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Governo
Rogai por mim, por mim...
A
enroladíssima viagem de Benedita e
seu talento para cuidar de si e dos seus

Malu
Gaspar
Luis Antonio
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| A
ministra, em passeata com idosos em Brasília: sua biografia
virou escudo |
"A
Benedita me trouxe documentos provando que ela foi para um ato religioso,
mas, ao mesmo tempo, ela foi encontrar com a ministra do Desenvolvimento
Social da Argentina e foi participar de um debate com empresários."
A frase, dita pelo presidente da República na quinta-feira
passada, é uma absolvição da ministra Benedita
da Silva, da Assistência Social. Há duas semanas, a
ministra passou 24 horas em Buenos Aires, numa viagem bancada pelos
cofres públicos, em que compareceu a um café-da-manhã
com evangélicos argentinos, religião que ela abraçou
há mais de trinta anos. Um dia antes de seu embarque, o Diário
Oficial da União informava que o ato religioso era seu
único compromisso portenho, mas, mais tarde, divulgou-se
que ocorrera um erro. Além do desjejum evangélico,
Benedita tinha dois compromissos oficiais na capital argentina,
conforme destacou o presidente na semana passada. Isso, portanto,
mostra que não usou dinheiro público apenas para professar
sua fé como uma devota da Assembléia de Deus, dona
do mais numeroso rebanho evangélico do Brasil, com 8,4 milhões
de fiéis.
O episódio talvez seja pequeno demais para tanto barulho,
mas há sinais eloqüentes de algo mais incômodo:
Benedita da Silva parece ter induzido o presidente da República
a uma ilusão. A ministra desembarcou em Buenos Aires na noite
de quarta-feira 24 de setembro e foi direto para o hotel Alvear,
no sofisticado bairro da Recoleta. No dia seguinte, passou a manhã
no encontro com cerca de 1.000 evangélicos argentinos. O
tal "debate com empresários" não passou de um almoço
casual, um prolongamento do encontro religioso da manhã.
No almoço, estavam presentes apenas quatro empresários
argentinos. Um deles era Guillermo Murchison, do ramo da construção
civil, que também é evangélico e também
estava no encontro matinal. Outra era Silvia Graciela Arana de Olier,
que igualmente estava no ato religioso da manhã. Silvia Olier
é ministra da Unión de Asambleas de Dios na Argentina
e preside a Fundación Dios Es Amor, que presta assistência
social nos bairros pobres da cidade de Mar del Plata.
O que mais se aproxima da definição de "compromisso
oficial" é a audiência que Benedita teve com sua colega
argentina Alicia Kirchner, ministra do Desenvolvimento Social e
irmã do presidente Néstor Kirchner. O encontro não
foi muito frutífero porque acabou sendo arranjado às
pressas. Só no dia anterior ao embarque de Benedita, quando
já circulava a notícia de que viajaria apenas para
comparecer a um encontro evangélico, sua assessoria confirmou
para o dia seguinte a audiência com Alicia Kirchner. "Cinco
dias antes fomos consultados sobre a agenda da ministra, mas nosso
ministério só foi notificado da reunião na
véspera", diz Fernando Gray, diretor de comunicação
de Alicia Kirchner. A viagem ao exterior de Benedita a sétina
que fez no governo, perdendo apenas para os ministros da Agricultura,
Roberto Rodrigues, e do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan
ganhou relevância pelo atropelo ético, mas também
em razão de um dado de fundo: em nove meses no cargo, Benedita
não mostrou talento para lidar com a assistência aos
pobres, mas tem revelado tarimba extraordinária para trabalhar
em favor de si e dos seus.
Em agosto passado, Benedita criou um grupo de trabalho para orientar
entidades assistenciais a obter verbas sociais de seu ministério.
Descobriu-se, porém, que o grupo era composto de quatro técnicos
do governo e quinze evangélicos e as orientações
seriam destinadas apenas às igrejas evangélicas. "Achamos
a criação do grupo meio estranha", diz Valdete Martins,
presidente do Conselho Nacional de Assistência Social, órgão
que trata da área social. "Determinamos que qualquer liberação
de verba precisa antes passar pelo nosso conselho." Logo que assumiu,
Benedita introduziu outra inovação. Criou quatro escritórios
regionais de seu ministério, mas, até agora, o único
que saiu do papel é o da Região Sudeste, cuja sede
fica no Rio de Janeiro. Tem nove funcionários. Nos corredores
do ministério em Brasília, o escritório é
chamado de "Posto 6", espirituosa referência ao marco que
identifica os prazeres malemolentes da Praia de Copacabana. No Sudeste
fica a menor concentração proporcional de pobres do
país, público-alvo do ministério, mas 100%
dos eleitores fluminenses, público-alvo da ministra.
Fértil nas idéias voltadas para seu grupo religioso
e sua base eleitoral, Benedita da Silva não tem se destacado
nas idéias em geral. Seu ministério está sendo
esvaziado, perdendo dinheiro e programas, como se constata na proposta
orçamentária para o ano que vem. Nem suas opiniões
têm sido ouvidas na hora de discutir a questão social.
Recentemente, com a intenção de desatolar as ações
sociais do governo, o Palácio do Planalto resolveu unificar
vários programas num só, criando o Bolsa-Família.
Benedita, porém, não participou das discussões.
Na terça-feira passada, o presidente Lula reuniu-se o dia
inteiro com 26 governadores e reservou a parte da manhã para
debater o Bolsa-Família. Lula tentou convencer os governadores
a aderir ao programa, de modo a dar-lhe mais capilaridade. De novo,
Benedita não foi sequer convidada para o encontro. Em seu
lugar, foi escalado seu secretário executivo, Ricardo Henriques,
apontado como o verdadeiro ministro da Assistência Social.
Em virtude desses movimentos, o nome de Benedita aparece em qualquer
lista de demissíveis na reforma ministerial que virá.
Lino Rodrigues
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| O
ator Antônio Pitanga, marido há dez anos de Benedita |
Aos 61 anos, dois filhos, casada há dez anos com o ator Antônio
Pitanga, Benedita da Silva tem um currículo de vitórias
estupendas. Uma entre quinze filhos, criada numa favela e estuprada
na infância, ela começou a vida como engraxate, camelô,
doméstica e vendedora de pastel, mas venceu a barreira social
e ainda cravou sucessivos ineditismos: foi a primeira negra a tomar
posse como senadora, governadora e, agora, ministra. É lamentável,
pelo que simboliza, que seu desempenho como ministra só tenha
produzido um agudo contraste com sua biografia vencedora. Em vez
de explicar-se claramente sobre a viagem à Argentina, por
exemplo, ela não quis comentar o assunto. Insinua que é
uma perseguição religiosa. É uma abordagem
recorrente. Em 2000, quando se discutia sua candidatura ao governo
do Rio, deu-se um conflito dentro do PT, e Benedita também
se referiu à sua vida e às suas opções
para rebater as críticas. "Muitas críticas são
movidas por preconceitos, e não por ideologia ou ética",
afirmou. É pena que, nos últimos tempos, Benedita,
em vez de usar sua biografia como bandeira, tenha passado a usá-la
como escudo.
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