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Livros
Alceu redivivo e
por inteiro
Nas cartas à filha, o retrato acabado de
um
homem de densa presença em seu tempo

Roberto Pompeu de Toledo
Fotos arquivo pessoal
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| Nas
ruas do Rio, em 1965, e com a filha na casa de Petrópolis, em
1972 |
Não
há mais grandes homens. Eles estão fora de moda. Ou,
talvez, desacreditados. Houve tempo em que, nos discursos, nos manuais
escolares e nos editoriais dos jornais, tantos eram os grandes homens
que eles se gastaram como moeda velha. Mas como qualificar o escritor,
professor, crítico literário, pensador e líder
católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983)? Como escritor deixou
obra considerável mas dispersiva, e nenhum livro que sobressaia
na paisagem. Como crítico teve papel destacado, mas outros
foram tão destacados quanto ele. Como pensador e líder
católico, sim, pode-se dizer que ninguém o igualou
mas ainda assim proclamá-lo o maior, nessa categoria,
não lhe faz inteira justiça. Fiquemos com o "grande
homem". Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde
pseudônimo literário que adotou em 1919, ao iniciar
sua colaboração nos jornais , foi um grande
homem.
Vinte
anos depois de sua morte, Alceu ressurge num livro que reúne
um dos labores literários mais intensos e originais de que
se tem registro no Brasil a correspondência diária
(diária!) que manteve com a filha Lia desde que esta se recolheu
ao mosteiro das beneditinas, em 1951, aos 22 anos, tomando o nome
de madre Maria Teresa, até morrer. Cartas do Pai, este
o nome do livro (Instituto Moreira Salles, 675 páginas, 78
reais), primeiro do que se espera seja uma série, enfeixa
uma seleção das cartas do período entre 1958
e 1968. Em 1992, o superintendente executivo do Instituto Moreira
Salles, Antonio Fernando De Franceschi, já instara madre
Maria Teresa a publicá-las. Ela respondeu que não
era hora. Oito anos depois, segundo revela De Franceschi no prefácio
do livro, resolveu fazê-lo. Que aconteceu? "Um dia", disse
a filha, "foi como se papai me tivesse feito um sinal, e senti que
a hora havia chegado". A caprichada edição que chega
às livrarias tem estofo para, mais que os livros que escreveu,
fazer as vezes de síntese do legado de Alceu. Nela, ele se
apresenta multiplicado em alguns momentos pensador das grandes
questões do espírito, em outros confessional, em outro
ainda memorialista que se debruça sobre a própria
infância ou mocidade. De permeio, é sempre o cronista
das pequenas e grandes coisas do dia. As cartas, ele no Rio, em
Petrópolis, onde tinha outra residência, ou em andanças
pelo Brasil ou pelo mundo, e a filha no mosteiro em São Paulo,
eram em geral a primeira atividade a que se dedicava, logo antes
ou logo depois do diário comparecimento à missa. A
filha pedia que ele contasse "tudo".
A beleza de uma relação pai e filha embebida no afeto
e na partilha de uma vivência religiosa profunda envolve todo
o volume. De resto, se é para reduzir à sua essência
o vasto manancial de temas abordados, neles se distinguem duas vertentes
principais. A primeira é a religiosa, composta tanto de reflexões
teológicas quanto de comentários sobre papas, bispos
e a vida da Igreja em geral. Entre as reflexões teológicas
enquadra-se a carta de fevereiro de 1960 em que Alceu desenvolve
a tese, cheia de pasmo e mistério, de que "nós só
repetimos no tempo o que já fizemos na mente de Deus". "Você
já pensou nisso?", pergunta à filha. Para resumir
o irresumível, a tese é de que, se Deus é tudo,
e vem primeiro que tudo, tudo o que se vive já estava em
Deus "não só previsto... mas feito". Quanto
à vida da Igreja, Alceu atém-se a ela com atenção
de partícipe no jogo. Quando João XXIII foi eleito
papa, em 1958, ele temeu que se tratasse de um papa fraco, fácil
presa da ala conservadora da Cúria Romana. Seria uma decepção
para quem, como ele, vindo da direita, e tendo nos anos 30 namorado
o integralismo, a versão brasileira do fascismo, agora se
situava na vanguarda da esquerda católica. "O Vaticano vai
guinar para a direita, isto é, para o catolicismo aliado
à aristocracia e à burguesia, e separar-se das classes
populares", escreveu. Erro crasso. Nunca a Igreja conheceu guinada
à esquerda como sob João XXIII. Depois que isso ficou
claro, João XXIII passa a ser, nas cartas, "o nosso João",
"o grande papa", "o maior".
