Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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Livros
Alceu redivivo
e por inteiro

Nas cartas à filha, o retrato acabado de um
homem de densa presença em seu tempo


Roberto Pompeu de Toledo

 
Fotos arquivo pessoal
Nas ruas do Rio, em 1965, e com a filha na casa de Petrópolis, em 1972


Trechos do livro

Não há mais grandes homens. Eles estão fora de moda. Ou, talvez, desacreditados. Houve tempo em que, nos discursos, nos manuais escolares e nos editoriais dos jornais, tantos eram os grandes homens que eles se gastaram como moeda velha. Mas como qualificar o escritor, professor, crítico literário, pensador e líder católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983)? Como escritor deixou obra considerável mas dispersiva, e nenhum livro que sobressaia na paisagem. Como crítico teve papel destacado, mas outros foram tão destacados quanto ele. Como pensador e líder católico, sim, pode-se dizer que ninguém o igualou – mas ainda assim proclamá-lo o maior, nessa categoria, não lhe faz inteira justiça. Fiquemos com o "grande homem". Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde – pseudônimo literário que adotou em 1919, ao iniciar sua colaboração nos jornais –, foi um grande homem.


Vinte anos depois de sua morte, Alceu ressurge num livro que reúne um dos labores literários mais intensos e originais de que se tem registro no Brasil – a correspondência diária (diária!) que manteve com a filha Lia desde que esta se recolheu ao mosteiro das beneditinas, em 1951, aos 22 anos, tomando o nome de madre Maria Teresa, até morrer. Cartas do Pai, este o nome do livro (Instituto Moreira Salles, 675 páginas, 78 reais), primeiro do que se espera seja uma série, enfeixa uma seleção das cartas do período entre 1958 e 1968. Em 1992, o superintendente executivo do Instituto Moreira Salles, Antonio Fernando De Franceschi, já instara madre Maria Teresa a publicá-las. Ela respondeu que não era hora. Oito anos depois, segundo revela De Franceschi no prefácio do livro, resolveu fazê-lo. Que aconteceu? "Um dia", disse a filha, "foi como se papai me tivesse feito um sinal, e senti que a hora havia chegado". A caprichada edição que chega às livrarias tem estofo para, mais que os livros que escreveu, fazer as vezes de síntese do legado de Alceu. Nela, ele se apresenta multiplicado – em alguns momentos pensador das grandes questões do espírito, em outros confessional, em outro ainda memorialista que se debruça sobre a própria infância ou mocidade. De permeio, é sempre o cronista das pequenas e grandes coisas do dia. As cartas, ele no Rio, em Petrópolis, onde tinha outra residência, ou em andanças pelo Brasil ou pelo mundo, e a filha no mosteiro em São Paulo, eram em geral a primeira atividade a que se dedicava, logo antes ou logo depois do diário comparecimento à missa. A filha pedia que ele contasse "tudo".

A beleza de uma relação pai e filha embebida no afeto e na partilha de uma vivência religiosa profunda envolve todo o volume. De resto, se é para reduzir à sua essência o vasto manancial de temas abordados, neles se distinguem duas vertentes principais. A primeira é a religiosa, composta tanto de reflexões teológicas quanto de comentários sobre papas, bispos e a vida da Igreja em geral. Entre as reflexões teológicas enquadra-se a carta de fevereiro de 1960 em que Alceu desenvolve a tese, cheia de pasmo e mistério, de que "nós só repetimos no tempo o que já fizemos na mente de Deus". "Você já pensou nisso?", pergunta à filha. Para resumir o irresumível, a tese é de que, se Deus é tudo, e vem primeiro que tudo, tudo o que se vive já estava em Deus – "não só previsto... mas feito". Quanto à vida da Igreja, Alceu atém-se a ela com atenção de partícipe no jogo. Quando João XXIII foi eleito papa, em 1958, ele temeu que se tratasse de um papa fraco, fácil presa da ala conservadora da Cúria Romana. Seria uma decepção para quem, como ele, vindo da direita, e tendo nos anos 30 namorado o integralismo, a versão brasileira do fascismo, agora se situava na vanguarda da esquerda católica. "O Vaticano vai guinar para a direita, isto é, para o catolicismo aliado à aristocracia e à burguesia, e separar-se das classes populares", escreveu. Erro crasso. Nunca a Igreja conheceu guinada à esquerda como sob João XXIII. Depois que isso ficou claro, João XXIII passa a ser, nas cartas, "o nosso João", "o grande papa", "o maior".

