Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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Arqueologia
O homem do gelo

Doze anos de estudos em corpo congelado
durante 5 300 anos revelam como se vivia
e morria na Pré-História


Daniel Hessel Teich

Doze anos atrás, em setembro de 1991, encontrou-se uma testemunha de um tempo sobre o qual se sabe muito pouco, a Pré-História na Europa Central. Trata-se do corpo mumificado de um homem que viveu há 5.300 anos, preservado todo esse tempo pela neve eterna numa passagem a 3.200 metros de altura nos Alpes. Desde então, o Homem do Gelo, como é mais conhecido, e seus pertences vêm sendo analisados por equipes sucessivas de antropólogos, médicos-legistas, geneticistas, historiadores e paleontólogos. Estima-se que seja o corpo mais estudado por cientistas de todos os tempos. O esforço tem valido a pena. A descoberta do Homem do Gelo é como se uma janela tivesse se aberto inesperadamente sobre os costumes, a tecnologia e até os hábitos alimentares de populações tão antigas que nem sequer temos um nome para elas ou podemos imaginar que línguas falavam. Acredita-se que viviam em pequenas aldeias, mantinham roças rudimentares, não conheciam o ferro e ainda não tinham domesticado o cavalo. Na Mesopotâmia e na China, começavam a se formar as primeiras cidades. Ele já estava morto havia 3.000 anos quando Roma foi fundada, cerca de 600 quilômetros mais ao sul.

O corpo mumificado foi encontrado por acaso por dois turistas alemães em 19 de setembro de 1991. Estava parcialmente submerso em uma poça de gelo derretido, nas montanhas entre a Áustria e a Itália. Em torno dele foram achados seus objetos pessoais. São fascinantes: roupas feitas de palha, couro e pele de animais – não havia uma única peça de tecido, que talvez fosse desconhecido para seu povo. Havia também um machado com lâmina de cobre, um punhal de pedra lascada, um arco, um estojo com catorze flechas, duas delas com pontas de pedra, e outras coisas em duas bolsas, como pedaços de carvão, provavelmente usados para acender o fogo. Nunca antes se teve um vislumbre tão nítido da Pré-História. "É uma visão única da vida cotidiana numa época que deixou poucos vestígios", diz o arqueólogo alemão Markus Egg, do Museu Romano-Germânico de Mainz, na Alemanha, responsável pela análise do equipamento e das roupas da múmia. Em geral, a madeira, o couro e as fibras vegetais desaparecem totalmente com a passagem dos milênios e os achados arqueológicos se resumem em pedaços de pedras lascadas. "No caso do Homem do Gelo, não apenas as peças estavam intactas como se encontrou uma espécie de pacote, com tudo junto", explica ele.

Logo depois da descoberta, a Itália e a Áustria disputaram o corpo. Por fim, concluiu-se que ele tinha sido encontrado em solo italiano e pertencia, portanto, à Itália. O Homem do Gelo passou seis anos numa universidade austríaca e hoje está exposto no Museu Arqueológico de Bolzano, na Itália. Lá, fica em câmara refrigerada com temperatura de 6 graus negativos e umidade relativa de 98%. São condições idênticas às da geleira de onde foi resgatado. O uso de tecnologia avançada permitiu saber muita coisa sobre o Homem do Gelo. As circunstâncias de sua morte são o assunto que mais intriga os pesquisadores. Até dois anos atrás, a hipótese mais aceita era que ele foi surpreendido por uma nevasca e, exausto, morreu de hipotermia, sendo sepultado pela neve. Foi o degelo excepcional na última década, causado pelo aquecimento global, que expôs novamente o corpo. Em junho de 2001, um radiologista italiano, ao fazer exames de rotina no corpo mumificado, encontrou uma mancha estranha no ombro esquerdo. Um estudo mais detalhado revelou a ponta de pedra de uma flecha.

Ao analisar o corpo, o legista italiano Eduard Egarter Vigl, responsável pela conservação da múmia no museu de Bolzano, descobriu o orifício por onde o projétil entrou. "Ele foi provavelmente atingido pelas costas, talvez numa briga. Tentou arrancar a flecha, mas a haste quebrou. Nós encontramos também sinais de cortes nas mãos, provavelmente outro indício da luta", diz Vigl. Em agosto, um biólogo molecular australiano revelou ter encontrado vestígios de sangue de pelo menos quatro outras pessoas nas roupas, mãos e armas do Homem do Gelo. Pode significar que ele se envolveu numa briga séria, em que várias pessoas saíram feridas.

O retrato que sai dessa bateria de testes é que Ötzi – o apelido que recebeu dos austríacos, numa referência ao nome de um vale próximo – era provavelmente um caçador em torno de 45 anos, idade avançada naqueles tempos. Sofria de artrite, hérnia de disco e tinha o intestino infestado de lombrigas. Em março, outro exame mostrou que também tinha problemas cardíacos, com calcificações nas artérias. Pelo que se encontrou em seu estômago, as últimas refeições incluíram carne de cabrito selvagem e de cervo, cereais e uma erva desconhecida. Um achado desse tipo é a oportunidade para impressionantes descobertas científicas – e também, como se viu, o estopim para o surgimento de todo tipo de bobagem e especulação escandalosa. Muitos dos boatos foram criados por pessoas interessadas em atribuir ao homem do passado seus próprios hábitos e crenças modernas. Veja uma lista resumida de absurdos divulgados sobre o Homem do Gelo:

• Em 1993, uma revista gay publicou que tinha sido identificado esperma em sua cavidade anal. Portanto, o Homem do Gelo tinha sido homossexual. Pura invenção, pois nenhum exame detectou vestígios de sêmen.

• As primeiras análises não encontraram os órgãos sexuais. Seria um eunuco. Novo exame revelou que a genitália está intacta, mas encolhida pelo processo de mumificação.

• Em 1994, divulgou-se que cogumelos secos achados em sua bolsa eram alucinógenos. Portanto, era um drogado. A tese dos pesquisadores é que eram medicamentos.

• Em 1998 foi dito que marcas em seus joelhos eram pontos de acupuntura. Na verdade, são tatuagens.

• Um jornalista alemão publicou um livro sustentando que se trata de fraude. O Homem do Gelo seria uma múmia egípcia do Museu Britânico colocada na geleira para atrair turistas. A verdade: os testes científicos realizados não deixam dúvida sobre sua autenticidade.

• Uma mulher fez um pedido formal para ser fertilizada com o esperma congelado do Homem do Gelo.

 

 
 
 
 
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