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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Salvem as florestas temperadas!
"A
destruição das florestas temperadas
é
uma das razões dos maciços subsídios
que a Europa e os Estados Unidos dão
à
agricultura, motivo de nossos
protestos junto à OMC"
Ilustração Ale Setti
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No filme A Bruxa de Blair, sucesso de bilheteria do cinema alternativo
americano, há uma cena que fez meu sangue de ecologista amador
brasileiro e defensor do crescimento sustentável literalmente
borbulhar.
Os três estudantes do longa estão totalmente perdidos
numa floresta da Nova Inglaterra e a garota começa a entrar
em pânico achando que nunca mais sairia daquela selva. Seu
colega então diz algo parecido com: "Não seja idiota,
nós destruímos todas as nossas florestas temperadas.
É só andarmos meia hora em linha reta que logo sairemos
daqui".
Ecologistas do mundo todo vivem fazendo protestos para preservar
a floresta tropical brasileira, mas raramente param para refletir
sobre essa corajosa crítica contida nesse filme, que fez
tanto sucesso.
Se alguém se perder na Floresta Amazônica, poderá
ter de andar por noventa dias até achar uma saída,
tal o nível de preservação de nossa Amazônia,
comparada com as demais florestas.
Então, não seria correto também discutir a
reconstituição das florestas temperadas, há
muito tempo dizimadas? Na Europa e nos Estados Unidos, 98% a 99%
das florestas foram destruídas. O "Crescente Fértil"
descrito na Bíblia é hoje o Iraque da "Desert Storm".
Em contrapartida, 86% da Floresta Amazônica continua intacta.
No famoso Museu Smithsonian de Washington, vi um painel que orgulhosamente
mostrava um pioneiro derrubando uma árvore para criar uma
área arável e poder "suprir nossos antepassados com
a comida necessária".
Destruíram tantas florestas temperadas para plantar comida
que hoje eles têm muito mais agricultores do que o necessário,
a maioria economicamente inviável. Com a produtividade atual
da agricultura, bastaria cultivar as planícies naturais que
todos os países já possuem.
A destruição das florestas temperadas é uma
das razões dos maciços subsídios que a Europa
e os Estados Unidos dão à agricultura, razão
de nossos protestos junto à OMC.
Quando negociadores do governo brasileiro reclamam desses subsídios,
a resposta é que eles são necessários para
manter a população no campo. Caso contrário,
os países teriam enormes espaços e terras vazias,
com todo mundo vivendo nas cidades.
O erro dessa lógica política está na frase
"espaços e terras vazias", uma vez que essas terras não
eram "vazias" antes de as florestas temperadas serem dizimadas.
Há muito deveríamos ter colocado na agenda mundial
a necessidade da reconstituição das florestas temperadas
ao lado da preservação da Floresta Amazônica
o que exigiria dos países desenvolvidos a lenta substituição
dos agricultores subsidiados por guardas e bombeiros florestais
em constante vigilância. Pelo menos os agricultores passariam
a ser úteis, em vez de receber subsídios para nada
plantarem. Os espaços não ficariam vazios, como temem
os políticos desses países. Voltariam ao equilíbrio
original.
Isso teria importantes conseqüências econômicas
para o Terceiro Mundo. Acabaria com os enormes subsídios
agrícolas e equilibraria a balança comercial de muito
país em desenvolvimento.
Bjorn Lomborg, autor do The Skeptical Environmentalist, escreve
na página 117 uma frase de muita coragem política:
"Que base nós (Primeiro Mundo) temos para nos indignarmos
com o desmatamento das florestas tropicais, considerando o nosso
desmatamento na Europa e Estados Unidos? É uma hipocrisia
aceitar que nós nos beneficiamos imensamente da destruição
de enormes áreas de nossas próprias florestas mas
não vamos permitir que países em desenvolvimento se
beneficiem como nós o fizemos. Se não quisermos que
eles usem seus recursos naturais do jeito que nós usamos
os nossos, devemos compensá-los de acordo". Obviamente, ele
foi massacrado por seus colegas.
Da próxima vez que um amigo, um jornalista ou um diplomata
estrangeiro lhe indagar sobre o que estamos fazendo com nossa Floresta
Amazônica, antes de responder, pergunte-lhe o que ele está
fazendo para reconstituir 85% de suas florestas temperadas.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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