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Especial
Os católicos contra-atacam
Com
a estréia de padre Marcelo no
cinema,
a Igreja abre mais uma frente
em
sua disputa com os evangélicos

Marcelo
Marthe e Ricardo Valladares
Montagem com fotos divulgação
e Frederic Jean
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EVANGELHO
NAS TELAS
Padre Marcelo (à esq.) e cena de Maria, Mãe do Filho
de Deus: parte da renda do filme vai para a Igreja |
Marcelo
Rossi, o padre mais popular da Igreja no Brasil, agora é
estrela de cinema. Maria, Mãe do Filho de Deus começa
a ser exibido em circuito nacional na próxima sexta-feira.
Grande vendedor de discos, apresentador de programas de rádio
e televisão, Marcelo Rossi chega agora ao cinema interpretando
dois papéis no mesmo filme. Padre de perfil moderno, vivendo
em São Paulo, sempre animando auditórios e dando entrevistas
à televisão, Marcelo Rossi faz no filme o papel de
um pároco do interior. Numa história paralela, encarna
o Arcanjo Gabriel, que anuncia à Virgem Maria que ela dará
à luz Jesus Cristo. Com orçamento de 6,8 milhões
de reais, Maria, Mãe do Filho de Deus é uma
das produções mais caras feitas no Brasil. Custou
menos que Carandiru, por exemplo (12 milhões de reais),
mas quase o dobro de Xuxa e os Duendes (3,8 milhões
de reais). Espera-se que atraia ao menos 2,5 milhões de espectadores
aos cinemas um público à altura do investimento.
A julgar pelas primeiras reações, as chances são
muito boas. Na semana passada, o filme teve uma pré-estréia
em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Atores famosos do elenco,
como Giovanna Antonelli e Luigi Baricelli, ambos estrelas da Rede
Globo, não participaram do evento, mas o anúncio de
que o padre Marcelo daria o ar de sua graça bastou para causar
alvoroço. Uma multidão se formou na rua e sete salas
de cinema se encheram para vê-lo, ao vivo e na tela. Numa
das sessões, ele advertiu a platéia: "Espero que vocês
tenham trazido o lenço, porque a história faz chorar".
Marcelo Rossi, um pop star, um personagem da mídia (ou de
várias mídias), entra também nas telas do cinema,
mas é sempre importante acrescentar, no seu caso, que sua
atividade básica é ser padre. Entre suas tarefas principais
está a de continuar na função de soldado na
guerra que a Igreja Católica vem travando há pelo
menos três décadas para estancar a debandada de seus
fiéis para outras hostes, sobretudo a evangélica,
que triplicou seu porcentual de adeptos entre a população
brasileira em trinta anos. Os passos que Marcelo Rossi dá
em sua carreira artística são vigiados e direcionados
pela instituição a que ele pertence. E, quando ele
diz, como vem dizendo, que Maria, Mãe do Filho de Deus
tem como principal objetivo trazer ovelhas para o rebanho católico,
deve-se levá-lo muito a sério.
Fotos divulgação
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ANUNCIAÇÃO
Giovanna Antonelli, como Maria, e padre Marcelo, como o arcanjo
Gabriel: culto a Nossa Senhora
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Para
viabilizar a produção de Maria, Mãe do Filho
de Deus, o padre Marcelo deu uma cartada comercial ousada. Ele
saiu da gravadora Universal, onde lançou seus maiores sucessos
fonográficos entre eles Músicas para Louvar
o Senhor, que atingiu a vendagem recorde de 3,2 milhões
de CDs , e migrou para a concorrente Sony. Explica-se: a
Sony, além de lançar discos, tem um forte braço
cinematográfico, a Columbia que investiu 1,9 milhão
de reais para distribuir Maria, Mãe do Filho de Deus em
250 salas do país. O padre Marcelo abriu mão de cachê
para atuar, mas conseguiu fechar um contrato pelo qual 50% do lucro
será aplicado em obras sociais de sua igreja, o Terço
Bizantino. Estima-se que esse lucro seja de 500.000 reais.
