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Agricultura
O gene contra o veneno
Os
alimentos geneticamente modificados
ainda assustam, mas diminuem o uso
de agrotóxicos e podem ser uma nova
"revolução verde"

Leandra
Peres
AP
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| A
folha maior é de álamo transgênico de experiência feita no Oregon,
EUA |
Para
entender a guerra que se trava hoje contra os alimentos geneticamente
modificados, os transgênicos, é útil recordar
a história de outra revolução no campo ocorrida
na década de 60. O mundo agrícola passou naquele tempo
por um progresso até então sem precedentes. Ela foi
denominada "revolução verde" e matou a fome de um
continente inteiro, a Ásia. Seu propositor principal foi
um agrônomo americano chamado Norman Borlaug. Com o uso combinado
de novas técnicas de plantio, fertilizantes, herbicidas e
melhoramentos de espécies, Borlaug conseguiu transformar
imensas regiões áridas e inóspitas em formidáveis
produtoras de grãos. A China dobrou sua produção
de arroz entre 1961 e 1970. A Índia fez o mesmo com o trigo.
Segundo estimativas, 40% dos seres humanos vivos atualmente devem
sua vida ao desenvolvimento de fertilizantes baratos. Por seus feitos
Borlaug recebeu em 1970 o Prêmio Nobel da Paz. Mas ele próprio
não teve paz. A "revolução verde" sofreu virulentos
ataques dos partidos de esquerda e dos nascentes movimentos ecológicos.
Dizia-se que Borlaug e seu batalhão de agrônomos "acabariam
com as florestas naturais do mundo" e "estavam colocando em risco
a raça humana".
Os
transgênicos e seus propositores sofrem agora o mesmo tipo
de repulsa dos partidos de esquerda, dos movimentos ecológicos
e, por causa da pregação deles, da opinião
pública. A ironia é que os transgênicos têm
potencial para ser justamente parte da solução dos
problemas ambientais, reais e percebidos, criados pela "revolução
verde" o desmatamento e o uso de substâncias químicas
tóxicas nas lavouras para evitar pragas. Pelas projeções
mais otimistas, o mundo terá de duplicar a produção
de alimentos até 2050. Só assim haverá comida
suficiente para nutrir uma população de 8,9 bilhões
de pessoas 40% maior que a atual. A necessidade de produzir
alimentos faz crescer a pressão sobre o meio ambiente, especialmente
sobre as áreas verdes ainda preservadas. O mundo perde por
ano uma área de floresta equivalente a Portugal. A principal
causa do desmatamento é a demanda por áreas de plantio.
Como os transgênicos aumentam a produtividade das colheitas,
a pressão pela expansão das fronteiras agrícolas
é menor. Além disso, as sementes modificadas em laboratório
produzem plantas mais resistentes a pragas, o que diminui drasticamente
a quantidade de agrotóxicos de que elas necessitam para viver.
Por essa ótica, os transgênicos são um achado
capaz de ajudar a preservar a natureza. No entanto, as sementes
geneticamente modificadas assustam as pessoas e levam as autoridades
da maioria dos países a proibir ou regular fortemente seu
uso nas lavouras. Por quê?
AFP
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| Protesto
de ambientalistas: "comida Frankenstein" |
Uma das explicações dos especialistas é que
as pessoas tendem, muitas vezes com razão, a temer transformações
da matéria que gerem substâncias ou seres que não
existem normalmente na natureza. Dois exemplos que ilustram esse
traço da personalidade humana, um real e outro fictício:
o urânio enriquecido que serve de matéria-prima para
bombas atômicas e o monstro produzido pelo doutor Frankenstein
no livro da escritora inglesa Mary Shelley (1797-1851). Não
por acaso, os alimentos transgênicos são chamados pelos
ambientalistas de língua inglesa de frankenfood
que poderia ser entendido como "comida monstruosa". Embora a segurança
dos transgênicos para a saúde humana tenha sido estabelecida
por laboratórios de reputação em diversos países
do mundo, ainda restam zonas de sombra sobre as reações
que as sementes modificadas possam provocar na natureza. O princípio
da troca de genes não é propriamente novidade no mundo
natural. As espigas de milho das primeiras espécies desse
vegetal cultivadas pela humanidade há 15.000 anos mediam
cerca de 5 centímetros e tinham grãos pequenos e esparsos.
Hoje, graças à seleção artificial e
ao cruzamento de espécies, as espigas são seis vezes
mais longas e dezenas de vezes mais produtivas. Flavio Finardi Filho,
professor de ciência dos alimentos da Universidade de São
Paulo (USP), explica: "Desde os primórdios da agricultura,
o homem seleciona artificialmente as melhores espécies. De
certa maneira, podemos afirmar que tudo o que comemos foi melhorado
geneticamente". O que torna os alimentos transgênicos uma
categoria especial é o fato de serem o resultado de uma tecnologia
altamente eficiente que permite mexer na estrutura molecular de
seu coração genético. As espécies recebem
nos laboratórios genes ou seja, pedaços de
DNA, a molécula que define as características dos
seres vivos de espécies diferentes. Os técnicos
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
já testam dezenas de espécies vegetais com modificações
genéticas.
A Organização para Alimentação e Agricultura
das Nações Unidas (FAO) recomenda que a liberação
de alimentos transgênicos para plantio e consumo humano deve
ser feita caso a caso. Também aconselha que se tome a mesma
precaução com os animais clonados e com os animais
e plantas modificados geneticamente para secretarem substâncias
que combatem doenças, uma área que avança velozmente
nos dias atuais. Só nos Estados Unidos estão sendo
testados cerca de 300 vegetais modificados para, além de
servir de alimento, ajudar a combater doenças como hepatite
B, cólera, diabetes e até alguns tipos de câncer,
como o linfoma não-Hodgkin. As culturas de soja, milho e
algodão transgênicos se disseminaram no mundo a partir
da metade dos anos 90. Nos últimos sete anos, alimentos geneticamente
modificados estão sendo cultivados em cerca de 230 milhões
de hectares em mais de quinze países em todos os continentes.
No Brasil, o único produto transgênico comercializado
é a soja. E mesmo assim em regime de exceção.
Sementes de soja transgênica chegaram ao Brasil vindas da
Argentina em 1995, espalharam-se ilegalmente pelo Rio Grande do
Sul e hoje respondem por cerca de 95% da produção
total de 9,6 milhões de toneladas do Estado. Depois disso,
outras regiões produtoras seguiram o mesmo caminho. Diz Luiz
Antonio Barreto de Castro, diretor da Embrapa: "Mais de uma centena
de produtos derivados da soja está sendo consumida há
mais de seis anos no Brasil. Se houvesse algum dano à saúde
ou ao meio ambiente, já teria sido identificado. O único
problema da soja transgênica é o mesmo da soja convencional:
a reação alérgica. Mas isso pode acontecer
com qualquer produto".
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