Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Momento de assombro
nas Laranjeiras

O dia em que Alceu Amoroso Lima bateu
à porta de seu arqui-rival Gustavo Corção

Nos primeiros meses de 1967 um grave acidente de carro vitimou o quarto dos sete filhos de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde (1893-1983) – um dos mais respeitados e influentes intelectuais de seu tempo, famoso pensador católico e crítico literário. Jorge Alceu, esse o nome do filho, ficou em estado de coma. Pode-se adivinhar a aflição da família, absorta entre as orações e a vigília no hospital. A alturas tantas Alceu tomou uma decisão tão surpreendente quanto desassombrada, mais talvez do que sua conversão da indiferença ao fervor religioso, nos idos de 1928, ou do que sua caminhada, nas posições políticas, da direita para a esquerda. Decidiu que tinha de visitar Gustavo Corção.

Vai se retomar aqui o livro resenhado na página 130 desta edição de VEJA, Cartas do Pai, uma coletânea das cartas enviadas por Alceu a outro membro de sua prole, a filha Lia, tornada freira com o nome de madre Maria Teresa. É nesse livro, na carta datada de 28 de março de 1967, que se encontra o episódio em questão. Alceu e Corção (1896-1978), ambos escritores, e ambos as mais destacadas expressões do pensamento católico do período, eram antigos companheiros que a política, o modo de encarar a religião e a visão do mundo em geral transformaram em antípodas. Note-se que, naquele ano de 1967, vivia-se sob o regime militar. Alceu era um dos maiores críticos da situação vigente, enquanto Corção era de seus mais radicais defensores. O momento agudizava a desavença entre ambos, mas ela já vinha de antes, ia muito além, e alcançava muito mais fundo. Alceu alinhava-se com uma Igreja renovada, aberta para as questões sociais. Corção fechava-se no tradicionalismo. Em política, não era apenas anticomunista. Mesmo o liberalismo lhe parecia suspeito.

Ambos dispunham de tribunas importantes nos jornais. Alceu tinha seus artigos publicados no Jornal do Brasil e na Folha de S. Paulo. Corção, no Globo e no Estado de S. Paulo. Corção atacava Alceu. Alceu tinha por norma não responder. Mas o que pensava de Corção está amplamente expresso nas cartas à filha. "Seremos sempre uma ilha. Jamais um continente", escreve, a propósito do rival, numa carta de 1959. O tom a essa altura ainda é ameno. Na carta de 13 maio de 1964, Corção já era "a jaguatirica das Laranjeiras", o "Torquemadinha". Alceu falava nos "Corções" ou nas atitudes "corçonianas", quando se referia a pessoas ou gestos intransigentes. Pois eis que depois de anos de conflito e de afastamento físico resolve-se, em meio à aflição pelo estado do filho, a transpor a toca da jaguatirica.

Dirigiu-se uma primeira vez à residência de Corção, no bairro carioca das Laranjeiras, mas não o encontrou. Voltou mais tarde, viu luz acesa, bateu à porta. Era um tempo, talvez o finzinho do tempo, em que se faziam visitas sem avisar. O próprio Corção entreabriu o postigo para ver quem era, depois o convidou a entrar. "Como ele está velhinho!", comenta Alceu com a filha. Alceu começa por explicar o motivo da visita: "Você sabe que estou com um filho passando muito mal". Corção responde que sabia e que vinha rezando por ele. Alceu conta então o que acontecera com ele dias antes: "Durante a missa, pergunto a Nosso Senhor: 'Qual o maior sacrifício que posso fazer pela vida do Jorge?'. E ele, sem hesitar: 'Uma visita ao Corção'". O leitor entendeu bem: Alceu julgou ter recebido a ordem – ou sugestão – de Jesus. Relutou, mas resolveu acatá-la.

Mal comparando, seria como se Sharon resolvesse visitar Arafat. Ou Bush abrisse espaço na agenda para Saddam. Não. Retiremos as comparações capengas. Além de exageradas, não convêm a dois homens que, pela religiosidade, e ao contrário dos vulgares personagens citados, não podiam nem deviam abrigar ódio no coração. Alceu contou a Corção que, tomada a decisão, passou a receber boas notícias. O filho começava a se mover, chegou a abrir os olhos. Corção, nesse momento, levantou-se e beijou-o. Alceu lhe disse: "Nossas divergências são de idéias, mas no Coração de Jesus estamos unidos, agora e para sempre". Corção pôs-se a chorar convulsivamente. "Beijei-lhe a mão e saí", conclui Alceu.

Não se pode chamar o que aconteceu entre os dois de reconciliação. Em posteriores cartas à filha, Alceu volta a tratar Corção como o adversário de sempre. Em dezembro de 1968, na ressaca amarga do Ato Institucional n° 5, desabafa: "Esse o clima de terror em que estamos vivendo, com os Corções e companhia tomando champanhe e os homens de bem atrás das grades". Isso não diminui o peso de um episódio que combina desassombro e assombro – o desassombro de Alceu em procurar o rival, e mesmo do rival em recebê-lo, e, para quem está de fora, o assombro de acompanhar os passos de intelectuais que se deixavam guiar tanto pelas reles contingências da vida quanto pelos avisos do sobrenatural. (Em tempo: Jorge Alceu sobreviveu ao acidente, embora com seqüelas que o prejudicaram gravemente pela vida afora. Morreu em maio de 2002.)

 
 
 
 
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