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China
O
lado sombrio da China
No
país que mais cresce, as mulheres
são até vendidas como escravas sexuais
AFP
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| Campanha
oficial contra a violência doméstica: pouco efeito nas aldeias
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A China impressiona pela rapidez de seu crescimento econômico,
o mais acelerado do mundo. Nos últimos 25 anos, 400 milhões
de chineses passaram para o lado bom da linha de pobreza e se tornaram
consumidores de produtos modernos. O desenvolvimento, contudo, é
desigual. Dois terços do 1,3 bilhão de chineses vivem
em áreas rurais muito pobres. Existe brutal diferença
entre o modo como vive a população nas cidades e no
campo e isso é mais agudo no que se refere às
mulheres, pelas quais a cultura chinesa tradicional não tem
muita consideração. "A apenas duas horas de carro
de uma grande cidade como Xangai, a vida chinesa segue como há
500 anos", disse a VEJA Xinran Hue, a escritora chinesa de maior
sucesso no Ocidente e que hoje vive em Londres. "Em 1996 fui a uma
aldeia numa das áreas mais pobres da China. Lá conheci
uma família em que oito irmãs dividiam uma única
roupa. Por causa da pobreza, elas faziam rodízio para usar
uma calça e sair de casa." As mulheres daquela região
não têm o direito de se alimentar como os homens. Só
eles podem comer o pão típico do lugar, chamado mo,
preparado com os melhores grãos. As mulheres e as crianças
sobrevivem à base de um mingau ralo de trigo.
O
que Xinran viu com os próprios olhos não é
um fato isolado. Em um relatório recente sobre a China, o
Banco Mundial surpreende-se por ter encontrado "evidências
de que as garotas em áreas pobres obtêm menos assistência
médica e alimentação menos nutritiva do que
os garotos". Em algumas áreas rurais, a maior honra na vida
de uma chinesa é reservada para quando ela dá à
luz um filho. Nesse dia, ela recebe uma tigela de ovo com açúcar
misturados em água quente. O mesmo privilégio não
é dado no caso do nascimento de uma menina. A China é
um dos raros países em que há menos mulheres do que
homens, numa proporção de 118 para 100. A desproporção
inusitada entre os sexos é a decorrência lógica
de 4.000 anos de preferência por
filhos. Desde os tempos de Confúcio, só os filhos
podem oferecer sacrifícios aos espíritos domésticos,
herdar o nome e a propriedade da família. Também é
costume a entrega de um dote a cada uma das filhas por ocasião
do casamento. Elas, que tradicionalmente deixam a casa dos pais
quando se casam e vão viver com os sogros, foram por séculos
consideradas um investimento sem retorno financeiro.
A
política do filho único, instituída pelo governo
comunista em 1979, transformou o infanticídio das meninas
num fenômeno de proporções monumentais. Em certas
províncias, morrem antes de completar 1 ano de idade 82 de
cada 1.000 bebês femininos. A mortalidade
entre meninos é de apenas 34 por 1.000.
Em qualquer país, esses números teriam causado alarme
entre as autoridades e os médicos. Na China, ninguém
dá a mínima. O governo proibiu o uso de exames de
ultra-som para determinar o sexo do feto, pois são usados
para que a mãe possa se livrar das meninas antes mesmo que
nasçam. Na prática, nada mudou. Um fenômeno
decorrente da falta de mulheres é o seqüestro delas
para ser vendidas como esposas. Em certos lugares, irmãos
muito pobres compram uma única esposa e a compartilham, para
garantir a continuidade da família. De acordo com dados oficiais,
entre 1990 e 1998 a polícia libertou 65.000
mulheres casadas à força e mantidas como verdadeiras
prisioneiras da família do marido.
Xinran
Hue, cujo livro As Boas Mulheres da China reúne quinze
histórias reais de miséria feminina no país,
relata o caso de uma menina de 12 anos vendida como esposa a um
velho aleijado de 60 anos e mantida acorrentada para evitar que
fugisse. A escritora conseguiu que a polícia libertasse a
garota, que tinha a cintura em carne viva devido ao atrito da corrente.
Em lugar de agradecimentos, o que ouviu foi advertências.
"Esse tipo de coisa acontece muito. Se todo mundo reagisse como
a senhora, morreríamos de tanto trabalhar", disse um policial.
"E, de toda forma, é um caso perdido. Esses camponeses vão
fazer de tudo para conseguir uma mulher e gerar herdeiros." Não
é sem motivo que a China se tornou o único país
em que o número de mortes por suicídio é maior
entre as mulheres. Com um quinto da população mundial,
a China responde por 55% dos casos femininos. Na maioria dos países,
as mulheres escolhem métodos pouco radicais pílulas
em lugar de armas , e a maioria sobrevive. Já as chinesas
ingerem pesticida, fácil de encontrar no campo, e quase sempre
letal. Uma das causas para o suicídio feminino é a
violência doméstica. Estima-se que atinja uma em cada
três chinesas casadas e isso ocorre tanto no campo
quanto nas cidades modernas. Em casas tradicionais, não apenas
o marido tem o direito de espancar a esposa. Ela também pode
ser o saco de pancada da sogra e dos cunhados. No ano passado, o
governo concedeu às chinesas o direito de pedir o divórcio
sob alegação de sofrer maus-tratos em casa. Mesmo
assim, a maioria não deixa o marido, pois o divórcio
é um estigma nas famílias chinesas.
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