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Edição 2081

8 de outubro de 2008
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Um deus de olhos azuis


Miguel Barbieri Jr.

Bettmann/Corbis/Latinstock
GALÃ APESAR DELE MESMO
Paul Newman, no auge da beleza e da carreira: intérprete de anti-heróis e ícone romântico
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O azul dos olhos de Paul Newman era tão intenso que até em preto-e-branco se podia enxergar. Um dos homens mais bonitos da história do cinema, ele sabia da importância que suas feições, seu corpo esguio e os olhos, sempre os olhos, tinham para a indústria. Nem sempre viveu bem com isso. Era um ator treinado, que almejava submergir em cada um de seus personagens. Gostava de interpretar anti-heróis – homens com falhas profundas, ainda que não corrompidos – e quase não fez papéis convencionalmente românticos. Jamais se empenhou em fabricar uma imagem de galã. Newman realizou completamente a ambição de se tornar um grande ator, mas o resto não pôde controlar: a despeito de si próprio, tornou-se galã e símbolo romântico (seu passeio de bicicleta com Katharine Ross, em Butch Cassidy, é antológico nesse sentido). No dia 26 de setembro, depois de cinqüenta anos de carreira e mais de sessenta filmes, o ator morreu em Connecticut, em decorrência de um câncer no pulmão. Em maio, quando a doença o obrigou a sair de cena para tratamento, ele ainda planejava dirigir Ratos e Homens, de John Steinbeck, no teatro. Tinha 83 anos.

Newman não gostava de assistir a seus trabalhos, mas dizia que O Cálice Sagrado (1954), sua primeira investida no cinema e pelo qual recebeu 1 000 dólares por semana, era o pior deles. Ele havia estudado no lendário Actors Studio de Nova York, escola de Marlon Brando e James Dean, e temeu que o "deslize" pudesse manchar sua então promissora carreira. Newman voltou correndo à Broadway, onde estreara em 1952 na peça Picnic, e se reergueu diante das câmeras em filmes comandados por Robert Wise (Marcado pela Sarjeta), Arthur Penn (Um de Nós Morrerá) e Martin Ritt (O Mercador de Almas). O pulo-do-gato aconteceu em Gata em Teto de Zinco Quente, memorável adaptação da peça homônima de Tennessee Williams, que lhe valeu a primeira indicação ao Oscar de melhor ator, em 1959. Na corrida pela estatueta mais nove vezes, levou o prêmio em 1987 por A Cor do Dinheiro, de Martin Scorsese, no qual reencarnou brilhantemente o mesmo Eddie Felson de Desafio à Corrupção (1961).

Fora das telas e dos palcos, Newman também marcou forte presença. "É surpreendente que eu tenha sobrevivido às bebedeiras, ao cigarro, às corridas de carro e à profissão", disse ele certa vez, com uma ponta de ironia. A morte de seu único filho homem, fruto do primeiro casamento (com Jacqueline Witte), por overdose, em 1978, levou o ator a liderar campanhas contra as drogas. Ainda abatido pelo luto, abriu, em 1982, a empresa Newman’s Own, inicialmente especializada em molhos para saladas, e passou a doar todo o lucro para a caridade. Tinha orgulho de seu trabalho à frente da Hole in the Wall Gang Camp, instituição para cuidar de crianças com câncer. Newman, que era piloto profissional, adorava a alta velocidade e acompanhava de perto os resultados de sua equipe, a Newman-Haas, da Fórmula Indy.

Com Joanne Woodward, sua esposa desde 1958, teve três filhas e formou um dos casais mais sólidos de Hollywood. Foi também com Joanne, em Rachel, Rachel (1968), que se projetou como cineasta – Newman viria a dirigir outros cinco filmes, mas sem o mesmo êxito. Inimigo declarado de Richard Nixon, era democrata de carteirinha. Com sua morte, Barack Obama perdeu um ativista. Joanne perdeu seu querido companheiro de cinco décadas. E o cinema perdeu aqueles tão cintilantes olhos azuis.



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