Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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Ginástica
O fast food da malhação

Os mesmos programas de ginástica,
feitos por empresários milionários,
dominam as academias no mundo todo


Rosana Zakabi


Renata Ursaia
O MUNDO DAS BODY
Aula de bodypump na academia Fórmula, em São Paulo: levantamento de peso com coreografias e música animada


NESTA EDIÇÃO
Os grandes do fitness
Entrevista com o empresário Phillip Mills

Todo mundo sabe que malhar faz bem à saúde, mas mesmo assim muita gente não pratica exercícios físicos por uma boa razão: fazer ginástica é muito chato. O maior esforço das academias não é conseguir alunos, mas evitar que eles as abandonem logo que passe o entusiasmo inicial. O neozelandês Phillip Mills, 48 anos, encontrou uma resposta de grande sucesso para esse problema: a cada três meses, ele troca inteiramente as músicas e a coreografia de seus programas de ginástica. Mills é dono da empresa responsável pela série cujo nome começa com body (corpo, em inglês) – bodypump, bodystep, bodycombat e assim por diante. Seu método é utilizado em 8.000 academias em cinqüenta países. O Brasil é um de seus melhores fregueses. Estima-se que 400.000 brasileiros pratiquem algum tipo de body em 1.700 academias credenciadas. Com um movimento de 60 milhões de dólares por ano, o neozelandês ocupa o terceiro lugar. Em termos de expansão global e influência, seu negócio também está entre os primeiros do fast food da malhação.

O número 1 em faturamento é o sul-africano Johnny G, de 47 anos, o criador do spinning, com estimados 100 milhões de dólares anuais (o valor exato não é divulgado). Quem freqüenta ou freqüentou academia certamente já suou em alguma aula cujo nome começa com a palavra body. Ou então já praticou spinning. Essas expressões são tão comuns nas academias que muita gente acha que se trata dos nomes de modalidades de ginástica, como natação ou balé. Algo assim como Modess, nome da marca do produto, que virou sinônimo de absorvente higiênico, e Chiclete, de goma de mascar. No Brasil, praticamente todas as academias que dispõem dos programas do grupo Body também oferecem o spinning. Johnny G adaptou a bicicleta e desenvolveu seu método de exercícios nos anos 80, logo depois de se mudar para a Califórnia, nos Estados Unidos, onde vive. Em 1992 ele o transformou em marca registrada e começou a expansão mundial. Johnny G. vende uma única modalidade de ginástica, que é o ciclismo indoor. O exercício consiste em pedalar a bicicleta especial simulando subidas, descidas e curvas. Sua empresa, a Mad Dogg Athletics, não cobra pelo método, mas sim pelo treinamento dos professores. Um curso de seis meses, dividido em dois estágios, custa em torno de 700 reais. Há 70.000 professores certificados em mais de setenta países, dos quais 1.500 estão nas academias brasileiras. A Mad Dogg fatura também com a venda de equipamentos, sobretudo os modelos de bicicletas essenciais para o exercício, e de acessórios com o logotipo.


André Valentim/Strana
COMO SE FOSSE AO AR LIVRE
Treinamento de spinning na academia Ibeas Top Club, no Rio de Janeiro: curvas, subidas e descidas parecidas com as que são feitas em trilhas

