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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Momento de assombro
nas Laranjeiras
O
dia em que
Alceu Amoroso
Lima
bateu
à
porta de
seu arqui-rival
Gustavo
Corção
Nos primeiros meses de 1967 um grave acidente de carro vitimou o
quarto dos sete filhos de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de
Ataíde (1893-1983) um dos mais respeitados e influentes
intelectuais de seu tempo, famoso pensador católico e crítico
literário. Jorge Alceu, esse o nome do filho, ficou em estado
de coma. Pode-se adivinhar a aflição da família,
absorta entre as orações e a vigília no hospital.
A alturas tantas Alceu tomou uma decisão tão surpreendente
quanto desassombrada, mais talvez do que sua conversão da
indiferença ao fervor religioso, nos idos de 1928, ou do
que sua caminhada, nas posições políticas,
da direita para a esquerda. Decidiu que tinha de visitar Gustavo
Corção.
Vai se retomar aqui o livro resenhado na página 130 desta
edição de VEJA, Cartas do Pai, uma coletânea
das cartas enviadas por Alceu a outro membro de sua prole, a filha
Lia, tornada freira com o nome de madre Maria Teresa. É nesse
livro, na carta datada de 28 de março de 1967, que se encontra
o episódio em questão. Alceu e Corção
(1896-1978), ambos escritores, e ambos as mais destacadas expressões
do pensamento católico do período, eram antigos companheiros
que a política, o modo de encarar a religião e a visão
do mundo em geral transformaram em antípodas. Note-se que,
naquele ano de 1967, vivia-se sob o regime militar. Alceu era um
dos maiores críticos da situação vigente, enquanto
Corção era de seus mais radicais defensores. O momento
agudizava a desavença entre ambos, mas ela já vinha
de antes, ia muito além, e alcançava muito mais fundo.
Alceu alinhava-se com uma Igreja renovada, aberta para as questões
sociais. Corção fechava-se no tradicionalismo. Em
política, não era apenas anticomunista. Mesmo o liberalismo
lhe parecia suspeito.
Ambos dispunham de tribunas importantes nos jornais. Alceu tinha
seus artigos publicados no Jornal do Brasil e na Folha
de S. Paulo. Corção, no Globo e no Estado
de S. Paulo. Corção atacava Alceu. Alceu tinha
por norma não responder. Mas o que pensava de Corção
está amplamente expresso nas cartas à filha. "Seremos
sempre uma ilha. Jamais um continente", escreve, a propósito
do rival, numa carta de 1959. O tom a essa altura ainda é
ameno. Na carta de 13 maio de 1964, Corção já
era "a jaguatirica das Laranjeiras", o "Torquemadinha". Alceu falava
nos "Corções" ou nas atitudes "corçonianas",
quando se referia a pessoas ou gestos intransigentes. Pois eis que
depois de anos de conflito e de afastamento físico resolve-se,
em meio à aflição pelo estado do filho, a transpor
a toca da jaguatirica.
Dirigiu-se uma primeira vez à residência de Corção,
no bairro carioca das Laranjeiras, mas não o encontrou. Voltou
mais tarde, viu luz acesa, bateu à porta. Era um tempo, talvez
o finzinho do tempo, em que se faziam visitas sem avisar. O próprio
Corção entreabriu o postigo para ver quem era, depois
o convidou a entrar. "Como ele está velhinho!", comenta Alceu
com a filha. Alceu começa por explicar o motivo da visita:
"Você sabe que estou com um filho passando muito mal". Corção
responde que sabia e que vinha rezando por ele. Alceu conta então
o que acontecera com ele dias antes: "Durante a missa, pergunto
a Nosso Senhor: 'Qual o maior sacrifício que posso fazer
pela vida do Jorge?'. E ele, sem hesitar: 'Uma visita ao Corção'".
O leitor entendeu bem: Alceu julgou ter recebido a ordem
ou sugestão de Jesus. Relutou, mas resolveu acatá-la.
Mal comparando, seria como se Sharon resolvesse visitar Arafat.
Ou Bush abrisse espaço na agenda para Saddam. Não.
Retiremos as comparações capengas. Além de
exageradas, não convêm a dois homens que, pela religiosidade,
e ao contrário dos vulgares personagens citados, não
podiam nem deviam abrigar ódio no coração.
Alceu contou a Corção que, tomada a decisão,
passou a receber boas notícias. O filho começava a
se mover, chegou a abrir os olhos. Corção, nesse momento,
levantou-se e beijou-o. Alceu lhe disse: "Nossas divergências
são de idéias, mas no Coração de Jesus
estamos unidos, agora e para sempre". Corção pôs-se
a chorar convulsivamente. "Beijei-lhe a mão e saí",
conclui Alceu.
Não se pode chamar o que aconteceu entre os dois de reconciliação.
Em posteriores cartas à filha, Alceu volta a tratar Corção
como o adversário de sempre. Em dezembro de 1968, na ressaca
amarga do Ato Institucional n° 5, desabafa: "Esse o clima de
terror em que estamos vivendo, com os Corções e companhia
tomando champanhe e os homens de bem atrás das grades". Isso
não diminui o peso de um episódio que combina desassombro
e assombro o desassombro de Alceu em procurar o rival, e
mesmo do rival em recebê-lo, e, para quem está de fora,
o assombro de acompanhar os passos de intelectuais que se deixavam
guiar tanto pelas reles contingências da vida quanto pelos
avisos do sobrenatural. (Em tempo: Jorge Alceu sobreviveu ao acidente,
embora com seqüelas que o prejudicaram gravemente pela vida
afora. Morreu em maio de 2002.)
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