A segunda vertente que se distingue nas cartas são as vicissitudes
da política brasileira. O período coberto pelo volume
é dos mais atribulados. Vai de Juscelino (que, segundo Alceu,
governava "carnavalescamente") até a noite do Ato Institucional
nº 5. No governo João Goulart (1961-1964) instaura-se
a era de radicalização que dilacera o país
entre direita e esquerda. Alceu, à esquerda, defende uma
legalidade a cada dia mais ameaçada. "Se tudo não
acabar em ditadura militar, só mesmo porque Deus não
quis", escreve, em setembro de 1963. Carlos Lacerda, o mais feroz
inimigo do governo, era para ele "o doido", "o fanático",
o adepto do "quanto pior, melhor". Desde 1958, Alceu escrevia duas
vezes por semana no Jornal do Brasil. Seus artigos converteram-no
em campeão intelectual dos avanços sociais
mas, também, em inimigo dos que viam perigo nos avanços.
As tensões da era Jango ainda não eram nada. Vem o
golpe e no próprio dia 31 de março de 1964
recebe um telefonema de San Tiago Dantas, político respeitado,
ex-ministro de Jango. "O senhor já imaginou a possibilidade
de termos diante de nós vinte anos de reacionarismo?", observou
San Tiago. A previsão, aliás certeira, ecoou nos ouvidos
de Alceu enquanto viveu. "Temos apenas um ano e meio de ditadura",
escreveu, em outubro de 1965. "Faltam apenas... dezoito e meio."
Em dezembro de 1968, acabrunhado pelo AI-5, baixado no mês
em que completara 75 anos, voltaria à previsão dos
vinte anos. "Já estamos com quase um quarto (desse tempo)
passado", escreveu. "Como não poderei assistir aos outros
três quartos, terei de viver neste túnel ditatorial
até a morte."
Foi na ditadura, porém, durante a qual cavou em seus espaços
na imprensa uma trincheira de resistência que os donos do
poder não ousaram romper, que Alceu atingiu a estatura acabada
de "grande homem". Uma vez, na correspondência com a filha,
ele citara um verso do francês Stéphane Mallarmé,
dedicado à memória do americano Edgar Allan Poe: "Tel
qu'en lui même enfin l'eternité le change" ("A
eternidade enfim transformou-o nele mesmo", em tradução
livre). Em seu próprio caso, não foi preciso esperar
a eternidade. A oposição à ditadura transformou-o
nele mesmo. Travestido em baluarte contra o arbítrio, era
tanto mais incômodo aos generais quanto representava um baluarte
moral. O regime, se não ousou calá-lo, tentou cooptá-lo.
Quando publicou um artigo em cujo título cunhava uma expressão
que se tornaria famosa, "terrorismo cultural", recebeu telefonema
do próprio Castello Branco, o primeiro dos generais-presidentes.
Mais adiante, Costa e Silva, o segundo, pediu-lhe, e obteve, uma
entrevista "secreta", pouco antes de tomar posse. Nos dois casos,
o poder fazia soar em seus ouvidos o canto de sereia.
O "esquerdismo" de Alceu precisa ser nuançado. Ele se opunha
ao comunismo e se alarma sempre, na correspondência, com os
avanços da União Soviética. Era um democrata.
Regia-se pela legalidade e tinha na liberdade um valor supremo.
O Ato Institucional nº 2, que em outubro de 1965 deu uma volta
no parafuso da ditadura, transtornou-o a ponto de confessar à
filha que estava desejando a morte, "a morte como libertação",
embora consciente de que não se tratava de uma "solução
cristã". Mais adiante, quando o AI-5 aplicou outra e definitiva
volta no mesmo parafuso, sua exasperação passa a expressar-se
em desabafos contra o "sargentão" Costa e Silva e os "cangaceiros
que se apoderaram do Brasil". Num momento em que se enchiam os cárceres
da ditadura, afirmou à filha que tinha "vergonha de estar
solto". O desânimo não o dobrou, porém. Na verdade,
a mesquinharia do regime alimentava-lhe a grandeza. Ele como que
rejuvenescia, fenômeno que foi assim traduzido por um amigo,
o educador Anísio Teixeira: "O Amoroso Lima está terminando
a vida numa aurora". Numa carta de 1966, ao contar à filha
a frase de Anísio Teixeira, Alceu comenta: "Bacana, não?".
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