Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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Governo
Rogai por mim, por mim...

A enroladíssima viagem de Benedita e
seu talento para cuidar de si e dos seus


Malu Gaspar

 
Luis Antonio
A ministra, em passeata com idosos em Brasília: sua biografia virou escudo


Notícias diárias sobre governo Lula

"A Benedita me trouxe documentos provando que ela foi para um ato religioso, mas, ao mesmo tempo, ela foi encontrar com a ministra do Desenvolvimento Social da Argentina e foi participar de um debate com empresários." A frase, dita pelo presidente da República na quinta-feira passada, é uma absolvição da ministra Benedita da Silva, da Assistência Social. Há duas semanas, a ministra passou 24 horas em Buenos Aires, numa viagem bancada pelos cofres públicos, em que compareceu a um café-da-manhã com evangélicos argentinos, religião que ela abraçou há mais de trinta anos. Um dia antes de seu embarque, o Diário Oficial da União informava que o ato religioso era seu único compromisso portenho, mas, mais tarde, divulgou-se que ocorrera um erro. Além do desjejum evangélico, Benedita tinha dois compromissos oficiais na capital argentina, conforme destacou o presidente na semana passada. Isso, portanto, mostra que não usou dinheiro público apenas para professar sua fé como uma devota da Assembléia de Deus, dona do mais numeroso rebanho evangélico do Brasil, com 8,4 milhões de fiéis.

O episódio talvez seja pequeno demais para tanto barulho, mas há sinais eloqüentes de algo mais incômodo: Benedita da Silva parece ter induzido o presidente da República a uma ilusão. A ministra desembarcou em Buenos Aires na noite de quarta-feira 24 de setembro e foi direto para o hotel Alvear, no sofisticado bairro da Recoleta. No dia seguinte, passou a manhã no encontro com cerca de 1.000 evangélicos argentinos. O tal "debate com empresários" não passou de um almoço casual, um prolongamento do encontro religioso da manhã. No almoço, estavam presentes apenas quatro empresários argentinos. Um deles era Guillermo Murchison, do ramo da construção civil, que também é evangélico e também estava no encontro matinal. Outra era Silvia Graciela Arana de Olier, que igualmente estava no ato religioso da manhã. Silvia Olier é ministra da Unión de Asambleas de Dios na Argentina e preside a Fundación Dios Es Amor, que presta assistência social nos bairros pobres da cidade de Mar del Plata.

O que mais se aproxima da definição de "compromisso oficial" é a audiência que Benedita teve com sua colega argentina Alicia Kirchner, ministra do Desenvolvimento Social e irmã do presidente Néstor Kirchner. O encontro não foi muito frutífero porque acabou sendo arranjado às pressas. Só no dia anterior ao embarque de Benedita, quando já circulava a notícia de que viajaria apenas para comparecer a um encontro evangélico, sua assessoria confirmou para o dia seguinte a audiência com Alicia Kirchner. "Cinco dias antes fomos consultados sobre a agenda da ministra, mas nosso ministério só foi notificado da reunião na véspera", diz Fernando Gray, diretor de comunicação de Alicia Kirchner. A viagem ao exterior de Benedita – a sétina que fez no governo, perdendo apenas para os ministros da Agricultura, Roberto Rodrigues, e do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan – ganhou relevância pelo atropelo ético, mas também em razão de um dado de fundo: em nove meses no cargo, Benedita não mostrou talento para lidar com a assistência aos pobres, mas tem revelado tarimba extraordinária para trabalhar em favor de si e dos seus.

Em agosto passado, Benedita criou um grupo de trabalho para orientar entidades assistenciais a obter verbas sociais de seu ministério. Descobriu-se, porém, que o grupo era composto de quatro técnicos do governo e quinze evangélicos – e as orientações seriam destinadas apenas às igrejas evangélicas. "Achamos a criação do grupo meio estranha", diz Valdete Martins, presidente do Conselho Nacional de Assistência Social, órgão que trata da área social. "Determinamos que qualquer liberação de verba precisa antes passar pelo nosso conselho." Logo que assumiu, Benedita introduziu outra inovação. Criou quatro escritórios regionais de seu ministério, mas, até agora, o único que saiu do papel é o da Região Sudeste, cuja sede fica no Rio de Janeiro. Tem nove funcionários. Nos corredores do ministério em Brasília, o escritório é chamado de "Posto 6", espirituosa referência ao marco que identifica os prazeres malemolentes da Praia de Copacabana. No Sudeste fica a menor concentração proporcional de pobres do país, público-alvo do ministério, mas 100% dos eleitores fluminenses, público-alvo da ministra.

Fértil nas idéias voltadas para seu grupo religioso e sua base eleitoral, Benedita da Silva não tem se destacado nas idéias em geral. Seu ministério está sendo esvaziado, perdendo dinheiro e programas, como se constata na proposta orçamentária para o ano que vem. Nem suas opiniões têm sido ouvidas na hora de discutir a questão social. Recentemente, com a intenção de desatolar as ações sociais do governo, o Palácio do Planalto resolveu unificar vários programas num só, criando o Bolsa-Família. Benedita, porém, não participou das discussões. Na terça-feira passada, o presidente Lula reuniu-se o dia inteiro com 26 governadores e reservou a parte da manhã para debater o Bolsa-Família. Lula tentou convencer os governadores a aderir ao programa, de modo a dar-lhe mais capilaridade. De novo, Benedita não foi sequer convidada para o encontro. Em seu lugar, foi escalado seu secretário executivo, Ricardo Henriques, apontado como o verdadeiro ministro da Assistência Social. Em virtude desses movimentos, o nome de Benedita aparece em qualquer lista de demissíveis na reforma ministerial que virá.


Lino Rodrigues
O ator Antônio Pitanga, marido há dez anos de Benedita


Aos 61 anos, dois filhos, casada há dez anos com o ator Antônio Pitanga, Benedita da Silva tem um currículo de vitórias estupendas. Uma entre quinze filhos, criada numa favela e estuprada na infância, ela começou a vida como engraxate, camelô, doméstica e vendedora de pastel, mas venceu a barreira social e ainda cravou sucessivos ineditismos: foi a primeira negra a tomar posse como senadora, governadora e, agora, ministra. É lamentável, pelo que simboliza, que seu desempenho como ministra só tenha produzido um agudo contraste com sua biografia vencedora. Em vez de explicar-se claramente sobre a viagem à Argentina, por exemplo, ela não quis comentar o assunto. Insinua que é uma perseguição religiosa. É uma abordagem recorrente. Em 2000, quando se discutia sua candidatura ao governo do Rio, deu-se um conflito dentro do PT, e Benedita também se referiu à sua vida e às suas opções para rebater as críticas. "Muitas críticas são movidas por preconceitos, e não por ideologia ou ética", afirmou. É pena que, nos últimos tempos, Benedita, em vez de usar sua biografia como bandeira, tenha passado a usá-la como escudo.

 
 
 
 
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