A segunda vertente que se distingue nas cartas são as vicissitudes da política brasileira. O período coberto pelo volume é dos mais atribulados. Vai de Juscelino (que, segundo Alceu, governava "carnavalescamente") até a noite do Ato Institucional nº 5. No governo João Goulart (1961-1964) instaura-se a era de radicalização que dilacera o país entre direita e esquerda. Alceu, à esquerda, defende uma legalidade a cada dia mais ameaçada. "Se tudo não acabar em ditadura militar, só mesmo porque Deus não quis", escreve, em setembro de 1963. Carlos Lacerda, o mais feroz inimigo do governo, era para ele "o doido", "o fanático", o adepto do "quanto pior, melhor". Desde 1958, Alceu escrevia duas vezes por semana no Jornal do Brasil. Seus artigos converteram-no em campeão intelectual dos avanços sociais – mas, também, em inimigo dos que viam perigo nos avanços.

As tensões da era Jango ainda não eram nada. Vem o golpe – e no próprio dia 31 de março de 1964 recebe um telefonema de San Tiago Dantas, político respeitado, ex-ministro de Jango. "O senhor já imaginou a possibilidade de termos diante de nós vinte anos de reacionarismo?", observou San Tiago. A previsão, aliás certeira, ecoou nos ouvidos de Alceu enquanto viveu. "Temos apenas um ano e meio de ditadura", escreveu, em outubro de 1965. "Faltam apenas... dezoito e meio." Em dezembro de 1968, acabrunhado pelo AI-5, baixado no mês em que completara 75 anos, voltaria à previsão dos vinte anos. "Já estamos com quase um quarto (desse tempo) passado", escreveu. "Como não poderei assistir aos outros três quartos, terei de viver neste túnel ditatorial até a morte."

Foi na ditadura, porém, durante a qual cavou em seus espaços na imprensa uma trincheira de resistência que os donos do poder não ousaram romper, que Alceu atingiu a estatura acabada de "grande homem". Uma vez, na correspondência com a filha, ele citara um verso do francês Stéphane Mallarmé, dedicado à memória do americano Edgar Allan Poe: "Tel qu'en lui même enfin l'eternité le change" ("A eternidade enfim transformou-o nele mesmo", em tradução livre). Em seu próprio caso, não foi preciso esperar a eternidade. A oposição à ditadura transformou-o nele mesmo. Travestido em baluarte contra o arbítrio, era tanto mais incômodo aos generais quanto representava um baluarte moral. O regime, se não ousou calá-lo, tentou cooptá-lo. Quando publicou um artigo em cujo título cunhava uma expressão que se tornaria famosa, "terrorismo cultural", recebeu telefonema do próprio Castello Branco, o primeiro dos generais-presidentes. Mais adiante, Costa e Silva, o segundo, pediu-lhe, e obteve, uma entrevista "secreta", pouco antes de tomar posse. Nos dois casos, o poder fazia soar em seus ouvidos o canto de sereia.

O "esquerdismo" de Alceu precisa ser nuançado. Ele se opunha ao comunismo e se alarma sempre, na correspondência, com os avanços da União Soviética. Era um democrata. Regia-se pela legalidade e tinha na liberdade um valor supremo. O Ato Institucional nº 2, que em outubro de 1965 deu uma volta no parafuso da ditadura, transtornou-o a ponto de confessar à filha que estava desejando a morte, "a morte como libertação", embora consciente de que não se tratava de uma "solução cristã". Mais adiante, quando o AI-5 aplicou outra e definitiva volta no mesmo parafuso, sua exasperação passa a expressar-se em desabafos contra o "sargentão" Costa e Silva e os "cangaceiros que se apoderaram do Brasil". Num momento em que se enchiam os cárceres da ditadura, afirmou à filha que tinha "vergonha de estar solto". O desânimo não o dobrou, porém. Na verdade, a mesquinharia do regime alimentava-lhe a grandeza. Ele como que rejuvenescia, fenômeno que foi assim traduzido por um amigo, o educador Anísio Teixeira: "O Amoroso Lima está terminando a vida numa aurora". Numa carta de 1966, ao contar à filha a frase de Anísio Teixeira, Alceu comenta: "Bacana, não?".

 
 
 
 
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