Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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China
O lado sombrio da China

No país que mais cresce, as mulheres
são até vendidas como escravas sexuais


AFP
Campanha oficial contra a violência doméstica: pouco efeito nas aldeias


A China impressiona pela rapidez de seu crescimento econômico, o mais acelerado do mundo. Nos últimos 25 anos, 400 milhões de chineses passaram para o lado bom da linha de pobreza e se tornaram consumidores de produtos modernos. O desenvolvimento, contudo, é desigual. Dois terços do 1,3 bilhão de chineses vivem em áreas rurais muito pobres. Existe brutal diferença entre o modo como vive a população nas cidades e no campo – e isso é mais agudo no que se refere às mulheres, pelas quais a cultura chinesa tradicional não tem muita consideração. "A apenas duas horas de carro de uma grande cidade como Xangai, a vida chinesa segue como há 500 anos", disse a VEJA Xinran Hue, a escritora chinesa de maior sucesso no Ocidente e que hoje vive em Londres. "Em 1996 fui a uma aldeia numa das áreas mais pobres da China. Lá conheci uma família em que oito irmãs dividiam uma única roupa. Por causa da pobreza, elas faziam rodízio para usar uma calça e sair de casa." As mulheres daquela região não têm o direito de se alimentar como os homens. Só eles podem comer o pão típico do lugar, chamado mo, preparado com os melhores grãos. As mulheres e as crianças sobrevivem à base de um mingau ralo de trigo.

O que Xinran viu com os próprios olhos não é um fato isolado. Em um relatório recente sobre a China, o Banco Mundial surpreende-se por ter encontrado "evidências de que as garotas em áreas pobres obtêm menos assistência médica e alimentação menos nutritiva do que os garotos". Em algumas áreas rurais, a maior honra na vida de uma chinesa é reservada para quando ela dá à luz um filho. Nesse dia, ela recebe uma tigela de ovo com açúcar misturados em água quente. O mesmo privilégio não é dado no caso do nascimento de uma menina. A China é um dos raros países em que há menos mulheres do que homens, numa proporção de 118 para 100. A desproporção inusitada entre os sexos é a decorrência lógica de 4.000 anos de preferência por filhos. Desde os tempos de Confúcio, só os filhos podem oferecer sacrifícios aos espíritos domésticos, herdar o nome e a propriedade da família. Também é costume a entrega de um dote a cada uma das filhas por ocasião do casamento. Elas, que tradicionalmente deixam a casa dos pais quando se casam e vão viver com os sogros, foram por séculos consideradas um investimento sem retorno financeiro.

A política do filho único, instituída pelo governo comunista em 1979, transformou o infanticídio das meninas num fenômeno de proporções monumentais. Em certas províncias, morrem antes de completar 1 ano de idade 82 de cada 1.000 bebês femininos. A mortalidade entre meninos é de apenas 34 por 1.000. Em qualquer país, esses números teriam causado alarme entre as autoridades e os médicos. Na China, ninguém dá a mínima. O governo proibiu o uso de exames de ultra-som para determinar o sexo do feto, pois são usados para que a mãe possa se livrar das meninas antes mesmo que nasçam. Na prática, nada mudou. Um fenômeno decorrente da falta de mulheres é o seqüestro delas para ser vendidas como esposas. Em certos lugares, irmãos muito pobres compram uma única esposa e a compartilham, para garantir a continuidade da família. De acordo com dados oficiais, entre 1990 e 1998 a polícia libertou 65.000 mulheres casadas à força e mantidas como verdadeiras prisioneiras da família do marido.

Xinran Hue, cujo livro As Boas Mulheres da China reúne quinze histórias reais de miséria feminina no país, relata o caso de uma menina de 12 anos vendida como esposa a um velho aleijado de 60 anos e mantida acorrentada para evitar que fugisse. A escritora conseguiu que a polícia libertasse a garota, que tinha a cintura em carne viva devido ao atrito da corrente. Em lugar de agradecimentos, o que ouviu foi advertências. "Esse tipo de coisa acontece muito. Se todo mundo reagisse como a senhora, morreríamos de tanto trabalhar", disse um policial. "E, de toda forma, é um caso perdido. Esses camponeses vão fazer de tudo para conseguir uma mulher e gerar herdeiros." Não é sem motivo que a China se tornou o único país em que o número de mortes por suicídio é maior entre as mulheres. Com um quinto da população mundial, a China responde por 55% dos casos femininos. Na maioria dos países, as mulheres escolhem métodos pouco radicais – pílulas em lugar de armas –, e a maioria sobrevive. Já as chinesas ingerem pesticida, fácil de encontrar no campo, e quase sempre letal. Uma das causas para o suicídio feminino é a violência doméstica. Estima-se que atinja uma em cada três chinesas casadas – e isso ocorre tanto no campo quanto nas cidades modernas. Em casas tradicionais, não apenas o marido tem o direito de espancar a esposa. Ela também pode ser o saco de pancada da sogra e dos cunhados. No ano passado, o governo concedeu às chinesas o direito de pedir o divórcio sob alegação de sofrer maus-tratos em casa. Mesmo assim, a maioria não deixa o marido, pois o divórcio é um estigma nas famílias chinesas.

 
 
 
 
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