Auto-Retrato
Nilton
Rennó
O engenheiro brasileiro
Nilton Rennó, de 48 anos, é chefe da equipe de pesquisadores da
Nasa que identificou a presença de água em Marte. Rennó,
que vive nos Estados Unidos desde 1986, é professor da Universidade de
Michigan e está na missão da sonda Phoenix desde o início,
em 2001. Ele conversou com o repórter Leandro Narloch.
Como
o senhor foi parar na Nasa?
Na década de 80, vim para os Estados
Unidos para fazer doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT,
na sigla em inglês). Decidi cursar ciências atmosféricas porque
o meu hobby era voar. Pensava em estudar a atmosfera para ganhar campeonatos de
vôo a vela. Aos poucos, virei cientista planetário. Quando a Nasa
anunciou a oportunidade de estudar Marte, eu me candidatei. Agora tenho dois hobbies:
Marte e o planador.
A água
encontrada em Marte é líquida a mais de 50 graus negativos. O que
significa?
Já se sabia que, abaixo de alguns centímetros
de poeira assentada, a superfície marciana é composta de gelo. Nós
conseguimos detectar a presença de perclorato de magnésio, um sal
que, em contato com o gelo, forma uma solução líquida, um
gel, a partir de 70 graus abaixo de zero. No verão do planeta, esse sal
faz a camada mais superficial do gelo ficar pastosa.
Como
sabemos disso?
Temos evidências da existência de gel no ponto
onde a sonda arranhou o solo ao pousar. Isso ainda não foi anunciado oficialmente,
mas a descoberta é irrefutável. O motor da Phoenix comprimiu e esquentou
a superfície a ponto de derreter um pouco do gelo, esparramando uma lama
salgada pela sonda. Essa lama absorve o vapor da atmosfera e forma gotas de água.
Procuramos essas imagens e achamos evidências superclaras.
Outros cientistas da Phoenix questionaram a descoberta
de água em Marte. Por que a divergência?
Isso decorre da diferença
de métodos e dos locais que analisamos. A outra equipe tentou encontrar
água medindo a condutividade elétrica do solo. Como um solo molhado
é melhor condutor de eletricidade do que um solo seco, a equipe finca agulhas
e mede a condutividade entre elas. O problema é que eles analisaram uma
área exposta ao sol e por isso não verificaram a existência
de água. A minha descoberta de água entre 1 e 20 centímetros
de profundidade é um fato. Foi aceita pela comunidade científica
em palestras que demos na Europa e aqui nos Estados Unidos. Mas há realmente
discussões dentro da equipe. Nem todo mundo concorda com nossa descoberta.
É preciso ter paciência com os vários grupos de cientistas
da Nasa.
Existe muita ciumeira
entre os cientistas da Nasa?
Como são dezenas de pesquisadores trabalhando
com equipes diferentes, é necessário lidar com cuidado com os co-pesquisadores.
A comunidade científica já entendeu a descoberta de água
em Marte. Mas quem tem de dar autorização para publicá-la
é o chefe da missão Phoenix. Se ele ainda não fez isso, é
porque precisa evitar atritos com outros pesquisadores.
Quando
vamos encontrar vida fora da Terra?
Não deve demorar muito, já
que a probabilidade é altíssima. Mais cedo ou mais tarde, vamos
achar bactérias ou o rastro delas. As bactérias começaram
a surgir logo no início da história da Terra, há mais de
3 bilhões de anos. É difícil imaginar que, em todo esse tempo,
outros lugares não tenham tido condições de abrigar alguma
forma de vida. Talvez a gente encontre vida em 2010, com a próxima sonda
que irá a Marte, a Mars Science Laboratory. Se a principal missão
da Phoenix era descobrir água, a MSL é um laboratório de
microbiologia. Os pesquisadores costumam não comentar isso, mas o objetivo
das sondas é achar vida fora da Terra.