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Televisão Elas hoje são bem mais liberadas que nos primórdios das novelas. Mas persiste o tabu: ir para a cama com um homem, só por amor
Lara (Mariana Ximenes), a patricinha da novela A Favorita, já bancou uma noitada num motel para o ex-namorado, o operário Cassiano. Com sua paixão atual, o golpista Halley (Cauã Reymond), viveu cenas tórridas no chuveiro de um vestiário. Os pombinhos dormem juntos e, nos próximos capítulos, passarão uns dias aos amassos num sítio. Lara, seus dois homens e a prostituta Céu (Deborah Secco) formam um quadrilátero amoroso. Entre eles, a palavra "preservativo" inexiste o mesmo Halley que vai para a cama com Lara engravidou Céu. A personagem diz muito sobre a evolução sexual das mocinhas das novelas. Lara teve mais de um parceiro. Suas aventuras de alcova são mostradas sem rodeios. Tudo o que faz é normal para os familiares. "Para uma paulistana de sua geração, ela é até casta", diz o noveleiro João Emanuel Carneiro. Mas uma heroína tão soltinha seria impensável nas novelas de antigamente. Nos anos 60, o sexo fora do casamento era pecado grave nos folhetins. Por engravidar solteira, a Maria Helena (Nathalia Timberg) de O Direito de Nascer (1964) sofreu um castigo: teve de virar freira. Até os anos 70, havia também os problemas com a censura. Em Selva de Pedra (1972), a vilã Fernanda (Dina Sfat) deitou-se com três homens e terminou louca, pois os censores exigiram punição. Para as mocinhas, o sexo era ainda mais proibitivo. Só em 1979 a figura da donzela que fazia sexo apenas depois de casada (e de forma velada) foi questionada. Foi o ano do seriado Malu Mulher em que Regina Duarte, ex-namoradinha do Brasil, causou escândalo como uma mulher separada e liberal. Foi também o ano de Pai Herói, folhetim de Janete Clair que trazia uma heroína com um quê feminista. A bailarina Carina (Elizabeth Savala) chocou o público quando revelou ao homem com o qual se casara que tinha uma filha de uma relação anterior. "Carina foi o ponto de mutação das heroínas", diz o doutor em teledramaturgia Mauro Alencar. "Elas conquistaram definitivamente o direito de ter mais de um parceiro." Dos anos 80 para cá, as novelas ganharam em realismo. Em Vale Tudo (1988), a mocinha interpretada por Lídia Brondi não só se permitiu ter mais de um homem: ela também arranjou um filho em esquema de "produção independente". Mesmo assim, a vida sexual das heroínas até aí era mais sugerida que explicitada. Isso mudou para valer só nos anos 90. A partir de então, tornou-se comum a coexistência de reprimidas e liberadas numa mesma novela. Em Laços de Família (2000), Vera Fischer envolvia-se com três parceiros, enquanto sua filha se mantinha fiel a um único amor. Apesar das mudanças, as novelas atuais continuam a pagar pedágio aos velhos folhetins num aspecto: ainda é vedado às heroínas usar o sexo como arma. A manipulação do desejo é atributo negativo e, como tal, terreno preferencial das vilãs. Tudo bem se uma maluca como a Nazaré (Renata Sorrah) de Senhora do Destino fosse sadomasoquista: era o que se esperava dela. A atual trama das 8 da Globo tem outro caso interessante: Dedina (Helena Ranaldi), a primeira-dama que trai o marido prefeito com um fortão. Embora ela não seja movida pela maldade, as espectadoras a vêem como megera. Para evitarem a repulsa, as heroínas têm de seguir regras. Só podem ir para a cama por amor. Trair, nem pensar. Lara se entregou a Halley apenas depois de ver o ex com outra. "Não fosse assim, ela seria vista como desleal", diz Carneiro. Ou, como pondera o noveleiro Silvio de Abreu: "A Lara provou, comparou e escolheu entre dois namorados. Mas fez isso com dignidade".
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