônimo da família Gracie?

Gracie O jiu-jítsu entrou em nossa família por meio do meu irmão, Carlos, que foi aluno de um campeão do mundo japonês, o Conde Koma. Esse japonês, depois de parar de lutar, virou chefe da imigração japonesa no Pará e foi o introdutor da arte marcial no Brasil. Quando nossa família veio para o Rio de Janeiro, meu irmão resolveu dar aulas de jiu-jítsu para ganhar a vida. Ele fundou a primeira academia da cidade, a Carlos Gracie, em 1925. Eu, ao contrário do meu irmão atleta, era um menino muito dado a ter vertigens, quase todo dia tinha princípios de desmaio. Ninguém sabia o que era. Fui considerado incapaz para praticar esportes. Cumprindo ordens médicas, Carlos não me ensinava nada do que sabia. Como eu passava muito mal, consegui convencer minha mãe de que não ia ser bom continuar estudando. Larguei os estudos no primário, e ia para a academia ver Carlos dar aulas. Tinha 14 ou 15 anos, ficava assistindo a muita aula, sabia tudo de cor, conhecia a lógica da luta, a trajetória do combate, e acabei virando um especialista teórico. Aí, minha vida deu uma virada.

Veja Como foi?

Gracie Um dia Carlos se atrasou, chegou um aluno para ter aula, o Mário Brant, filho do então presidente do Banco do Brasil, e eu me ofereci para passar o programa com ele só para ir adiantando. "Tá bom, Hélio, vamos brincar então", disse Mário. Quando meu irmão chegou, ele foi logo dizendo: "Olha, Carlos, não preciso mais ter aula com você hoje porque eu já tive com o Hélio, e se você não se importar eu gostaria de continuar tendo aula com ele". Carlos gostou da idéia e eu virei professor. Fui nomeado professor pelo aluno. Não era fácil. Como eu só assistia às aulas, explicava o golpe e mandava o aluno executar, mas na hora em que eu mesmo ia fazer não conseguia. Foi assim, em função da necessidade, que desenvolvi uma série de modificações no jiu-jítsu, hoje usadas em vários cantos do mundo. Os movimentos que eu faço não precisam de força, ao contrário dos movimentos de jiu-jítsu feitos no mundo inteiro. À medida que comecei a praticar, fui fazendo disso uma escola. Comecei a ensinar os alunos a fazer como eu. Hoje, a maior dificuldade para os alunos aprenderem minha técnica é o fato de eles serem muito fortes. Querem fazer força e substituí-la pela técnica. Quem faz força depois de determinado tempo acaba cansando. E aí perde a luta. Eu não me canso. Já fiz uma luta de quase quatro horas. É recorde mundial.

Veja O senhor ficou rico com o jiu-jítsu?

Gracie Sou o pobre mais rico do mundo porque tenho tudo que eu desejo sem ter dinheiro. Pensam que sou rico, porque moro num terreno que vale 5 milhões de dólares, que é meu sítio de Petrópolis, no Rio, e que foi comprado bem barato há trinta anos. Por isso, eles acham que eu fiquei rico. Meus filhos ganham um bom dinheiro com suas academias e suas exibições.

Veja Um bom lutador de jiu-jítsu é capaz de colocar na lona o Mike Tyson?

Gracie Coitadinho, ele foi desafiado, mas não quis saber.

Veja O que achou da última luta entre ele e o Evander Holyfield?

Gracie Sobre aquela luta só digo que, por 30 milhões de dólares, valor da bolsa de Tyson, eu mordo a orelha de qualquer um e dou dez orelhas novas para o cara.




Copyright © 1997, Abril S.A.

Abril Online