O
roteiro de Maria, Mãe do Filho de Deus narra duas
histórias em paralelo. Uma delas passa-se no presente, no
interior do Brasil. As filmagens foram feitas no Rio Grande do Norte
e no Rio de Janeiro. A segunda é a história de Jesus
Cristo (interpretado por Luigi Baricelli, que emagreceu 8 quilos
para filmar a via-crúcis), mas com destaque especial para
a personagem da Virgem Maria. No primeiro enredo, o padre Marcelo
é o pároco de um vilarejo nordestino e Giovanna Antonelli,
a mãe da garotinha Joana (Ana Beatriz Cisneiros, de 5 anos,
que chegou a lhe dar bronca numa cena em que ele errou três
vezes sua fala), supostamente desenganada pelos médicos.
No dia em que vai retirar o resultado de exames importantes feitos
pela menina, a mãe, aflitíssima, a deixa sob os cuidados
do padre. Para entreter a garota, ele lhe conta a vida de Jesus,
que ela vai aproximando dos cenários e dos rostos que conhece:
o Oriente Médio se transforma no sertão, a Virgem
ganha a face de sua mãe (ou seja, da bela Giovanna), o Diabo
é o excelente José Dummond, um ator com biótipo
marcadamente nordestino, e o Arcanjo Gabriel tem o corpo do padre
Marcelo, as feições do padre Marcelo e o jeito de
falar do padre Marcelo o sacerdote, além de recusar
as asinhas que sugeriram que usasse, não tentou interpretar
o anjo e limitou-se a agir como ele mesmo.
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A VIRGEM
Além de interpretar a mãe de Jesus, a atriz global também faz
o papel de uma sertaneja |
JESUS
O ator Luigi Baricelli emagreceu 8 quilos para filmar a via-crúcis |
No
filme, como sugere seu título, o personagem de Maria ganha
destaque uma escolha que não tem nada de acidental.
A devoção a Nossa Senhora é uma característica
exclusiva do catolicismo. Nenhuma religião evangélica
partilha desse culto, e há os que são hostis a ele,
como mostrou o chocante episódio em que um pastor da Igreja
Universal do Reino de Deus chutou, durante um programa de televisão,
uma imagem da Virgem. Por causa disso, e também porque a
Mãe de Deus é uma figura conciliadora, que evoca doçura
e paciência, o marianismo vem sendo uma peça importante
em todas as estratégias de catequização dos
católicos. O próprio papa João Paulo II tem
sido seu incentivador. Ele adotou o dístico latino Totus
Tuus, Maria (Totalmente Teu, Maria) e atribuiu a Nossa Senhora de
Fátima o fato de ter escapado do atentado que sofreu em Roma,
em 1981. Curiosamente, os Evangelhos não são muito
ricos em informações sobre a Virgem seu papel
diminui na narrativa à medida que a de Jesus cresce. Entre
os relatos da crucificação, por exemplo, só
o do evangelista João a menciona. No filme do padre Marcelo,
ao contrário, Maria aparece em diversos episódios:
a ressurreição de Lázaro, o perdão a
Maria Madalena, a aparição de Jesus aos discípulos.
A elaboração do roteiro contou com a consultoria de
dom Fernando Antonio Figueiredo, bispo da região paulistana
de Santo Amaro e superior de Marcelo Rossi. Foi ele quem deu o viés
marianista ao filme. "A supervisão de dom Fernando era necessária
para que aquilo que está sendo dito e projetado à
população esteja de acordo com o Evangelho e a doutrina
da Igreja, para que o filme transmita os ensinamentos que entendemos
como corretos", diz o bispo Orani João Tempesta, presidente
da comissão episcopal para a cultura, educação
e comunicação social da CNBB.
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JOANA
A menina Ana Beatriz Cisneiros, de 5 anos: bronca no padre Marcelo
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HERODES
O veterano Tonico Pereira atua como delegado e como rei que
quer matar Jesus |
O
padre Marcelo ordenou-se há menos de uma década, em
1994. Começou a chamar a atenção por volta
de 1998, celebrando missas que tinham sessões de aeróbica,
muita dança e cantoria e eram capazes de encher estádios.
