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Arqueologia
O
homem do gelo
Doze
anos de estudos em corpo congelado
durante 5 300 anos revelam como se vivia
e morria na Pré-História

Daniel
Hessel Teich
Doze
anos atrás, em setembro de 1991, encontrou-se uma testemunha
de um tempo sobre o qual se sabe muito pouco, a Pré-História
na Europa Central. Trata-se do corpo mumificado de um homem que
viveu há 5.300 anos, preservado todo
esse tempo pela neve eterna numa passagem a 3.200
metros de altura nos Alpes. Desde então, o Homem do Gelo,
como é mais conhecido, e seus pertences vêm sendo analisados
por equipes sucessivas de antropólogos, médicos-legistas,
geneticistas, historiadores e paleontólogos. Estima-se que
seja o corpo mais estudado por cientistas de todos os tempos. O
esforço tem valido a pena. A descoberta do Homem do Gelo
é como se uma janela tivesse se aberto inesperadamente sobre
os costumes, a tecnologia e até os hábitos alimentares
de populações tão antigas que nem sequer temos
um nome para elas ou podemos imaginar que línguas falavam.
Acredita-se que viviam em pequenas aldeias, mantinham roças
rudimentares, não conheciam o ferro e ainda não tinham
domesticado o cavalo. Na Mesopotâmia e na China, começavam
a se formar as primeiras cidades. Ele já estava morto havia
3.000 anos quando Roma foi fundada, cerca de
600 quilômetros mais ao sul.
O
corpo mumificado foi encontrado por acaso por dois turistas alemães
em 19 de setembro de 1991. Estava parcialmente submerso em uma poça
de gelo derretido, nas montanhas entre a Áustria e a Itália.
Em torno dele foram achados seus objetos pessoais. São fascinantes:
roupas feitas de palha, couro e pele de animais não
havia uma única peça de tecido, que talvez fosse desconhecido
para seu povo. Havia também um machado com lâmina de
cobre, um punhal de pedra lascada, um arco, um estojo com catorze
flechas, duas delas com pontas de pedra, e outras coisas em duas
bolsas, como pedaços de carvão, provavelmente usados
para acender o fogo. Nunca antes se teve um vislumbre tão
nítido da Pré-História. "É uma visão
única da vida cotidiana numa época que deixou poucos
vestígios", diz o arqueólogo alemão Markus
Egg, do Museu Romano-Germânico de Mainz, na Alemanha, responsável
pela análise do equipamento e das roupas da múmia.
Em geral, a madeira, o couro e as fibras vegetais desaparecem totalmente
com a passagem dos milênios e os achados arqueológicos
se resumem em pedaços de pedras lascadas. "No caso do Homem
do Gelo, não apenas as peças estavam intactas como
se encontrou uma espécie de pacote, com tudo junto", explica
ele.
Logo
depois da descoberta, a Itália e a Áustria disputaram
o corpo. Por fim, concluiu-se que ele tinha sido encontrado em solo
italiano e pertencia, portanto, à Itália. O Homem
do Gelo passou seis anos numa universidade austríaca e hoje
está exposto no Museu Arqueológico de Bolzano, na
Itália. Lá, fica em câmara refrigerada com temperatura
de 6 graus negativos e umidade relativa de 98%. São condições
idênticas às da geleira de onde foi resgatado. O uso
de tecnologia avançada permitiu saber muita coisa sobre o
Homem do Gelo. As circunstâncias de sua morte são o
assunto que mais intriga os pesquisadores. Até dois anos
atrás, a hipótese mais aceita era que ele foi surpreendido
por uma nevasca e, exausto, morreu de hipotermia, sendo sepultado
pela neve. Foi o degelo excepcional na última década,
causado pelo aquecimento global, que expôs novamente o corpo.
Em junho de 2001, um radiologista italiano, ao fazer exames de rotina
no corpo mumificado, encontrou uma mancha estranha no ombro esquerdo.
Um estudo mais detalhado revelou a ponta de pedra de uma flecha.
Ao
analisar o corpo, o legista italiano Eduard Egarter Vigl, responsável
pela conservação da múmia no museu de Bolzano,
descobriu o orifício por onde o projétil entrou. "Ele
foi provavelmente atingido pelas costas, talvez numa briga. Tentou
arrancar a flecha, mas a haste quebrou. Nós encontramos também
sinais de cortes nas mãos, provavelmente outro indício
da luta", diz Vigl. Em agosto, um biólogo molecular australiano
revelou ter encontrado vestígios de sangue de pelo menos
quatro outras pessoas nas roupas, mãos e armas do Homem do
Gelo. Pode significar que ele se envolveu numa briga séria,
em que várias pessoas saíram feridas.
O
retrato que sai dessa bateria de testes é que Ötzi
o apelido que recebeu dos austríacos, numa referência
ao nome de um vale próximo era provavelmente um caçador
em torno de 45 anos, idade avançada naqueles tempos. Sofria
de artrite, hérnia de disco e tinha o intestino infestado
de lombrigas. Em março, outro exame mostrou que também
tinha problemas cardíacos, com calcificações
nas artérias. Pelo que se encontrou em seu estômago,
as últimas refeições incluíram carne
de cabrito selvagem e de cervo, cereais e uma erva desconhecida.
Um achado desse tipo é a oportunidade para impressionantes
descobertas científicas e também, como se viu,
o estopim para o surgimento de todo tipo de bobagem e especulação
escandalosa. Muitos dos boatos foram criados por pessoas interessadas
em atribuir ao homem do passado seus próprios hábitos
e crenças modernas. Veja uma lista resumida de absurdos divulgados
sobre o Homem do Gelo:
Em 1993, uma revista gay publicou que tinha sido identificado esperma
em sua cavidade anal. Portanto, o Homem do Gelo tinha sido homossexual.
Pura invenção, pois nenhum exame detectou vestígios
de sêmen.
As primeiras análises não encontraram os órgãos
sexuais. Seria um eunuco. Novo exame revelou que a genitália
está intacta, mas encolhida pelo processo de mumificação.
Em 1994, divulgou-se que cogumelos secos achados em sua bolsa eram
alucinógenos. Portanto, era um drogado. A tese dos pesquisadores
é que eram medicamentos.
Em 1998 foi dito que marcas em seus joelhos eram pontos de acupuntura.
Na verdade, são tatuagens.
Um jornalista alemão publicou um livro sustentando que se
trata de fraude. O Homem do Gelo seria uma múmia egípcia
do Museu Britânico colocada na geleira para atrair turistas.
A verdade: os testes científicos realizados não deixam
dúvida sobre sua autenticidade.
Uma mulher fez um pedido formal para ser fertilizada com o esperma
congelado do Homem do Gelo.
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