No mercado de programas de malhação, não há quem ofereça maior diversidade que Phillip Mills. São sete programas de ginástica. Dono de uma academia com 11.000 alunos na Nova Zelândia, na década de 80, ele concluiu que as pessoas desistiam de fazer ginástica porque os programas tinham coreografias muito difíceis. Sua estratégia foi criar exercícios mais simples e fáceis de executar, misturando em uma única aula vários tipos de ginástica de sucesso. Tem body para todos os gostos. A bodypump consiste em exercícios com pesos similares aos da musculação. A bodybalance, com alongamento e movimentos lentos, inspira-se na ioga, no pilates e no tai chi chuan. A bodyjam mistura ritmos como funk, hip hop, salsa e merengue. O bodyattack emula técnicas de ginástica aeróbica. O bodystep é igualzinho a uma aula de step. O bodycombat mistura boxe e artes marciais. Por fim, o RPM – o único sem body no nome – é um programa de ciclismo igual ao spinning. O mais impressionante é a logística operacional da empresa de Mills, a Les Mills International. A cada três meses, todas as academias, do Japão à Islândia, recebem as fitas de vídeo com novas músicas e novas coreografias para cada um dos sete programas implantados por ela. As mudanças ficam a cargo de uma equipe de produtores musicais e coreógrafos instalados em Auckland, na Nova Zelândia. Em teoria, os programas são submetidos ao crivo de fisioterapeutas e professores de educação física antes de ser despachados para os consumidores finais.

Renata Ursaia
MADE IN BRASIL
Sessão de Fitflex na academia Bio Ritmo, em São Paulo: exercícios de alongamento e força, que melhoram a postura, criados por um brasileiro


Para poder utilizar as body, as academias pagam mensalidade de 770 reais à Les Mills. O valor dá direito a um programa de sete aulas, que inclui fitas de vídeo com treinamento de professores, CDs de música e as atualizações trimestrais. Para as academias, a vantagem é dispor de um pacote de exercícios cuja existência é bem conhecida da freguesia. "A divulgação é crucial para qualquer negócio", disse a VEJA Phillip Mills. "Metade do sucesso de uma empresa de fitness se deve à propaganda, seja boca a boca, seja com a ajuda de uma agência de publicidade." Para quem freqüenta academias, a escolha entre o spinning, as várias body e outros programas existentes deve ser feita segundo o gosto pessoal. Não há vantagem conhecida de uma metodologia sobre a outra. "Em termos de resultados para o corpo de quem pratica, não há diferença entre a maioria dos exercícios oferecidos nas academias", diz o fisiologista paulista Turibio Leite de Barros. "A diferença está na motivação. Os alunos se sentem mais motivados com os exercícios coreografados."

O segundo em faturamento mundial na venda de programas de malhação é o tae-bo, criado pelo americano Billy Blanks, sete vezes campeão mundial de caratê na década de 80. Os exercícios misturam os movimentos de perna do tae-kwon-do com os de braço do boxe. O método ganhou enorme popularidade nos Estados Unidos nos últimos cinco anos, a partir de sua base, uma badaladíssima academia de ginástica na Califórnia. A empresa Billy Blanks Enterprises, dona da marca, vende camisetas, bonés e acessórios com a marca e fitas de vídeo ensinando os exercícios. Muito pouco de seu faturamento de 70 milhões de dólares por ano sai do Brasil. A maioria das academias brasileiras adaptou o tae-bo à sua maneira, misturando outras técnicas de luta e batizando com um nome diferente (exemplos: tae fight e aeroboxe), sem pagar um vintém ao carateca americano. O próprio bodycombat, da Les Mills, se parece bastante com o tae-bo. Outro método muito imitado é o pilates, que trabalha e alonga os músculos com a ajuda de aparelhos especiais. Foi criado na década de 20 pelo alemão Joseph Humbertus Pilates. Décadas mais tarde, foi registrado por uma empresa americana, a Pilates Inc., mas a maioria das academias não vê razão para pagar pelo método. O faturamento da Pilates Inc. não ultrapassa 1 milhão de dólares anuais.

Os brasileiros estão pouco representados no ramo dos programas licenciados. Há dois anos, o paulista Fernando Fonseca desenvolveu com outro sócio uma série de alongamentos que precisa ser feita sobre uma maca. Chamado Fitflex, já pode ser encontrado em 35 academias de São Paulo, Curitiba, Manaus, Fortaleza, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Da Les Mills, o Fitflex copiou a atualização trimestral. O produto brasileiro custa 4.500 reais. É pago de uma só vez e inclui dez macas, fitas de vídeo e guia de exercícios.

 
 
 
 
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