Os feitos do jovem padre, hoje com 36 anos, puseram em evidência
um debate que já vinha ocorrendo fazia algum tempo no interior
da Igreja. Houve uma época em que os padres se dividiam em
duas correntes principais. Ou eram conservadores, tradicionalistas,
ou se inclinavam menos pela doutrina e mais para as questões
sociais, de preferência casando teologia e pensamento de esquerda.
Surgiu depois um terceiro ramo, os adeptos da Renovação
Carismática, que defendiam que a tarefa mais urgente não
era social, mas espiritual, e que a missa tinha de modernizar-se
e tornar-se mais viva, talvez até mesmo mais próxima
dos cultos evangélicos, para deixar de afastar os fiéis.
Mario Laguna
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MENTOR
INTELECTUAL
Dom Fernando: superior do padre Marcelo foi "consultor teológico"
da produção
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Esse debate ainda não se esgotou, mas, pelo menos no Brasil,
mudou de figura. O pêndulo vem se inclinando para o lado dos
carismáticos. "Hoje esse movimento é o que demonstra
maior capacidade de irradiar a fé católica junto à
população. E por isso deve ser bem-vindo", diz dom
Ivo Lorscheiter, um ferrenho expoente da ala esquerda da Igreja
e antigo crítico da Renovação Carismática.
Também as estatísticas oferecem indicadores curiosos.
Do ponto de vista da formação e do exercício
da religião, há dois tipos de padre católico,
os diocesanos, ligados diretamente às paróquias, e
os padres de congregações religiosas (os beneditinos,
franciscanos, e assim por diante). Embora se possa dizer que existe
uma crise geral no número de ordenações de
sacerdotes, o problema é maior no segmento das congregações.
Ora, foi justamente nesse meio que floresceram movimentos politizados
como o da Teologia da Libertação, hoje em baixa. Nas
dioceses, por outro lado, a Renovação Carismática
vem encontrando um terreno fértil para crescer, com seus
grupos de oração e missas festivas. "Há uma
maior procura vocacional nessa área", diz a socióloga
Sílvia Fernandes, do Centro de Estatística Religiosa
e Investigações Sociais, braço da CNBB na área
de pesquisas.
Juntamente com uma tolerância maior para as missas que escapam
do antigo figurino, cresce na Igreja o sentimento de que é
preciso usar ferramentas como a mídia e até mesmo
o marketing para propagar a mensagem católica. Embora não
seja um órgão da CNBB, o Instituto Brasileiro de Marketing
Católico, criado em 1998 por um leigo ligado ao movimento
da Renovação Carismática, o publicitário
paulista Antonio Miguel Kater Filho, conta hoje com a simpatia de
vários bispos influentes no país. O primeiro presidente
da entidade foi dom Fernando, o superior do padre Marcelo. O padre
Marcelo, aliás, esteve entre os primeiros a participar dos
cursos promovidos por Kater Filho. Outro entusiasta das atividades
do instituto é dom Cláudio Hummes, cardeal-arcebispo
de São Paulo, que já fez inclusive palestras em seus
encontros. "Aos poucos, cresce entre os bispos a consciência
de que o marketing não é uma arma diabólica
do capitalismo. Nos dias de hoje, é uma ferramenta indispensável
para a reaproximação com os fiéis", diz Kater
Filho.
Fotos Claudio Rossi
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TV
CATÓLICA
Padre Jonas (à esq.) e gravação de programa na TV Canção
Nova: estratégia agressiva para crescer no país |
O
instituto, hoje presidido por dom Murilo Krieger, arcebispo de Florianópolis,
promove anualmente um encontro de marketing que reúne membros
da Igreja e publicitários simpatizantes. Sua estrutura é
pequena na sede do IBMC em Campinas, quem atende ao telefone
é o próprio Kater Filho. Mas não há
dúvida de que se tornou uma referência principalmente
para a ala da Renovação Carismática. Nos cursos
do instituto, os padres aprendem noções de comunicação,
desde como se portar diante das câmeras até como descomplicar
o modo de falar. Entre os temas abordados pelo instituto estão
a necessidade de modernizar o sistema de som das paróquias,
para que os sermões se tornem mais audíveis, e até
repensar os horários das missas elas tradicionalmente
ocorrem de manhã bem cedo ou no fim da tarde, horários
que já não condizem com a rotina da maioria dos brasileiros.
Naquilo
que se poderia batizar de "indústria cultural cristã",
católicos e evangélicos mantêm uma disputa acirrada
e, no momento, equilibrada (veja quadro ao lado). A exceção
é a TV. A Igreja admite que os evangélicos estão
na dianteira nessa área, e assume a culpa por isso. "Até
os anos 40 e 50, a Igreja tinha um trabalho de comunicação
muito eficiente, no rádio por exemplo. Mas não lidamos
com a televisão da maneira como deveríamos ter feito",
diz o bispo Orani. "Durante muito tempo, a Igreja encarou a televisão
de forma acanhada demais", acrescenta Kater Filho, do Instituto
Brasileiro de Marketing Católico. Atualmente, a inteligência
católica não pára de produzir estudos e reflexões
sobre o assunto e visualiza inclusive uma ação
integrada na área.
Existem hoje três redes de televisão católicas
no Brasil a Rede Vida, a Canção Nova e a Século
21. Uma quarta está em via de ser criada. Todas são
anãs se comparadas à Rede Record, propriedade da Igreja
Universal do Reino de Deus. A Rede Vida é a mais antiga.
Ela atinge praticamente 100% do território nacional, mas
sua programação, marcada pelo ecletismo, tem audiência
insignificante. Cada facção da igreja tem seu programinha
no cardápio: há horários para a oração,
mesas-redondas para discutir questões do país e até
transmissões de futebol da série B. A rede com a estratégia
mais agressiva de crescimento é a Canção Nova.
Seu criador é o padre Jonas Habib, que trabalha com jovens
desde 1966 e teve um papel importante na trajetória do padre
Marcelo. "Ele vive dizendo que sou seu pai espiritual", diz o padre
Jonas. Segundo ele, foi num encontro de jovens no fim dos anos 80
que o estudante de educação física Marcelo
Rossi optou pelo sacerdócio. "Ele estava num dilema e veio
conversar comigo. Deu no que deu."
Arquivo HML
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TALK-SHOW
CARISMÁTICO
Myrian Rios e Gazolla: ela é uma Jô Soares católica |
A sede da Canção Nova ocupa 35 hectares em Cachoeira
Paulista, no interior de São Paulo. Lá foi criado
um misto de central de produção e comunidade religiosa
com 580 integrantes, todos eles trabalhando em comunicação
seja na TV, na rádio ou na internet. Mais de 200 pessoas
moram em apartamentos comunitários com alas para solteiros
e casados. Há alguns casais de namorados, mas o padre Jonas
diz que nunca se registrou nenhum incidente do tipo "gravidez indesejada".
"Quem vem para cá se dedica aos ideais católicos",
afirma. Com o lema "Troque de canal mude de vida", a rede
exibe missas e programas de oração, mas tem também
atrações como o Semeando Esperança,
apresentado pela atriz Myrian Rios, que é uma espécie
de show de entrevistas em que convidados como a cantora Fafá
de Belém e o ator Raul Gazolla falam de suas experiências
religiosas.
A
Canção Nova recebeu sua primeira emissora no final
do governo Sarney, em 1989. A segunda foi adquirida em 1997 por
4,5 milhões de reais. Sua malha de retransmissoras vem se
expandindo rapidamente. A rede tem 268 já regularizadas e
685 pedidos transitando no Ministério das Comunicações.
O desejo é chegar aos rincões mais distantes do país.
"Contamos com a ajuda de políticos católicos nesse
trabalho", diz o padre Jonas. O nome mais expressivo entre esses
políticos é o do senador e ex-vice-presidente Marco
Maciel. Ao contrário do que ocorre entre os evangélicos,
porém, não existe uma "bancada católica" articulada.
"Somos um grupo relativamente grande, de cerca de 170 parlamentares,
mas não se pode dizer que agimos em bloco. Nunca fizemos
sequer uma reunião", diz Maciel.
Os
números do censo demonstram que em apenas trinta anos, entre
1970 e 2000, o porcentual de adeptos das religiões evangélicas
triplicou, chegando à marca de 16% da população.
Novas seitas surgem com freqüência e as já consolidadas
alardeiam seu vigor construindo templos cada vez maiores. A Igreja
Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, a que apresentou
crescimento maior na última década, passou de menos
de 300.000 a mais de 2 milhões de adeptos. Desde seus primórdios,
a Universal investiu pesado na aquisição de emissoras
de rádio e televisão e tornou-se o melhor exemplo
da importância do uso da mídia para atrair fiéis.
Com uma década de atraso, os católicos resolveram
enveredar pelo mesmo caminho. "Com o crescimento dos carismáticos,
o catolicismo brasileiro aproxima-se do modelo americano, ou seja,
passa a empregar técnicas profissionais e cada vez mais variadas
de difusão de sua doutrina num ambiente de competição
agressiva com as igrejas evangélicas", diz o sociólogo
Alexandre Brasil Fonseca, especialista no estudo de religiões.
O lançamento de Maria, Mãe do Filho de Deus se
encaixa nesse quadro embora muitos espectadores, e principalmente
espectadoras, acabem se esquecendo disso ao ver o padre Marcelo
de túnica azul e rosto iluminado, como Arcanjo Gabriel.
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A
sangrenta Paixão de Mel Gibson
O filme nem sequer está pronto, mas já
é o mais falado ou mal falado do
ano. A cada exibição-teste para espectadores
seletos, a controvérsia aumenta: ele vai "alimentar
o ódio, o preconceito e o anti-semitismo", ou
até desencadear algum tipo de violência,
dizem rabinos, teólogos e integrantes da Liga
Americana Antidifamação. Do outro lado
estão os simpatizantes do diretor, como o produtor
Dean Devlin, que é judeu, e o jornalista David
Horowitz, que o descreveu como "o mais próximo
de uma experiência religiosa a que a arte pode
chegar". O filme é The Passion (A Paixão),
que o astro Mel Gibson dirigiu ao custo de 25 milhões
de dólares (tirados de seu bolso) e que ele agora
finaliza, para lançamento na Páscoa de
2004. The Passion mostra as últimas horas
na vida de Jesus: a traição de Judas,
a Última Ceia, a condenação decidida
pelo governador romano Pôncio Pilatos, o desfile
pelas ruas de Jerusalém e a crucificação.
Gibson é um católico rigoroso que rejeita
muitas das diretrizes expedidas pelo Concílio
Vaticano II, nos anos 60, por considerá-las excessivamente
liberalizantes. Trata-se de uma fé de família:
numa entrevista recente ao jornal The New York Times,
o pai do astro, Hutton Gibson, qualificou o Vaticano
II como "uma conspiração maçônica
apoiada pelos judeus". São essas credenciais
que despertam desconfiança quando Mel Gibson
diz que pretende contar "a verdade" sobre o derradeiro
dia de Jesus. Os diálogos de The Passion
são em latim e aramaico (só há
pouco o astro concordou em legendá-los), e o
sofrimento de Jesus (interpretado por James Caviezel)
é mostrado com abundância de sangue e violência.
Não há dúvida de que imagens assim
devem trazer as emoções da platéia
à flor da pele. Foi esse componente, aliado ao
que algumas pessoas que tiveram acesso às cópias
não finalizadas do filme descrevem como uma visão
altamente negativa do papel dos judeus na crucificação
de Cristo, que se tornou o pivô da polêmica
em torno de The Passion. Desde o Concílio
Vaticano II, aquele com que Gibson não simpatiza,
a Igreja Católica tem se preocupado em retirar
de seus ritos e ensinamentos as menções
à culpabilidade dos judeus em nome do
ecumenismo e também porque esse é um ponto
que os historiadores têm dificuldade em esclarecer.
Filmes que tratam de religião são, por
natureza, objeto de controvérsia. Nada, porém,
que se compare à atenção que The
Passion tem atraído ou ao testemunho que
Gibson invoca em sua defesa. Segundo o astro, quem o
inspirou a realizar esse projeto foi o Espírito
Santo, que lhe teria enviado sinais "tão claros
quanto semáforos". A julgar pelo tipo de atrocidade
que desde sempre se comete em nome de Deus, as razões
para o pânico em torno de The Passion estão
mesmo bem fundamentadas.
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Com
reportagem de Sérgio Martins e
Isaac Ribeiro
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